terça-feira, 24 de março de 2015

SIMPLIFICANDO O ORIENTE MÉDIO PARA O VESTIBULAR - Parte 5: Grupos políticos, terroristas, extremistas,religiosos da Palestina e territórios vizinhos



Parte 5: Grupos políticos, terroristas, extremistas, religiosos da Palestina e territórios vizinhos

Por Éder Israel

Um pouco alheia às questões ligadas ao Estado Islâmico, porém distante da paz para os povos islâmicos encontra-se a região da Palestina, palco de conflitos ao longo de grande parte da história, embora o acirramento dos combates e das disputas territoriais tenham ocorridos após a Segunda Guerra Mundial, e a consequente criação do Estado de Israel pela Organização das Nações Unidas.

Na região, em especial na Faixa de Gaza situada a sudoeste dos territórios palestinos formou-se ao longo da segunda metade do século XX uma infinidade de grupos extremistas, que embora possuam modos de ações diferentes, seu objetivo maior é sempre o mesmo, que é destruir o Estado de Israel e expulsar a população judia ali instalada a partir de 1947.

Um dos primeiros destes grupos a surgirem nesta região foi o Al-Fatah, fundado em 1959 por palestinos como Yasser Arafat. O Al-Fatah se difere dos outros movimentos da região por dois motivos, o primeiro é o fato de poder ser considerado um movimento laico, e em segundo lugar pelo fato de defender, até certo ponto, o diálogo político com Israel. Essas características tornam o Al-Fatah um movimento muito mais político e militar do que extremista e religioso como os demais.

Em 1964 foi criada a Organização para a Libertação da Palestina – OLP, que pode ser considerada uma espécie de confederação do partidos políticos, os quais têm o objetivo de reaver os territórios da antiga Palestina, ainda durante o período de domínio britânico. É dentro dessa OLP que se insere o Al-Fatah, considerado por analistas políticos como um partido de centro-esquerda dentro desta organização. Embora o Al-Fatah inicialmente defendia o diálogo com Israel, as bases iniciais da OLP defendia ações militares para a expulsão dos judeus dos territórios ditos palestinos.

Posteriormente, Yasser Arafat, que tornou-se uma espécie de presidente da OLP em 1969, reconheceu a existência do Estado de Israel em 1993 no período dos tratados e acordos de Oslo. O Estado de Israel em resposta a isso reconheceu a OLP como legítima representante do povo palestino, dando a entender que a situação dos dois povos tendia a se resolver. Mas sabemos que a história não foi bem essa, e os conflitos ainda eclodem lá até hoje...

Na contramão do teórico diálogo proposto pelo Al-Fatah surge na década de 1970 o grupo batizado de Jihad Islâmica, que de fato prega o extremismo e o radicalismo islâmico, tendo como objetivo principal a destruição plena do Estado judeu nos territórios palestinos. O grupo que se estabeleceu na Faixa de Gaza, assim como a maioria dos movimentos antissemitas do Oriente Médio é acusada de ser financiada pelo governo iraniano. Atualmente a Jihad Islâmica se sedia em Damasco, capital da Síria, e segundo cientistas políticos, diferentemente do Al-Fatah não possui forte ideologia ou propostas de fundo político, caracterizando marcadamente como um movimento de cunho extremista antissemita. Um dos aspectos mais notáveis da Jihad Islâmica é o fato de considerar o confronto com os judeus israelenses como uma guerra santa, que como já informamos em textos anteriores não é a ideia central do termo jihad.
No ano de 1982 foi criado nessa região aquele que seja talvez um dos maiores expoentes dos movimentos políticos e religiosos do Oriente Médio, o Hezbollah, que assim como a Jihad Islâmica é acusado de ter recebido financiamento do governo do Irã. Inicialmente a intenção dos membro do Hezbollah era a expulsão de tropas israelenses que se localizavam no sul do Líbano, as quais ali permaneciam sob a alegação de impedir a realização de ataques contra a porção norte do Estado judeu.

No início dos anos 2000 os soldados israelenses desocuparam o sul do Líbano, e um acordo foi proposto pela ONU para o desarmamento do grupo, o que não foi cumprido pelo Hezbollah. No Líbano o grupo é considerado por uma parcela significativa da população como sendo um movimento social, uma vez que realiza uma série de ações que seriam atribuições do Estado, tais como investimentos sociais e programas de saúde oferecidos às camadas mais pobres do Líbano, o que dificulta a separação da fração política que beneficia ao povo e a terrorista que ataca Israel. Em meados dos anos 2000 o Hezbollah ampliou seu poder político no Líbano quando conseguiu ocupar 14 postos no parlamento do país, porém como já mencionado, por um lado o grupo se torna mais politizado, mas por outro as ações terroristas e militares conta Israel permanecem ocorrendo da mesma forma de antes.

Outro importante grupo desta região é o Hamas, criado em 1987 na Faixa de Gaza, que assim como a maior parte dos demais grupos tem como principal bandeira o fim do Estado de Israel. Assim como o Hezbollah no Líbano, o Hamas na Palestina possui também um importante caráter político, o que não impede suas ações tidas como extremistas pela sociedade internacional. Um dos grandes pontos importantes do Hamas é o fato de realizar uma oposição que por vezes se torna ferrenha contra a OLP, a qual julga ineficiente em solucionar a situação dos povos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia.

Em 2006 o grupo se tornou o grande vitorioso nas eleições para o Parlamento Palestino, o que levou Estados Unidos e União Europeia a suspenderem por tempo indeterminado o envio de ajuda financeira e suprimentos para a Autoridade Palestina, sob alegação de que tais cortes seriam suspensos apenas quando o Hamas revogasse as ações terroristas e aceitasse a existência e reconhecesse a autonomia e a soberania nacional do Estado de Israel, o que convenhamos, não vai acontecer...

Recentemente, como se a situação não estivesse suficientemente complicada na região, o Hamas iniciou uma onda de ataques e conflitos contra o Al-Fatah, que considera condescendente com as ações expansionistas do Estado judeu, e conivente com a opressão que alega sofrer o povo palestino, dentro e fora da Faixa de Gaza.

No ano 2000 surgiu a Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, um braço armado que se separou do Al-Fatah e passou a atuar de modo terrorista contra soldados e populações israelenses, em vingança aos combates ocorridos nesse mesmo ano entre soldados de Israel e colonos da Cisjordânia na Mesquita de Al-Aqsa. Apesar de ser um grupo de menor dimensão que os demais, as Brigadas de Al-Aqsa realizam sistematicamente atentados e ataques terroristas contra alvos civis e militares do Estado judeu, principalmente a partir do momento em que Mahmud Abbas, então presidente da Autoridade Palestina permitiu/determinou que os homens desse grupo passassem a fazer parte das forças de segurança do governo em 2005, fato que agravou ainda mais a situação já delicada entre os povos dessa região.

De modo geral essa é a atual situação dessa porção do Oriente Médio, com grupos e mais grupos querendo o fim do Estado de Israel, governos formados por frações desses grupos que se tornaram partidos políticos e assumiram grande parte dos cargos administrativos de países e territórios importantes, ações terroristas camufladas em ideologias religiosas, extremismos islâmicos acobertando problemas políticos seculares. Enfim, não há de fato luz no fim do túnel, pelo menos em um futuro próximo para esta disputa entre palestinos e judeus...

Continua...

sábado, 21 de março de 2015

SIMPLIFICANDO O ORIENTE MÉDIO PARA O VESTIBULAR - Parte 4: Grupos e organizações extremistas e/ou terroristas



Parte 4: Grupos e organizações extremistas e/ou terroristas

Por Éder Israel

Embora seja o Oriente Médio comparado com um imenso “barril de pólvora” de conflitos e combates entre povos, etnias, religiões e culturas diferentes, o grande erro que se comete, mais uma vez, é estabelecer uma relação direta de causa e consequência entre esses conflitos e a religião islâmica. Trata-se na verdade de uma parte do islamismo, que pode e deve ser chamada de extremista que dá origem à quase totalidade destes conflitos, porém aos olhos ocidentais torna-se mais fácil e prática a idealização de um binômio sem exceções que liga todo o islamismo a toda ação radical na região, e atualmente até fora dela.

Tais indivíduos extremistas e radicais se organizam historicamente em grupos de ações que geralmente tornam-se terroristas, os quais inicialmente se localizavam e atuavam na região do Oriente Médio, porém com a globalização e as maiores interação e interdependência entre povos e locais, suas ações se espalharam pelo mundo, assim como as pessoas que são afeitas a essas ideias extremistas. A ideia aqui é apresentar de modo breve, porém esclarecedor, os principais grupos que se enquadrem nesses aspectos, portanto, vamos a eles.

Um dos mais importantes grupos terroristas compostos por extremistas religiosos, não por ser o mais antigo, mas sim pela amplitude de suas ações fora do Oriente Médio é a Al Qaeda, responsável por grandes ataques realizados principalmente contra alvos estadunidenses, tais como aqueles de 11 de setembro de 2001, ou mesmo as embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia em 1998, ou ainda contra o navio USS Cole, pertencente à marinha estadunidense e se encontrava aportado no Iêmen.

O termo Al Qaeda significa em árabe A Base, funcionou literalmente como essa base para as ações terroristas de Osama Bin Laden e seus comandados a partir da década de 1980, porém a grande ironia no aumento da amplitude das ações e da influência da Al Qaeda no mundo se deu com apoio e financiamento dos Estados Unidos, que se tornaria alvo nas ações terroristas acima citadas.

No final da década de 1980 o socialismo da União Soviética apresentava sinais de exaustão, e em plena Guerra Fria era a grande chance para os Estados Unidos finalmente vencerem o conflito ideológico do período da bipolaridade mundial. Para alcançar a referida vitória era necessário estabelecer alianças e minar pelo mundo as ações e últimas tentativas da União Soviética de reerguer o socialismo, tal qual se observava nesse período no Afeganistão, onde tropas soviéticas se sustentava a duras penas nos territórios afegãos desde 1979.

Nesse período o governo estadunidense realizou grandes investimentos e forneceu armamentos e tecnologias militares para que as tropas russas fossem expulsas do Afeganistão, o que criou um acordo entre os Estados Unidos e os extremistas islâmicos que culminariam futuramente nos atentados terroristas contra alvos estadunidenses, principalmente a partir da expulsão das tropas russas e a implantação de bases militares estadunidenses na região da Península Arábica, considerada sagrada em diversas partes para os islâmicos e árabes. Essas bases militares ali instaladas foram vistas pelos radicais islâmicos como uma afronta, semelhante àquela representada pela presença das tropas soviéticas no Afeganistão. Pronto, os Estados Unidos agora eram inimigos da Al Qaeda e as armas enviadas por Washington DC seriam usadas contra as tropas estadunidenses.

Outro grupo extremistas que se insere neste contexto é o Talibã, formado por membros de tribos interioranas, em sua maioria afegã, que surge em meados de 1994 no Afeganistão. O termo Talibã significa Estudante, e foi mais ou menos isso mesmo que aconteceu, pois as experiências extremistas da Al Qaeda serviram em grande parte de base para as ideias deste novo grupo, que tem como grande diferencial do grupo anterior o fato de se embrenhar no mundo político, aspecto que não se observava nas origens da Al Qaeda, que era um grupo baseado principalmente em motivações religiosas.

Os Talibãs assumem o poder no Afeganistão e governam o país de 1996, quando retira do poder outro grupo militar e religioso local, chamado Mujahedins. O “Estudantes” governam o país, porém seu governo e sua “nação” foram reconhecidos apenas pelo Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Os talibãs governaram o Afeganistão, onde impuseram a Lei Islâmica no período de 1996 até 2001, quando o país foi invadido pelos Estados Unidos sob a acusação de que o grupo extremista estava dando abrigo e proteção a Osama Bin Laden, responsável pelos atentados terroristas de 11 de setembro.

Ainda no Oriente Médio se formou um novo grupo fundamentalista recentemente, quando em 2011 no norte da Síria nasceu a Frente al-Nusra um grupo que tem como base ideológica a libertação do povo sírio através de uma aliança islâmica com líderes e homens importantes da Al Qaeda. A Frente al-Nusra tem suas intenções muito próximas daquelas observadas pelo Estado Islâmico, porém a dimensão de seu plano de estabelecimento de um território islâmico se restringe ao norte da Síria e a uma parcela do Iraque, enquanto o Estado Islâmico pretende implantar esse regime por grande parte do Oriente Médio.

Um dos grandes problemas para o mundo na atualidade é o fato de que estes movimentos estejam se tornando cada vez maiores e suas ações ganhando em dimensão e violência, além de estarem se espalhando para regiões dentro e fora do Oriente Médio, como o norte da África e a Ásia, mas isso, além dos grupos que atuam no conflito entre Israel e Palestina é um assunto para outro texto, além do Estado Islâmico, que por conta de suas ações recentes merece uma análise mis aprofundada mais à frente...


Continua...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

SIMPLIFICANDO O ORIENTE MÉDIO PARA O VESTIBULAR - Parte 3: Termos e conceitos essenciais


Parte 3: Termos e conceitos essenciais
Por Éder Israel

Após o entendimento inicial a respeito dos povos que vivem ou são oriundos do Oriente Médio, devemos buscar a compreensão, mesmo que básica, acerca dos grupos e movimentos político/sociais que são criados pelos povos dessa região, que já é conhecida, ocidentalmente, como o grande ‘barril de pólvora’ do mundo, uma vez que as questões territoriais, culturais e religiosas acabam por ampliarem as divergências étnicas que permeiam a miscelânea populacional da região.

Talvez o maior erro inicial que se cometa ao analisar a dinâmica dos povos do Oriente Médio e suas relações se encontra quando se cita o termo Jihad. Pronto, sempre tem alguém que ouviu nos noticiários ou leu alguma notícia dizendo que algum país do Oriente Médio declarou uma Jihad, ou seja: uma Guerra Santa... Lá se vai você associar a palavra Jihad a conflito, a atentados terroristas, a guerras religiosas e por aí vai...

Não é bem assim gente, essa ideia de que o significado do termo Jihad é ‘Guerra Santa’ decorre do pensamento europeu acerca dos povos do Oriente Médio, e como tudo que europeu fazia no passado o restante do mundo imitava... o mundo passou a cometer esse grave erro conceitual. Na realidade, o termo Jihad tem seu significado literal, segundo os grupos étnicos que o criaram de representar na verdade o empenho, a luta e o esforço dos povos Árabes para que a fé islâmica ultrapassasse todas as barreiras e limites, até tornar-se o pilar religioso do mundo.

A visão dos europeus acerca do termo Jihad pode ser consequência das ações árabes ao longo da história na busca da expansão da fé islâmica pelo mundo, invadindo, conquistando e ‘civilizando’ povos sob os preceitos dos ensinamentos de Maomé. Algo “próximo” ao que se observara nas cruzadas dos cristãos pelo mundo, quando entraram também em conflitos com povos e grupos étnicos não afeitos ao catolicismo, porém aos olhos ocidentais dos europeus as cruzadas não foram uma espécie de conflito religioso, porém com a Jihad a coisa foi um pouco diferente. “Esses europeus...” digo, “esses ocidentais...” Portanto, houveram de fato conflitos na expansão do islamismo no mundo, e segundo a fé dos Muçulmanos isso é considerado um esforço ou empenho em nome de Alá, por isso chamaram de Jihad, mas todas as outras coisas feitas em nome da fé, sejam elas belicosas ou pacíficas, é considerada uma Jihad.

Há de se destacar que dentro do próprio Oriente Médio são criadas bases sólidas para que o mundo ocidental tenha o termo Jihad como sendo um sinônimo de guerra, conflito e violência, pois na Palestina, desde 1970, um grupo radical se “apropriou” do termo para dar nome ao seu movimento religioso e político, o qual é conhecido como Jihad Islâmica, que realiza ações terroristas na Faixa de Gaza, tendo por intuito a eliminação do Estado do Israel e o estabelecimento de um Estado Islâmico sob controle dos palestinos. Isso, somada à opinião equivocada da Europa acerca do termo Jihad, sustenta o erro conceitual que observamos hoje no ocidente.

Outro termo utilizado amplamente na atualidade é o Califado, principalmente quando se relaciona às ações do Estado Islâmico (que discutiremos posteriormente nessa série de textos), porém muito se fala sobre esse Califado, mas na mesma proporção que se lê/ouve este termo nas reportagens surgem as dúvidas a respeito do que ele de fato significa. Pois bem, vamos a ele.

O termo Califado deriva do sistema que era adotado nos primórdios do islamismo, quando Maomé ainda era vivo. O Profeta era considerado o líder supremo da fé islâmica, e portanto era chamado de Califa. Hoje quando o Estado Islâmico propõe a criação de um Califado, que inicialmente abrangeria áreas conquistadas por este grupo terrorista no Iraque e na Síria, e esta Califado iria se expandindo à medida que novos países fosse conquistados/invadidos pelo grupo extremista, como demonstra o mapa a seguir.


Disponível em: < http://www.defesanet.com.br/site/upload/news_image/2014/07/21013.jpg> acesso 22 fev. 2015

O Califado, segundo o Estado islâmico, traria de volta as bases históricas do Islamismo, pois criaria um Estado religioso no qual o líder máximo da “fé” dos muçulmanos, no caso o Califa, governaria o povo segundo o que considera certo ou errado. Assim, volta-se ao que foi discutido no nosso primeiro texto quando fora dito que o islamismo tradicional proposto pelo Profeta transcende os campos políticos, sociais, religiosos e econômicos, pois a figura do Califa tem poder supremo sobre tudo e sobre todos, mais ou menos o que o Estado Islâmico tenta implantar atualmente em seu “Califado”.

Cabe aqui um parêntese de suma importância, para que não nos deixemos levar pela ocidentalização do pensamento islâmico, posto que não é coerente e muito menos correto que aquilo que o Estado Islâmico tenta estabelecer naquela porção territorial entre a Síria e o Iraque seja exatamente o proposto por Maomé no Alcorão. Antes disso, trata-se apenas de uma leitura feita pelos líderes desse movimento extremista em relação às escrituras sagradas para os Muçulmanos. O que busco aqui é apenas uma relação entre o Califado de agora e aquele de outrora, embora ambos deem ao Califa poderes sobre política economia e religião, porém o modo como esse Califa usará esse poder é atualmente bem diferente daquele proposto nas escrituras de Maomé. Vai com calma aí, José...

Com o teórico estabelecimento de um Califado, embora este seja reconhecido apenas pelo Estado Islâmico e aceito na marra por aqueles que ele ameaça cortar a cabeça ou queimar vivo(...) o autoproclamado Califa tem plenos poderes para estabelecer a Sharia, que trata-se da Lei Islâmica, ou grosso modo, da lei que surge a partir das escrituras sagradas para os Muçulmanos. Aí reside o grande problema, pois a aplicação desta lei depende da interpretação que o Califa faz das escrituras do Profeta Maomé, portanto, cada interpretação subjetiva dá origem a uma aplicabilidade totalmente diferente da Lei Islâmica, daí surgem as ações que chocam não só o ocidente, mas também afasta cada vez mais os próprios Muçulmanos desse regime extremistas estabelecido por esse grupo.

Resta-nos saber até onde o poder de ameaça e persuasão dos líderes do Estado Islâmico conseguirá estender esse (pseudo)Califado para além dos territórios entre a Síria e o Iraque, e mais que isso, quanto tempo o mundo levará para tomar duas atitudes: a primeira que seria a mais fácil, de intervir nos conflitos que ceifam vidas aos milhares no Oriente Médio por conta dessa leitura extremista e desprovida de racionalidade do Alcorão pelos adeptos do Estado Islâmico, e a segunda (e ao meu ver a mais difícil) que é superar a ideia de que o Estado Islâmico representa o Islamismo. Trata-se na verdade de uma visão equivocada daquilo que as escrituras ditas sagradas trazem/dizem. Me lembro que já queimaram pessoas vivas no passado pela mesma razão, mas enfim...


Continua...







domingo, 22 de fevereiro de 2015

SIMPLIFICANDO O ORIENTE MÉDIO PARA O VESTIBULAR - Parte 2: Mais povos


Parte 2: Mais povos
Por Éder Israel

Creio que Xiitas, Sunitas e Curdos sejam apenas a ponta de um enorme iceberg de povos, grupos étnicos que vivem ou têm origem nessa região do Oriente Médio. Porém uma das grandes complicações pode surgir quando se discute a respeito de Árabes, Islâmicos e Muçulmanos, pois são tratados comumente como sinônimos, mas a coisa não é bem assim não, José...

Tentemos portanto colocar os pingos em seus devidos “is”...

Os Islâmicos são representados por aqueles que seguem a religião criada por volta do século VII por Maomé, e portanto utilizam o Alcorão como Livro Sagrado e parâmetro de regra para seu modo de vida. Assim, Xiitas e Sunitas são duas vertentes distintas dentro do Islamismo, conforme fora discutido no texto anterior. O povo islâmico porém extravasa os limites territoriais do Oriente Médio, pois o islamismo se expande de modo acentuado e contínuo para a África (principalmente sua porção norte) e Ásia (principalmente Índia e Indonésia).

O termo Muçulmano sim pode ser utilizado como similar ao islâmico, pois representa o indivíduo que segue os ensinamentos descritos pelo Profeta Maomé no Alcorão. Em tempo, cabe ainda mencionar que o livro sagrado para os Muçulmanos também pode ser chamado simplesmente de Corão. Assim, se cria muita confusão quando os meios de mídia utilizam os termos islâmico e muçulmano muitas vezes na mesma reportagem/documento, pois nesse caso dá a entender que são povos diferentes dentro da religião profetizada por Maomé, mas na verdade é apenas apresentador/repórter/jornalista tentando mostrar que sabe demais e manja dos termos do Mundo Árabe... nada a ver, mas paciência, eu também fiz muito isso quando estava começando a dar aula, dava a ideia de que eu sabia mais sobre o assunto. Besteira...

Entretanto, nota-se ainda a utilização do termo Árabe como sendo sinônimo de Muçulmano ou Islâmico, mas aí se recorre em um grande erro conceitual, posto que embora grande parte dos muçulmanos/Islâmicos sejam Árabes, existe uma grande quantidade de Árabes que não são Muçulmanos/Islâmicos. Por Árabe se entente o grupo de pessoas que se originaram ou se encontram estabelecidas em algum país cujo idioma seja o árabe e/ou seja essa pessoa afeita ou adepta aos costumes típicos desses países árabes. De modo genérico, o chamado Mundo Árabe se estende desde países banhados pelo Oceano Atlântico até o Mar da Arábia, tendo como limite norte o Mar mediterrâneo, área demarcada em amarelo no mapa a seguir.


Disponível em: < http://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/od5066bfb/8080057_AVzPt.jpeg> acesso em 22 fev. 2015

Com isso, deve-se desfazer a ideia equivocada de que o mundo e as populações árabes se restringem ao Oriente Médio, ou menos ainda ao Golfo Pérsico.

Ou seja, existem mais Árabes no mundo que Muçulmanos/Islâmicos, embora tenhamos que reforçar a ideia de que das religiões monoteístas o islamismo é aquela que mais se expande atualmente, uma vez que conforme dito anteriormente tem se estabelecido em países asiáticos, como Índia, Bangladesh e Indonésia, e como estes países possuem populações por demais numerosas, a tendência é que o islamismo torne-se em pouco tempo uma das maiores religiões do planeta m termo de seguidores (na verdade já o é, mas entenda aqui que vai se tornar ainda mais numerosa a população que tem em Alá sua fé depositada).

Desse modo, há hoje um aumento significativo do número de pessoas consideradas e tratadas como ‘islamizadas’, que localizam-se em áreas fora do Mundo Árabe, em locais onde tradicionalmente tinha-se o domínio de outras matrizes religiosas, como o catolicismo ou o hinduísmo. O que coloca em xeque o predomínio histórico de outras religiões monoteístas que se expandiram por África e Ásia antes e durante seus respectivos processos de colonização.

Esta expansão que se observa do islamismo para além dos limites territoriais do Mundo Árabe tem promovido embates conflituosos e conflitos étnicos que se alastram pelo mundo, que dão ainda mais base para a visão equivocada e mal intencionada que relaciona diretamente o islamismo e as ações extremistas/terroristas de grupos minoritários, como tem-se observado hoje no norte da África e Oriente Médio. Considerar pessoas seguidoras da fé islâmica como sendo invariavelmente terroristas é tão absurdo, mesquinho e errado com o que se faz por aqui em ‘terras tupiniquins’ ao historicamente considerarmos as populações pobres das favelas como sendo obrigatoriamente ligadas ao tráfico de drogas e demais crimes... É considerar a exceção (no caso a minoria de pessoas das favelas que se inserem na vida do crime) como sendo a regra (no caso todas as pessoas que por questões sociais, políticas ou econômicas vivem (ou sobrevivem) nas favelas).

Evite essa premissa tão defendida e alardeada a partir do início do século XXI, de que Muçulmanos apoiam o terrorismo e países árabes oferecem sustentação plena para as ações extremistas de grupos minoritários, pois isso tudo combinava muito mais com a visão de mundo de George W, Bush, então presidente dos Estados Unidos, após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que buscava de todo modo encontrar justificativas para uma ofensiva militar no Oriente Médio sob o pretexto de eliminar a ameaça terrorista da Al Qaeda, mas que na prática tinha dentre outros interesses as reservas petrolíferas do Iraque e países vizinhos...

Continua...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

SIMPLIFICANDO O ORIENTE MÉDIO PARA O VESTIBULAR - Parte 1: Povos




Parte 1: Povos
Por Éder Israel

Aos nossos olhos, ocidentais e etnocêntricos, falar sobre o Oriente Médio torna-se algo confuso e cheio de meandros que geralmente desencadeiam uma onda de preconceitos e pré-julgamentos que acabam por colocar no mesmo grupo de análise as pessoas que simplesmente seguem suas vidas com base nas escrituras do Alcorão e aquelas que fazem dele a leitura deturpada que melhor lhe convém e espalham pelo mundo o terrorismo e o extremismo religioso, o que torna aos “olhos do mundo” um seguidor do Islã em um terrorista suicida e facínora.

Para complicar ainda mais a situação, chega-nos informações desencontradas acerca de Xiitas, Sunitas, Curdos, Árabes, Muçulmanos, Islâmicos... Quem é quem nisso tudo?? Quem são os bandidos e quem são os mocinhos?? Há de fato bandidos e mocinhos?? Ainda nos chegam notícias de um tal de Estado Islâmico, misturado com Al qaeda, com Talibã, com Califado, seguidores de uma tal Suna, pregando uma Sharia, declarando uma Jihad... Meu Deus! (ou Ala!, ou Buda!...) é coisa demais para uma cabeça só...

Mas vamos lá, tentar entender ao menos um pouco disso tudo...

Uma das primeiras coisas que se faz necessária para a discussão é entender a diferença entre os Xiitas e os Sunitas, isso vai ajudar bastante a compreender a secular disputa que existe entre esses dois grupos religiosos antagônicos e rivais dentro da religião Islâmica.

As disputas entre esses dois grupos, e sua separação propriamente dita, se deu após a morte do Profeta Maomé, autor do Alcorão, o livro sagrado para a religião islâmica. Com a morte do líder desta religião, que na verdade se confundia com política e economia, deu-se início uma disputa interna para decidir quem deveria suceder o Profeta no “controle” da religião. Nesse contexto de transição do poder a ideia inicial era que Abu Bakr e Omar, sogros de Maomé, escolhessem o novo líder do Islã, uma vez que detinham o posto de Califa e naturais sucessores do Profeta. Em meados do século VII os califas decidiram que o genro de Maomé, Othman, deveria assumir o posto de líder supremo da religião, o que descontentou árabes recém convertidos ao Islã. Othman durou pouco no cargo, sendo assassinado após assumir o lugar de Maomé...

Com a morte de Othman, assumiu o poder outro Califa, chamado Ali, que era por sua vez primo de Maomé. Ali foi acusado posteriormente de tramar o assassinato de Othman e acabou sendo assassinado também por grupos que eram contrários ao seu califado. Com a morte de Ali, quem assume o poder no Islã é Muhawya, que não tinha laços sanguíneos diretos com Maomé, fato que gerou a criação de um grupo contrário ao seu direito de ser Califa e outro favorável, estabelecendo assim os Xiitas e Sunitas respectivamente.

Entende-se (de modo simples e direto) como sendo Xiitas os membros de um grupo minoritário dentro do Islã que defende que a sucessão de Maomé deva ser realizada apenas por indivíduos que possuam laços sanguíneos com o Profeta, e que as escrituras sagradas do Islã devem ser seguidas do modo tradicional, através de uma leitura com base naquela que era feita ainda nos tempos de Maomé. Assim, para os Xiitas, deve-se seguir na vida a Lei Islâmica acima de todas as demais coisas e leis, e a vida dos islâmicos deve obedecer a um código de regras e dogmas supremos propostos ainda pelo Profeta no Alcorão, o que estabelece a Sharia.

Esta Sharia, tão discutida, comentada e afirmada atualmente nos meios de mídia de massa significa “ao pé da letra” fazer da sua vida algo muito próximo à vida que se levava no período em que Maomé escrevera o Alcorão. Trata-se de uma leitura tradicional, ortodoxa e literal das escrituras sagradas, que acaba por retomar as bases clássicas do Islã, uma vez que esta religião encontra-se intimamente ligada à vida política das populações. Assim, a Sharia seria a obediência às leis sagradas estabelecidas pelo Profeta em suas escrituras.

Por outro lado existe um grupo majoritário que pratica o Islamismo sob uma ótica “mais moderna” (sei que não é uma ideia interessante essa de religião mais moderna, mas enfim...) este grupo representa os Sunitas, cujo nome deriva da Suna, um livro sagrado no qual são narradas histórias de grandes ações realizadas por Maomé e um conjunto de regras morais a serem seguidas segundo as lições do criador do Islã. Mas vamos com calma, pois os sunitas não abandonaram o Alcorão para seguir a Suna; esse grupo segue as leis islâmicas, porém se valem também da leitura desse segundo livro sagrado, diferentemente dos Xiitas que baseiam-se apenas na leitura do Alcorão.

Juntamente aos Xiitas e Sunitas, os Curdos são sempre citados quando o assunto é Oriente Médio e conflitos étnicos nessa região. Mas afinal, quem são e o que querem os Curdos?

Os Curdos correspondem hoje ao maior grupo étnico que não tem uma terra para chamar de sua. Se autodeclaram oriundos e proprietários de um território que chamam Curdistão, o qual se estende por uma série de países tais como a Turquia, Irã, Iraque. Síria, dentre outros. Segundo consta existem hoje mais de 25 milhões de pessoas no mundo que se declaram curdas, sendo que a quase totalidade se encontra nos países onde afirmam localizar-se sua “terra natal”.

O grande problema com relação aos Curdos se dá exatamente aí, no que se relaciona a seu território, pois reivindicam para si uma área que abrange parcelas dos territórios de várias outras nações autônomas. No Iraque por exemplo os Curdos ocupam historicamente uma área localizada em uma das maiores jazidas de petróleo do país, o que levou no passado o governo do líder Sunita, Saddam Hussein, a lançar mão de ataques com armas químicas com o intuito de eliminar a população curda e ter acesso pleno às reservas do combustível fóssil.

Após os ataques químicos e o enfraquecimento do governo de Hussein o Iraque se viu obrigado a criar uma zona de segurança e “permitir” a permanência dos Curdos nessa região, pelo menos enquanto a mídia internacional estiver de olho... Assim, em grande parte dos países da região, os Curdos são considerados invasores e uma ameaça à estabilidade e ao direito soberano das nações sobre seu território nacional. Falaremos um pouco mais sobre os Curdos em breve quando estivermos discutindo Estado Islâmico.

Por hora, sinto apenas uma vontade enorme de fazer uma relação entre o povo curdo em sua busca por território e os judeus após a Segunda Guerra Mundial, mas vou tentar me conter por dois motivos: primeiro por que são povos diferentes e em situações completamente diferentes, e segundo por que a solução para o primeiro caso não foi tão bem feita assim...

Continua...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O FIM DO EMBARGO ECONÔMICO DE CUBA EM TRÊS ATOS - Ato 3: ¡Viva la revolución! ¿Pero porque entonces ella se está muriendo?


Disponível em: <https://sandromeira12.files.wordpress.com/2011/04/fidel.jpg> acesso em 02 fev. 2015


Ato 3: ¡Viva la revolución! ¿Pero porque entonces ella se está muriendo?

Por Éder Israel

Tomado o poder em 02 de janeiro de 1959 tem início uma nova fase política e econômica em Cuba, sob comando do grupo capitaneado pelos irmãos Castro. Fidel Castro não assume imediatamente o poder político da ilha, mas o faz em um momento posterior à “derrubada” da ditadura de Fulgêncio Batista.

As primeiras medidas políticas do novo governo foram voltadas para alguns dos problemas que o grupo considerava mais graves na sociedade cubana, tais como as desigualdades sociais e a concentração de renda. Cabe mencionar que o novo governo estava inicialmente longe de tornar-se um antagonismo diametral do período de Batista, pois os tribunais sumários comandados por Ernesto Guevara lançava mão do uso rotineiro dos pelotões de fuzilamento como medida cabal aos partidários do antigo regime e seus apoiadores. A violência não foi plena e instantaneamente abolida dos parâmetros políticos de Cuba...

Mas no que tange às reformas propostas pelo novo governo implementado, observou-se em Cuba uma intensa e factual reforma agrária expropriando muitas das grandes propriedades da secular oligarquia açucareira (em crise...), nacionalização/estatização de empresas estrangeiras e nacionais de setores tidos como estratégicos pelo Estado, além de foco político inegável em setores sociais, como saúde e educação públicas. Nada mais ‘justo’, dado o apoio da população mais pobre ao pequeno grupo que se refugiou em Sierra Mestra após o retorno de Fidel e seus camaradas do México em 1956...

Diferente do que se pode deduzir ou induzir, Fidel Castro chega ao poder e não dá início imediato à implantação de um ideário completa marcadamente socialista, embora houvessem em seus ideais alguns pensamentos relacionados àqueles observados na União Soviética, porém, o nacionalismo e o anti-imperialismo estadunidense foram muito mais pontuais em seus atos durante o período da guerrilha, tanto que inicialmente o presidente Dwight Eisenhower não via o governo cubano como uma ameaça iminente à hegemonia dos Estados Unidos no mundo capitalista, assim como seu sucessor, John F. Kennedy, que embora não tenha demonstrado clara afeição ao governo de Fidel Castro, manifestou (em tom de arrependimento, é bem verdade...) que a ditadura de Fulgêncio Batista foi um dos capítulos mais sangrentos e desqualificável da política latino americana, chegando a fazer, Kennedy, uma meia culpa do governo de Washington DC às atrocidades e corrupção do ex-ditador cubano.

Entretanto, as políticas nacionalistas e marcadamente anti-dependência estadunidense começaram a preocupar os governos da América do Norte, que começaram a acompanhar de perto as ações do novo governo cubano e a contabilizar as perdas com a nacionalização econômica por ele realizada, tanto que o próprio Eisenhower começou a arquitetar um plano estratégico com o intuito de dar o golpe no governo de Fidel que havia dado o golpe em Fulgêncio Batista que por sua vez deu um golpe no governo de Socarrás. Seria um golpe ao contragolpe do golpe (que treta sinistra...).

Eisenhower não conseguiu colocar em prática sua estratégia, cabendo a John F. Kennedy fazê-lo. Assim, em abril de 1961 o presidente estadunidense juntamente com a Central Intelligence Agency (CIA) realizaram a primeira ofensiva factual ao governo de Castro, utilizando alguns aviões disfarçados para atacar bases militares de Fidel. Um fracasso total... Porém após o evento as relações entre as nações foram colocadas em cheque, e aos Estados Unidos não seria conveniente o recuo. Dias depois a CIA lidera um grupo de exilados/foragidos do governo castrista, que viviam nos Estados Unidos, em uma nova tentativa de golpe, atacando duas praias na Baía dos Porcos, seria o segundo fracasso primeiros 4 meses do governo Kennedy. As forças militares de Fidel conseguiram debelar e liquidar a tentativa de invasão em menos de 3 dias. Tanto o ataque com as aeronaves, quanto a tentativa frustrada de invasão da Baía dos Porcos faziam parte da Operação Mangoose, que tinha o intuito de retirar Fidel do poder e manter a dominação estadunidense na América Central.

Mas os tiros acabaram saindo pela culatra, pois a cada tentativa frustrada de destituir o governo de Fidel Castro os Estados Unidos aproximava ainda mais a população do presidente que teoricamente estava mantendo longe de Cuba a exploração e a dependência imperialista que dominava a ilha centro americana desde a independência espanhola. E como nada é tão ruim que não possa ficar pior (nesse caso para os Estados Unidos...), a cada nova investida do governo Kennedy que era rechaçada por Fidel, o governo cubano se aproximava ainda mais da União Soviética e do Comunismo(sic), exatamente o que os estadunidenses não precisavam no contexto da Guerra Fria...

Cuba iniciou uma aproximação factual do regime socialista implantado nos países do leste europeu, passando a adotar componentes políticas e administrativas cada vez mais afeitas ao modelo de administração soviético, o que trazia uma preocupação extra para a administração Kennedy, que via a sombra do Comunismo(sic) se avultar cada vez mais da porta estadunidense. Era um risco sem precedentes para a “estabilidade” política da América Latina, que seguia os preceitos e as políticas ditadas por Washington DC.

A situação degringolou de vez em outubro de 1962, quando os voos espiões dos Estados Unidos identificaram em Cuba instalações militares que estariam sendo utilizadas pelo governo do Kremlin para armazenar mísseis balísticos capazes de transportar ogivas nucleares. Posteriormente a União Soviética confirmou que havia de fato encaminhado mísseis nucleares a Cuba em resposta a ação anterior do governo dos Estados Unidos, que instalara em 1961 bases de lançamento de mísseis nucleares na Turquia e Itália, próximo portanto das fronteiras soviéticas. O episódio ficou conhecido como a Crise dos Mísseis, e colocou em cheque a segurança mundial em relação a um holocausto nuclear, criando um clima sombrio e angustiante que se arrastou por 13 dias em outubro de 1962.

Nikita Kruschev, então líder da União Soviética, alegava que a intenção dos mísseis era estritamente defensiva, mas Washington DC afirmava que ter tais armamentos a menos de 500 quilômetros de suas fronteiras representava de fato uma ação de guerra contra os Estados Unidos, e que os impactos e desdobramentos de um conflito nuclear se alastraria pelo mundo com proporções e consequências incalculáveis e inimagináveis. A situação levou os Estados Unidos a colocarem Cuba sob quarentena comercial (um modo politicamente correto de dizer bloqueio), haja visto que mencionar o bloqueio poderia ser considerado um ato de guerra contra o governo cubano e por conseguinte ao governo do Kremlin.

Durante o período da ‘quarentena’ todos os navios que se dirigiam a Cuba, principalmente os soviéticos, eram escoltados pela marinha estadunidense e em vários casos vistoriados a procura de armamentos e recursos militares que poderiam estar sendo enviados para a ilha. Porém de modo material a estratégia não conseguiu grandes resultados práticos, pois a maioria dos produtos transportados pelos navios estrangeiros eram mercadorias industriais simples e legalizadas. Mas inegavelmente isso levava a uma intensificação da animosidade entre Havana, Washington DC e Moscou.

A situação se tornava cada vez mais complicada, e não se dissolveu nem quando Nikita Kruschev chegou a um acordo com Kennedy, que determinara a retirada dos mísseis balísticos soviéticos de Cuba em troca da desmontagem dos armamentos estadunidenses que se encontravam na Turquia, porém o estrago político já estava feito, e a Guerra Fria nunca fora tão quente... Houve o “recuo” militar de ambos os lados, mas a escalada da divisão do mundo em dois grandes blocos políticos e econômicos distintos estava materializada e cada vez mais clara aos olhos de quem quisesse ver!

Esta conjuntura geopolítica da América, associada a expansão do socialismo a partir do leste europeu, tornou a situação insustentável entre Cuba e Estados Unidos, que romperam de vez os últimos e finos fios que mantinham relações políticas entre as duas nações, culminando na expulsão da ilha caribenha da Organização dos Estados Americanos – OEA, e ao início de um embargo econômico, que na prática foi apenas uma espécie de prolongamento e ampliação daquilo que Washington DC chamava anteriormente de quarentena comercial.

O embargo foi imposto em 1962 pelos Estados Unidos, porém converteu-se em um dispositivo legal (com efeito de lei) em 1992, e estabeleceu regras cada vez mais rígidas para o comércio externo cubano, entretanto há de se destacar aqui que as relações econômicas entre a ilha de Fidel e a “América” não foram completamente rompidas e eliminadas, passaram apenas a obedecer a uma série de regulamentações e parâmetros técnicos, obviamente sempre estabelecidos em benefício estadunidense, que tinha como pano de fundo reduzir os ganhos financeiros do governo de Fidel Castro e consequentemente minar os investimentos sociais do governo cubano, os quais mantinham uma relação positiva entre o presidente e a população do país, bem diferentemente do controle exercido pela potência norte americana em tempos de Fulgêncio Batista...

Os anos que se seguiram nessa segunda metade do século XX trouxe uma dicotomia importante para o governo de Havana, pois se por um lado o governo cubano conseguiu manter cada vez mais longe a influência/dominação política direta dos Estados Unidos, o que tanto se intencionava nos anos mais severos da ditadura militar no país, porém por outro lado colocava essa teórica estabilidade interna cada vez mais suscetível e dependente da nova potência aliada, pois era cada vez mais marcante o modelo soviético na política e economia na ilha de Fidel.

Aí começam as complicações para Cuba, uma vez que a acentuação das normas e as consequências do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos, que diminuía a quantidade de capitais para o Estado realizar investimentos sociais que pontuaram o  início do governo castrista, dava brechas para o surgimento (ainda que sutil, quem sabe se por falta de interesse interno ou por pressão e uso da força do aparelho estatal...) de alguns focos de oposição ao presidente, situação essa que viria a se somar com a crise interna que começava a implodir o modelo socialista no leste europeu, que já dava sinais de que caminharia para um processo de transição à economia de mercado, conforme fora observado mais tarde nas propostas e reformas implementadas por Mikhail Gorbachev na passagem dos anos 1980 para os anos 1990.

Seria, aos olhos de observadores afeitos aos interesses estadunidenses ou do sistema capitalista (que no final das contas dá no mesmo...), sinais claros da derrocada do modelo socialista e do governo comandado pelos irmãos Castro. Mas essa visão era por demais otimista e superficial, pois embora inegavelmente as condições dessem a entender a crise que se aproximava, as bases políticas do governo cubano ainda ofereceria ao modelo nacional uma sobrevida mais longa que aquela observada na (quase extinta nesse momento) União Soviética. O governo de Washington DC deveria lançar mão de alguns subterfúgios políticos e econômicos para acelerar a crise interna em Cuba e aproveitar a ‘onda’ de crises no mundo socialista.

No final da década de 1990 o presidente Bill Clinton ampliou ainda mais as regras e sanções do embargo econômico a Cuba, estabelecendo que nem mesmo as filiais de empresas dos Estados Unidos que se localizassem fora do território estadunidense deveria seguir as regras do embargo, podendo negociar mercadorias apenas até um valor limite, que ficou estabelecido em US$ 700 milhões anuais. Cabe mencionar que na transição do século XX para o XXI trouxe também algumas flexibilizações nas relações comerciais entre as duas nações (embora o embargo tenha se ampliado entre outros setores...), por exemplo o governo cubano poderia importar alimentos estadunidenses, desde que o produto fosse pago (a vista) ainda antes de sair dos portos estadunidenses. A questão humanitária (aqui sem juízo de valores ou das segundas intenções escamoteadas...) também é contemplada por esta flexibilização, em casos excepcionais como os furacões e tempestades que varrem costumeiramente o Caribe e criam situações de calamidade, que podem suscitar o envio de alimentos, medicamentos ou ajuda dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo que a União Soviética de dissolvia no tempo e materializava o fracasso daquela experiência de implantação do socialismo na Europa, o embargo ampliava a penúria econômica a Cuba e uma oposição (geralmente clandestina) atuava decisivamente como propaganda externa contrária ao regime adotado por Fidel Castro. Contudo, a opinião pública começava também a contabilizar o peso das práticas estadunidenses aos problemas econômicos do governo de Havana, passando até mesmo a Organização das Nações Unidas (que factualmente apoia as ações estadunidenses...) a criticar até que ponto o embargo se fazia de fato necessário em um mundo posterior a bipolaridade da Guerra Fria. Mesmo dentro dos Estados Unidos havia quem contestasse a eficiência do bloqueio, alegando que ele dava a Fidel uma justificativa plausível para os questionamentos que eram feitos sobre suas ideias políticas e econômicas, havia claro o discurso de que “Camarada, se não houvesse o embargo as coisas para nós seriam diferentes...”.

Assim, é passível de dedução e observação o fato de que travava-se uma “guerra” na América, que embora no seu início tivesse uma relação direta com a Guerra Fria, em seus capítulos finais se arrastava para além dessa disputa bipolar do período posterior a Segunda Guerra mundial, e que do ponto de vista econômico não mais se sustentava... Nesse contexto, a saída (ainda que de modo teórico e técnico) de Fidel Castro do governo cubano em 2008 pode ser considerado um marco histórico para a mudança de opinião do governo de Washington DC sobre a validade do embargo. Embora Fidel tenha renunciado ao poder presidencial (se bem que tenha colocado seu irmão, Raul Castro de 77 anos de idade, na presidência, afirmando que iria iniciar-se uma renovação política no país... Ah, menos né Fidel...) em um primeiro momento o governo dos Estados Unidos não deu claras demonstrações de eliminar o bloqueio ou retomar as relações diplomáticas com os cubanos, isso viria depois de se ter um certo conhecimento sobre as políticas de Raul.

Foi na campanha eleitoral de 2008 que os Estados Unidos materializaram de fato as intenções de reaproximar diplomaticamente da ilha de Fidel (ou Raul...), quando o então candidato Barack Obama prometeu, entre outras coisas, que iria promover o fechamento da Base Naval de Guantánamo, que funciona atualmente como um prisão (embora fosse mais apropriado o termo depósito...) de criminosos suspeitos ou condenados por terrorismo após os ataques de 11 de setembro de 2001. Obama está atualmente em seu segundo mandato, e nem sinal de fechamento da base/prisão... Embora Raul Castro tenha assumido uma postura bem mais “gente boa” com relação ao governo de Washington DC do que o fazia Fidel.

Soma-se a isso o estabelecimento de uma aproximação política e econômica cada vez maior entre Cuba e a América do Sul, muito por conta da convergência ideológica entre o governo de Havana e os governos de Venezuela e Bolívia, assim como a ampliação das relações econômicas e comerciais do governo cubano e o governo brasileiro nos últimos anos, tornando o embargo comercial da potência norte americana cada vez menos eficaz contra o país caribenho. Em resumo, Cuba depende cada vez menos de Washington DC, enquanto a economia estadunidense depende cada vez mais de si mesma e das economias externas, principalmente após a explosão da bolha imobiliária em 2008/2009.

Obama dizer em 2014 que vai pôr fim ao embargo econômico a Cuba pode trazer impactos (positivos, principalmente) muito maiores na economia estadunidense do que na cubana, haja visto que os investimentos externos, principalmente sul americanos, ainda em fase inicial pode estar criando melhores condições de consumo interno em Cuba, e sim, Obama está de olho não só nesse, mas em qualquer mercado consumidor que se apresente ao seu país.

Em momentos de crise, amigos são aqueles que nos estão mais 'próximos'...

Em tempo, quanto o Oriente Médio, creio que o governo estadunidense esteja esperando uma solução daquelas miraculosas com relação ao Estado Islâmico, pois intervir lá agora pode ser perigoso, eles têm facas... Já o Iraque, depois do petróleo a gente vê o que faz. Por enquanto foquemos em Cuba, pois charutos estão na moda!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O FIM DO EMBARGO ECONÔMICO DE CUBA EM TRÊS ATOS - Ato 2: Hay que endurecer pero sin perder la ternura!



Ato 2: HAY QUE ENDURECER PERO SIN PERDER LA TERNURA!

Por Éder Israel

Em 1944, após falir economicamente o governo de Cuba durante seu mandato presidencial, Fulgêncio Batista abandona a ilha e passa a viver na Flórida (nenhuma surpresa; seria quase como uma aposentadoria prêmio por serviços prestados a Washington DC durante sua estada na presidência cubana...), Por incrível que pareça, Batista que era aficionado pelo poder e fez de tudo para conseguir o controle do governo em Cuba se mantém à distância e quase inerte aos acontecimentos políticos no país durante os governo de San Martín e em grande parte do governo de Socarrás.

Porém, subitamente em 1952 o General Batista retorna a Cuba e inicia um processo “político” que acabaria por derrubar Socarrás, que após a deposição é mandado ao exílio pelo governo golpista.

De volta ao poder, Fulgêncio dá início a uma severa ditadura militar no país, novamente com amplo apoio estadunidense, porém o próprio governo de Washington DC se via temoroso com a postura autoritária e o uso desmedido da força contra seus opositores, a ponto de relatórios enviados ao governo dos Estados Unidos alertarem para o risco de Batista poder fugir ao controle da potência norte-americana, tamanha a brutalidade nele presente. Porém, como o governo ditatorial seguia até o momento os preceitos e determinações da “nova metrópole” não havia por que se opor ao brother Fulgêncio...

Na busca de apoio para a manutenção do poder e uso irrestrito do aparato militar, Batista tem como um de seus primeiros atos o aumento substancial dos salários dos membros das forças militares cubanas, assim como o aumento de seu próprio salário, que no período passou a ser maior até que o salário do então presidente estadunidense Harry Truman! Mesmo assim, os Estados Unidos reconhecem em 1952 oficialmente o governo de Fulgêncio, e vai além, assinando acordos de “cooperação” militar com o Estado cubano.

Embora contasse com apoio de quase todo o aparato militar do país, e carta branca dos Estados Unidos para implantar sua ditadura na ilha centro-americana, haviam setores nacionais que eram contrários ao governo golpista estabelecido no país, principalmente setores estudantis e aqueles ligados à juventude (excetuando aqueles tendenciosos às forças armadas...). Um dos líderes mais vultosos desses movimentos contrários ao governo do General era o advogado (até certo ponto sem muita experiência factual na profissão) Fidel Castro, que já em meados de 1953 inicia um conjunto de ações que buscavam dar um golpe no governo golpista de Fulgêncio Batista.

A primeira ação de Fidel é a tentativa de tomar o Quartel de La Moncada em 1953. Uma tremenda “mancada”, pois tratava-se do segundo maior estabelecimento militar de Cuba, fortemente protegido pelas forças armadas, que sem grandes dificuldades debelou o movimento e massacrou a grande maioria das cerca de duas centenas de ‘insurgentes’ liderados pelos irmãos Fidel e Raul Castro. Um fiasco...

Porém os líderes do movimento (os irmãos Castro) não tombaram frente ao exército em La Moncada, porém se entregaram às forças militares posteriormente e foram condenados a 15 anos de prisão pelo governo de Fulgêncio Batista. Entretanto, talvez por pressão da opinião pública cubana, talvez em uma tentativa de melhorar sua imagem política, o então ditador acabou por anistiar os irmãos Castro ainda em 1955, o que os deixou livres para partirem para o território mexicano e teoricamente abandonarem a aposição, inicialmente clandestina, ao governo ditatorial do país, que se mantinha no poder às custas de manobras políticas tais como a eleição fantasiosa vencida por Batista em 1954...

Contudo, começava a avultar uma nova ameaça segundo o ditador, que era o Comunismo(sic) e as ideias que começavam a rodar o mundo a partir da União Soviética. Mas ‘calma lá’ Fulgêncio Batista era meio que ‘mano’ do governo de Moscou, haja visto o comércio significativo de açúcar entre as duas nações desde o início da década de 1940... Opa, algo mudou...

Talvez por pressão dos Estados Unidos, que viam agora de fato o Comunismo(sic) como uma ameaça à sua busca por hegemonia, talvez por algumas influências socialistas que os irmãos Castro mesclaram ao ideário nacionalista e anti-imperialista que foram demonstrados na ‘mancada de La moncada’, a ditadura cubana criou em parceria com os Estados Unidos o primeiro órgão estatal formal de repressão ao Comunismo(sic) na ilha, o discurso do presidente endureceu de vez contra as ideias vindas do leste europeu. Porém, o “estrago” estava feito, pois a ida de Fidel e Raul para o México deu-lhes tempo e tranquilidade para arquitetar uma nova tentativa de golpe ao golpe em Cuba, o que foi demonstrado quando estes retornaram a Cuba em 1956, agora na companhia de Ernesto Che Guevara para tentar novamente destituir Fulgêncio Batista.

Outro fiasco do ponto de vista militar. O que viria a ser conhecido posteriormente como Movimento Revolucionário 26 de julho (M-26-7) foi prontamente debelado pelas tropas de Batista e seus líderes, Fidel, Raul e Ernesto se viram obrigados a se refugiarem precariamente na região da Sierra Mestra.

Ao mesmo tempo que os Estados Unidos viam um parceiro político fiel na figura de Fulgêncio, em Havana aumentava o nível de repressão aos opositores do governo e a escalada de violência do Estado assustava sistematicamente os analistas estadunidenses, mas segundo Washington DC, “deixa rolar” enquanto estiver nos beneficiando...

Em 1957 outra tentativa de destituir Fulgêncio Batista fracassou. Dessa vez um grupo de membros do Diretório Estudantil invadiu o palácio do governo com o intuito de assassinar o presidente, porém foram, assim como seus antecessores, impiedosamente massacrados pelas tropas do ditador, entretanto dessa vez algo ocorreu em contrapartida ao fracasso teórico desse movimento de 13 de março de 1957. A opinião pública em Cuba, e mesmo até alguns setores nos Estados Unidos aparentemente se solidarizaram com os revolucionários, e ao mesmo tempo passaram a se preocupar de fato com o uso extremado do aparato militar do governo Batista.

Mas contudo, os anos seguintes foram de agravamento da violência por parte do Estado, mesmo com a opinião pública nacional e internacional, assim como os representantes estadunidenses alertando Washington DC sobre a situação em Cuba o governo dos Estados Unidos se mostravam inertes à situação, e mantinham o apoio às forças militares e políticas do Fulgêncio Batista, o que ficou claro quando o ‘ex-presidente’ Socarrás que sofreu o golpe em 1952 preso e Miami, onde se refugiava, sob a acusação de estar organizando um movimento opositor com o intuito de derrubar Fulgêncio do poder.

Enquanto Batista eliminava todo e qualquer foco de resistência e oposição ao seu governo, nos rincões da floresta em Sierra Mestra os insurgentes, divididos em três frentes de combate distintas, sobe comando e Fidel Castro, Raul Castro e Camilo Cienfuegos conseguiam capitalizar importantes vitórias contra as forças militares do Estado, e conquistar paulatinamente territórios em direção a Havana. Era a técnica de guerrilha produzindo estragos nas tropas de Fulgêncio Batista, que se saia melhor nos conflitos em áreas urbanas.

A marcha dos insurgentes contrários ao governo de Batista teve ânimo e folego decisivos ao longo do percurso ao passo que recebiam o apoio das populações do interior do país, que tanto perderam ou foram subjugados pelo aparato militar ou a corrupção (ou ambos...) que permearam de modo progressivo o governo ditatorial do General. Assim, em 1959 as colunas dos guerrilheiros marcham sobre Havana, onde encontram um resquício de exército estatal sem comando ou organização, uma vez que assim como Fulgêncio Batista os altos escalões do exército haviam fugido no dia anterior à chegada de Fidel, Raul, Ernesto e Camilo à capital.

A desorganização das forças militares do governo (que já não existia naquele momento) foi um importante facilitador da vitória dos guerrilheiros, que deram como concluída a Revolução Cubana, no dia 01 de Janeiro de 1959. Abria-se assim um novo e importante período político e econômico em Cuba, cujos desdobramentos futuros culminariam no anúncio de Barack Obama em dezembro de 2014...

Continua...  

sábado, 31 de janeiro de 2015

O FIM DO EMBARGO ECONÔMICO DE CUBA EM TRÊS ATOS - Ato 1: Muy Amigos!


Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7e/La_fallera_de_l'oncle_Sam.JPG> acesso em 31/01/2015

Ato 1: MUY AMIGOS!

Por Éder Israel

Ao anunciar no dia 17 de dezembro de 2014 que iria buscar o fim definitivo do embargo econômico existente em relação a Cuba, o presidente Barack Obama causou uma certa surpresa em grande parte da comunidade mundial, não simplesmente por propor o fim de tal embargo, mas sim pela mudança diametral de foco nas políticas externas estadunidenses. Ora, mas o foco não era o Oriente Médio? A prioridade não seria conter o Estado Islâmico em expansão? E as tropas do Iraque, quando voltam de fato? Mas enfim, o assunto agora é Cuba, e para analisar as componentes deste anuncio deve-se fazer uma análise do contexto de estabelecimento de tal bloqueio. Portanto vamos a ela.

A análise do fim do bloqueio deve nos remeter ao seu início, ou antes, à necessidade de sua existência, e isso nos leva ao conturbado século XIX, e suas rápidas transformações políticas e econômicas, quando a era do capitalismo comercial de fato dava lugar ao capitalismo industrial, quando potências europeias descobriam que a atividade transformadora promovida pela revolução industrial do século XVIII levava ao colapso as últimas relações coloniais do período da expansão marítima. Cuba se insere nesse contexto.

A expansão do processo de produção açucareira em Cuba no século XIX oferecia à ilha centro-americana dois aspectos importantes no estabelecimento da Divisão Internacional do Trabalho: por um lado o aumento dos ganhos pela produção em franco desenvolvimento e crescimento, e por outro lado a concentração esperada de terras nas mão de uma burguesia agrária cada vez mais proeminente. Essa combinação de fatores levou ao processo de rompimento do pacto colonial entre Cuba e Espanha, embora esse rompimento inicialmente tenha contado com certo desleixo espanhol, que permitiu a Cuba comercializar açúcar com o mercado estadunidense. Pronto, criou-se o precedente para a posterior independência cubana...

O poder econômico advindo dos ganhos do comércio açucareiro deu à burguesia latifundiária a ideia de que estaria pronta para romper de vez com os laços que ainda uniam a ilha caribenha à Espanha. Ledo engano, o exército espanhol pôs fim à “farra” que ficou conhecida como I Guerra de Independência (1868 – 1878) e deixou claro que não abriria mão facilmente do domínio que exercia sobre sua então “semicolônia”; seria necessária uma força econômica e militar superior à dos burgueses latifundiários... A solução para a burguesia agrária foi simples e fácil: aproximemos ainda mais dos Estados Unidos, que garantiremos nosso afastamento definitivo do domínio espanhol. Dito e feito...

A aproximação entra Cuba e Estados Unidos serviu aos dois lados, pois para os latinos trouxe uma ampliação das relações comerciais que possibilitou um aumento significativo dos ganhos financeiros com a venda do açúcar, e para os norte-americanos um acesso facilitado e vantajoso a uma importante commodity. Sim pois nesse momento os Estados Unidos passaram a importar em larga escala o açúcar cru de Cuba e a refiná-lo em seu território, agregando assim maior valor ao produto e reduzindo os custos de importação.

As relações entre Espanha e Cuba ficaram estremecidas desde os embates nesta primeira tentativa de independência, o que foi ainda mais agravado pela crise cíclica que atinge as economias agroexportadoras, porém o novo embate travado entre metrópole e colônia contava agora com a participação dos Estados Unidos, o que desequilibrou as disputas em favor dos cubanos. Inicia-se nesse contexto a Guerra Hispano-Americana nos anos finais do século XIX, e os Estados Unidos conseguem levar a tão sonhada “liberdade” colonial a Cuba.

Assinado o Tratado de Paris após a guerra, Cuba consegue de vez romper as amarras que a mantinha submissa e dependente da metrópole espanhola, e os Estados Unidos davam o primeiro passo real na busca de expandir sua influência na América Latina, um sonho antigo do governo em Washington DC, que já havia tentado, sem sucesso, a compra da ilha caribenha junto à Espanha por julgá-la um ponto estratégico no cenário geopolítico da transição do século XIX para o XX.

A “certidão e nascimento da Cuba libre” é cunhada sob a égide dos interesses estadunidenses no início do século XX, haja visto que um dos parâmetros principais para a tão sonhada liberdade cubana ser adquirida foi a Emenda Platt, que em resumo oferecia aos Estados Unidos o direito de tornar-se uma espécie de Espanha nas novas relações políticas e econômicas com Cuba. Com a melhor das intenções, é claro...

A Emenda Platt garantia aos Estados Unidos, por exemplo o direito de intervir sempre que julgasse que a “liberdade” ou a “independência” de Cuba estivessem em risco, além de proibir o governo cubano de assinar ou ingressar em qualquer tratado político com outra nação que não fosse os Estados Unidos. Em suma, Cuba está livre da Espanha, mas caiu no colo dos Estados Unidos... A Emenda Platt era na verdade uma das componentes da política externa estadunidense no início do século XX, a qual ficou conhecida como ‘Big Stick’, em uma tradução livre e extremamente verdadeira perante os fatos observados, a “política do cacetão”, e de fato nos anos seguintes o ‘cacete’ baixou na ilha caribenha, se é que me entendem...

Uma sucessão de presidentes fantoches de Washington DC assumiram o poder em Havana, todos muito empenhados em manter o domínio estadunidense sobre ‘Cuba Libre’, dos quais destaca-se Tomás Estrada Palma que governou o país entre 1902 e 1906, que dentre outras ações vultosas e sombrias arrendou por 99 anos (!) uma fração do território cubano para os Estados Unidos para que ali fosse instalada a base naval da Baía de Guantánamo, a qual reaparecerá na continuação dessa análise que aqui é feita.

Além de permitir as ações da marinha estadunidense em território cubano, Palma cria ainda condições favoráveis para a entrada de produtos industrializados da potência norte americana em Cuba, com tarifas alfandegárias reduzidas em relação aos produtos importados de outras nações. Esta ação acaba por abortar completamente o início do processo de industrialização cubana, mantendo no país uma economia primária de base agroexportadora, como bem queriam os Estados Unidos.

Nas três primeiras décadas do século XX os governos que sucederam Palma seguiram o mesmo caminho, de apoio e dependência em relação aos Estados Unidos, porém o contexto geopolítico global após a crise de 1929, os resquícios do encerramento mal sucedido da Primeira Guerra Mundial e a ascensão militar do Japão na Ásia deram um novo rumo nas políticas externas dos Estados Unidos, que gradativamente se viram forçados a conseguir aliados rapidamente, sendo obrigados a implantar a Política da Boa Vizinhança em substituição à política do “cacetão”.

Mas claro que os Estados Unidos não se tornariam bons vizinhos de Cuba e deixariam a ilha enfim livre. Já estava em curso a criação de um sucessor à altura dos fantoches anteriores que governaram Cuba sob os preceitos de Washington DC; nascia assim para a política da América Central o nome de Fulgêncio Batista, que contava com amplo apoio do presidente estadunidense Roosevelt. Fulgêncio, que era militar, consegue derrubar em 1934 o então presidente Ramón San Martín. Grande parte do descontentamento estadunidense com Martín se devia às políticas deste presidente, que buscava um relativo afastamento do domínio estadunidense. Martín, por exemplo, revogou a Emenda Platt e realizou (ou tentou realizar) uma série de reformas políticas e econômicas em Cuba. Porém Batista não assume ainda o poder de fato, tendo este colocado Carlos Mendieta no controle político de Cuba, o que garantiria por mais algum tempo os interesses dos Estados Unidos garantidos na América Central. E por tabela também a manutenção até 1940 de Fulgêncio Batista como uma figura de enorme poder nos bastidores políticos cubanos. Na verdade, o agora General Batista neste período mandava mais que os presidentes em Cuba, estando hierarquicamente abaixo apenas do governo de Washington DC...

O General Batista assume o poder de fato apenas em 1940 quando é eleito presidente de Cuba, e dá continuidade à sua política de total e irrestrito apoio aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, tal qual fazia desde a derrubada de Martín em 1934. Batista deixa ao governo cubano como heranças uma crise financeira profunda e um rastro de corrupção, que só não eram maiores que o domínio político exercido pelos norte-americanos. Após o governo de Batista foi eleito novamente San Martín, que teve um governo marcado por duas grandes forças limitadoras: a falta de dinheiro após o saque do tesouro público realizado por Fulgêncio, e pela incapacidade de governar perante as pressões exercidas pelos Estados Unidos. Situação similar à observada no governo de seu sucessor, Carlos Prío Socarrás, eleito presidente em 1948.

O governo de Socarrás foi marcado muito mais por ter sofrido o golpe militar que levou novamente Fulgêncio Batista ao poder, do que por suas ações políticas e econômicas, uma vez que havia herdado em grande parte as posturas e problemas observados no governo de San Martín. Assim em 1952 instaura-se em Cuba a Ditadura Militar sanguinária do General Batista, que não medirá esforços ou verá limites para a manutenção do apoio de Washington DC ao seu governo...  

Continua...