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domingo, 15 de maio de 2022
sábado, 18 de abril de 2020
O RENASCIMENTO DO KRAKATOA
ANAK KRAKATOA
- Por Éder Israel
Localizado na porção sul
da Ásia, entre o continente oriental e a Oceania, o Krakatoa e atualmente o
Anak Krakatoa fazem parte de uma das regiões de maior atividade tectônica do mundo.
Disponível
em: <http://www.esa.int/Space_in_Member_States/Portugal/Envisat_produz_o_mapa_global_da_Terra_mais_nitido_de_sempre>
acesso em 17 abr. 2020
Vulcanismo
A
erupção vulcânica ocorrida na região asiática do arquipélago de Sumatra no dia 11
de abril de 2020, e noticiada amplamente pela mídia internacional, fez ressurgir
um grande fantasma tectônico do passado, rememorando a histórica e catastrófica
erupção ocorrida no mesmo arquipélago no ano de 1883, considerada até hoje um
dos maiores eventos desse tipo registrado na história. Naquela ocasião, no
século XIX, houve uma combinação de eventos catastróficos, originados por uma
grande erupção, acompanhada por uma grande explosão do edifício
vulcânico e seguida pela formação de ondas gigantes (tsunamis) de grande
magnitude. Em suma, um “apocalipse tectônico”...
Para
entender os eventos de 1883 e lançar luz sobre os novos eventos de 2020, faz-se
necessária a compreensão da dinâmica tectônica que envolve uma erupção
vulcânica. O vulcanismo, enquanto processo, representa uma peça fundamental de regulação
da dinâmica interna da Terra, posto que, permite a liberação da pressão acumulada
nas camadas internas do planeta, impedindo seu colapso e consequente explosão.
Muito mais importante que a liberação do magma do manto, é o equilíbrio das
pressões interna e externa da Terra, e o vulcanismo, seja ele de edifício nos continentes
e ilhas ou de fissura, nos fundos oceânicos é o agente responsável pro tal
equiparação.
Vulcões
como o Krakatoa são formados a partir do tectonismo terrestre, do qual deriva o
movimento das placas tectônicas e a consequente deriva continental, que coloca
as calotas litosféricas (placas tectônicas) sólidas em movimento sobre um
grande mar de rochas derretidas, chamado Astenosfera, onde ocorrem as chamadas
correntes de convecção, que movem essas enormes “balsas rochosas”. E a região
onde se localiza essa formação vulcânica asiática faz parte de um complexo
global, que concentra a maior parte de toda a atividade tectônica da Terra, chamada
de Círculo de Fogo do Pacífico, onde se observa mais de 80% de toda atividade
sísmica de grande dimensão na atualidade.
O Círculo (ou Anel) de Fogo
do Pacífico se estende por toda a margem desse oceano, onde se encontram
inúmeras fronteiras de placas tectônicas, sejam elas convergentes, divergentes
ou tangenciais. Ali se concentram, por consequência, eventos geológicos de grande
magnitude, causados por forças endógenas e processos orogenéticos.
Disponível
em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Pacific_Ring_of_Fire.svg/1200px-Pacific_Ring_of_Fire.svg.png>
acesso em 17 abr. 2020
Há
uma relação direta entre os grandes eventos geológicos, uma vez que qualquer
movimentação de placas tectônicas requer um novo ajuste e rearranjo das demais placas
para que o equilíbrio da crosta seja restabelecido. Assim, há uma relação
próxima entre o terremoto, seguido de erupção vulcânica, que ocorreu na Nova
Zelândia, em dezembro de 2019 e a erupção observada agora em abril no sul da
Ásia. Ambas as localidades se posicionam sobre o Círculo de Fogo do Pacífico, e
a movimentação das placas que observou-se na Oceania está agora gerando
acomodações na Ásia. Não se surpreenda se em breve surgirem notícias de
terremotos ou vulcanismos na costa do continente americano, pois a movimentação
geológica no continente asiático certamente causará repercussões na outra borda
do pacífico num futuro não muito distante...
Krakatoa, 1883
Retomando
o entendimento acerca do evento tectônico de abril de 2020, para compreender
toda a atenção e preocupação da mídia e cientistas mundiais a respeito dessa
nova erupção, ocorrida no vulcão Anak Krakatoa (que na tradução ao pé da letra
significa “Criança Krakatoa”), faz-se necessário retornarmos ao final do século
XIX e entendermos como se deu e quais os maiores impactos daquela que até hoje
é considerada uma das maiores atividades vulcânicas da história recente da
Terra.
A
região onde se localizava o antigo Krakatoa corresponde a um arquipélago com
várias pequenas ilhas entre Sumatra e Sunda, território indonésio. Como já
mencionado anteriormente, esse arquipélago se posiciona sobre a zona de maior
instabilidade da crosta, e qualquer movimentação de placas tectônicas,
obrigatoriamente, implicará em acomodações nas bordas do oceano Pacífico. Naquele
evento, a pressão acumulada as camadas internas da Terra se tornou demasiadamente
grande, e a sua não liberação poderia levar a um grande colapso e consequentemente a uma explosão de ordem global. De modo metafórico podemos fazer a comparação
abstrata do nosso planeta com uma grande panela de pressão, cujo interior
encontra-se tomado por materiais muito quentes e comprimidos. Ora, se essa
pressão se elevar indefinidamente dentro dessa panela, chegar-se-á a um nível tal
que as paredes desse utensílio de cozinha se romperão e toda a energia
acumulada ali dentro será liberada em um único instante, após uma grande
explosão. Pois bem, digamos que os vulcões seriam as válvulas dessa imensa
panela de pressão chamada Terra. Portanto, as erupções são normais, e mais do
que isso, necessárias para o pleno funcionamento de nosso planeta.
Mas
imagine que na última vez que essa panela de pressão foi usada, ela não tenha
sido devidamente limpa e, materiais anteriormente fluidos se solidificaram
dentro de sua válvula, entupindo-a... Na próxima fervura, quando a pressão
interna se tornar muito mais alta que a externa, se essa válvula entupida não
conseguir dissipar essa energia ali confinada, a panela explodirá. Assim se deu
com o Krakatoa naquela ocasião. Após uma última erupção vulcânica ter liberado
a pressão excessiva do manto, o último magma expelido acabou por se solidificar
dentro do canal do vulcão, transformando-se em rocha sólida, de modo que essa
rocha se transformou em uma espécie de “rolha”, causando o entupimento dessa “válvula”.
Em
1883 o canal (cujo nome correto é conduto vulcânico) por onde passaria o magma
que o manto tentava expelir encontrava-se obstruído por
rígidas rochas ígneas, impedindo a passagem dos materiais, e levando a pressão
interna da Terra a níveis muito além da normalidade. Assim, com o aumento
constante dessa pressão sob o edifício vulcânico, criou-se uma situação de
colapso, levando a um fenômeno chamado “vulcanismo explosivo”, porém em uma
escala muito além daquela conhecida. Com isso toda a ilha onde se situava o
Krakatoa explodiu, liberando enfim a pressão acumulada e lançando pelos ares
tanto os materiais que impediam o “funcionamento” do vulcão, como materiais
expulsos pelo manto terrestre.
Após o grande evento
explosivo de 1883, grande parte das ilhas vulcânicas do arquipélago do sul da
Ásia foi completamente destruído, restando apenas ruínas daquilo que fora no
passado um grande ponto de alívio das tensões internas da Terra sobre o
Círculo de Fogo do Pacífico
Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69>
acesso em 17 abr. 2020
A
explosão desse evento eruptivo forçou a abertura do conduto vulcânico para a
passagem do magma, lançando para a atmosfera uma grande quantidade de
fragmentos de rochas, geologicamente chamadas de bombas vulcânicas, que
alcançaram pelo menos 25 quilômetros de altura, tendo, segundo relatos da
época, o som da explosão sido ouvido a pelo menos 5.000 quilômetros de
distância. Juntamente com as bombas vulcânicas foram lançadas também para a
atmosfera grandes quantidades de cinza vulcânica, que formou uma densa nuvem
que praticamente circundou o planeta naquela faixa latitudinal. Essa densa
nuvem de cinzas permaneceu por meses na atmosfera, tendo impactado diretamente
na ação da radiação solar e no armazenamento de calor na Terra, o que ocasionou
um dos invernos mais rigorosos no continente europeu no século XIX. Sem contar
a elevação do grau de acidez das chuvas que passaram a cair, uma vez que grande
parte desse material particulado continha enxofre.
Juntamente
com a liberação de materiais particulados para atmosfera, grande parte da
energia sísmica gerada pela explosão da ilha vulcânica foi transferida para a
água oceânica, tendo se transformado em energia mecânica, passando a movimentar
grandes massas de água a partir do arquipélago asiático, o que ocasionou a
ocorrência de vários tsunamis, que se alastraram pelas águas em múltiplas
direções, completando o conjunto de catástrofes do apocalíptico evento de 1883.
As ondas que atingiram dezenas de metros de altura se espalharam pelas águas
dos oceanos Índico e Pacífico, chegando mesmo ao outro estremo do grande
oceano, na costa oeste da América. Como resultado da combinação de
eventos de grande magnitude, estima-se que pelo menos 35.000 pessoas tenham
perdido suas vidas no rastro de destruição gerado no final do século XIX.
Mas,
embora as ilhas vulcânicas tenham sido literalmente riscadas do mapa com as
sucessivas explosões e consequências desse evento, essa zona continua
manifestando as forças internas do planeta, ao passo que o Círculo de Fogo do
Pacífico segue como grande “válvula de escape” da energia produzida e acumulada
no interior da Terra. Após os eventos de 1883, novas movimentações de placas
tectônicas ocorreram e novas erupções vulcânicas de menor magnitude expeliram
material magmático do manto sob as águas oceânicas, formando novas camadas de
rochas sobrepostas, que futuramente dariam origem a novas ilhas e consequentemente
novos edifícios vulcânicos. Nasce assim a “Criança Krakatoa”, ou simplesmente
Anak Krakatoa.
A formação de novas
pequenas ilhas no cenário de devastação de Krakatoa mantém a dinâmica interna
da Terra em pleno funcionamento, ao passo que garante a manutenção do equilíbrio
entre as camadas internas e internas do planeta. Mas o conhecimento do passado
traz consigo o temor e a certeza de que os eventos de 1883 podem naturalmente
se repetir na região.
Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69>
acesso em 17 abr. 2020
Anak Krakatoa, 2020
As
sucessivas erupções que ocorreram ao longo do século XX, decorrentes do
ajustamento das partes que compõem a estrutura da Terra, reconstruíram, de
certo modo, feições que haviam na região de Sumatra no século XIX, assim sendo,
novas ilhas vulcânicas passaram a fazer parte do ambiente e lentamente, na velocidade
do tempo geológico, a atividade vulcânica na região voltou à “normalidade”.
Porém, trata-se de uma região instável, o que significa que a qualquer momento
tudo pode mudar e eventos inesperados e desastrosos podem voltar a acontecer, e
por se tratarem de eventos associados às forças endógenas da Terra, o homem não
tem nenhum controle ou poder de evita-los ou amenizá-los.
A
região de Sumatra já havia dado avisos consistentes de que grandes eventos
poderiam estar próximos a acontecer, mas sabemos que eventos geológicos são matematicamente
imprevisíveis e ocorrem de maneira instantânea e pontual. No ano de 2004, nessa
mesma região da Ásia o mundo assistiu estarrecido à ocorrência de um grande
tsunami, causado pela ocorrência de um maremoto em águas profundas, próximo ao
litoral do Sri Lanka. Esse tipo de evento acontece sempre que há qualquer tipo
de movimentação de placas tectônica, e como mencionamos anteriormente, a ocorrência
de um evento causa obrigatoriamente a ocorrência de eventos subsequentes.
Como
já referido, há uma relação direta entra a movimentação das placas tectônicas
na Nova Zelândia em dezembro de 2019 com a ocorrência da erupção no Anak
Krakatoa em abril desse ano, assim como esse evento tem relação direta com a erupção
de um vulcão nas Filipinas em janeiro de 2020, um terremoto que atingiu Cuba,
também em janeiro de 2020, outro na Turquia no mesmo mês, outro na China ainda
em janeiro, mais um no oeste dos Estados Unidos em março desse ano, e até mesmo
um que ocorreu na Itália ontem (16 de janeiro de 2020)... Passaríamos dias a
fio aqui falando de terremotos e erupções recentes no mundo, e em comum eles
teriam o fato de estarem todos ligados. Como afirmamos, quando uma placa se
move em um lugar, todas as outras precisam se mover para compensar essa "mexida"...
Entre os dias 10 e 11 de
abril de 2020, o vulcão insular, Anak Krakatoa expeliu lava e materiais incandescentes
(fluxos piroclásticos) por 2 horas ininterruptas, quase 140 anos após o
Krakatoa ter varrido o conjunto de ilhas no sul da Ásia com uma sequencia de
eventos catastróficos de magnitude incalculável.
Disponível em: <https://i1.wp.com/www.news1.news/wp-content/uploads/2020/04/096633de99cc3c86684a6588e43031c5.jpeg?fit=1200%2C696&ssl=1>
acesso em 17 abr. 2020
Durante
a recente erupção no arquipélago do pacífico, o Anak Krakatoa expeliu uma densa
nuvem de fumaça que atingiu pelo menos 15 quilômetros de altitude, que foi
espalhada pelos ventos que varrem a atmosfera. Embora tenha tomado conta dos
noticiários do mundo inteiro, essa atividade não foi a maior observada no Anak
Krakatoa, pois em 2018 o mesmo vulcão entrou em processo magmático, seguido por
um tsunami que atingiu o litoral da Indonésia, ceifando a vida de mais de 400
pessoas. O que preocupa de fato não é o tamanho dessa erupção em si, mas sim a
recorrência desse tipo de evento, posto que é a segunda grande manifestação do
tipo em apenas 16 meses. E segundo cientistas e geólogos, de concreto pode-se
afirmar apenas que o pior ainda está por vir, pois afirmam que o poder
destrutivo do Krakatoa filho é infinitamente maior que o do Krakatoa pai...
■
domingo, 2 de fevereiro de 2020
CHUVAS NO SUDESTE: BELO HORIZONTE EM ESTADO DE ALERTA
Temporais no Sudeste do
Brasil: Por que tem chovido tanto nesse início de 2020?
- Por Éder Israel
Disponível em: <https://jornalmontesclaros.com.br/wp-content/uploads/2020/01/climatempo69-624x400.png>
acesso em 31 jan. 2020
Na região sudeste do
Brasil, principalmente nas porções não litorâneas, o período de verão,
configura-se como estação mais chuvosa, com precipitações concentradas
principalmente entre os meses de outubro e março. Porém, no início de 2020 os
índices pluviométricos se apresentam mais elevados que a média histórica da
região.
Tradicionalmente
a região Sudeste do Brasil apresenta elevada umidade durante o período de verão,
estação marcadamente chuvosa do clima Tropical Semiúmido, predominante na
região. Porém, o janeiro de 2020 tem apresentado anomalias climáticas que
tornam os índices pluviométricos exageradamente elevados. Os estados de Minas
Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo sofrem com alagamentos constantes e
milhares de pessoas desabrigadas, além de dezenas de pessoas que perderam suas
vidas, em decorrência de deslizamentos de terras e inundações. Na verdade o
clima na transição entre os anos de 2019 e 2020 tem apresentado graves
alterações, e o que acontece no Brasil é apenas reflexo das condições climáticas
globais.
Por
se localizar em uma área de baixas latitudes, o território brasileiro se insere
dinâmica da Zona de Convergência Intertropical - ZCIT, na qual os ventos alísios
sopram das latitudes próximas aos trópicos em direção à Linha do Equador, transportando
consigo a umidade que ocasiona abundantes chuvas na zona climática mais quente
da Terra. Porém, as chuvas da ZCIT se concentram na região norte do país, não
tendo relação direta com os temporais que ocorrem no Sudeste brasileiro. Como mencionado,
as chuvas nesse início de ano nessa região se relacionam a anomalias
climáticas, enquanto das chuvas da Amazônia fazem parte da normalidade da
circulação global da atmosfera.
As
chuvas torrenciais que castigam atualmente Minas Gerais, Espírito Santo e Rio
de Janeiro são provenientes da elevada umidade trazida da região Norte do Brasil
(borda sul da Amazônia), quando se forma a chamada Zona de Convergência do
Atlântico Sul – ZCAS, responsável por grande parte das precipitações que
ocorrem nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país, principalmente durante
os meses de verão. Porém, no início de 2020 a formação dessa zona de
convergência se deu de maneira mais acentuada, o que ocasionou a ocorrência das
chuvas torrenciais que castigam as populações que vivem nas regiões por ela afetadas
.
Disponível
em: <https://imagens.climatempo.com.br/climapress/galeria/2017/11/a35d6714e490a15aed32727deda862df.gif>
acesso em 31 jan. 2020
A ação conjunta de
centros de alta e baixa pressão atmosférica (1 e 2, no mapa) sobre o território
brasileiro associada à chegada de uma frente fria proveniente da Antártida (3
no mapa) forma uma zona de intensa nebulosidade entre as regiões Sul e
Nordeste, provocando elevação substancial da pluviosidade média nessa área.
A
ZCAS se forma em decorrência das diferenças de pressões entre as regiões da
América do Sul, criando um corredor de deslocamento de grandes quantidades de
vapor de água da Amazônia em direção à região Sul, de modo similar ao que
ocorre com a formação dos chamados “Rios Voadores”, porém em escala muito mais
intensa e de repercussões muito mais severas. A ZCAS se associa com a formação
de duas zonas de distintas pressões, sendo uma chamada de Alta da Bolívia (AB),
e a outra chamada de Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN). Ambas as zonas
atuam em combinação com a chegada de uma frente fria nas regiões litorâneas do
Atlântico-Sul, criando as condições de instabilidade e elevada umidade no
território nacional.
A
Alta da Bolívia se caracteriza por ser uma zona de alta pressão atmosférica;
portanto, anticiclônica (dispersora de ventos) que se forma na borda leste da Cordilheira
dos Andes, próximo do Centro-Oeste do Brasil, impedindo a livre circulação do
ar úmido que sai da Amazônia em direção à região Sul, desviando-o para o
Centro-Oeste e para o Sudeste do país. Esse centro de alta pressão se
estabelece em uma altitude média de 10 km, e se move no sentido anti-horário, criando
uma espécie de corredor preferencial para os ventos úmidos amazônicos. Por
outro lado, o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis se estabelece no Nordeste brasileiro,
formando uma zona de baixa pressão atmosférica; portanto, ciclônica (receptora
dos ventos). A movimentação desse vórtice se dá no sentido horário, sendo
exatamente entre a AB e o VCAN o caminho percorrido pelas correntes de ar
carregadas de umidade que se deslocam da Floresta Equatorial, e se encaminham
para a porção Centro-Sul brasileira.
Como
esse ar quente e úmido se desloca concentrado por essa rota preferencial, que a
climatologia chama de “cavado atmosférico”, a tendência é que ocorram chuvas ao
longo de sua movimentação, como normalmente acontece durante todos os verões no
Centro-Sul. Porém, nesse início de 2020 um agravante acaba por acentuar esse
quadro de normalidade, que é o fato de simultaneamente à atuação da AB e do
VCAN ter chegado à costa brasileira uma frente fria, proveniente das águas
frias da região antártica. O choque entre o ar quente e úmido proveniente da
região Norte do país e o ar de baixas temperaturas proveniente do polo sul cria
uma zona de instabilidade sobre a região Sudeste, levando à rápida e intensa
condensação do vapor de água que se move pelo “cavado atmosférico”, ocasionando
chuvas torrenciais nessa área.
Disponível
em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhENetgM4u5HQ5tynMJnLXIppxnJSNX8t7XqdDOfdKviImApIUby9vtJykHfrGEpqI42o55ctOIxtwlr-9DLOGn_AmOEWQB1efQtjS5mg3tbHTko3UMLRgPoZe4JsEWoGbbFbwo8zUZWgy7/s1600/amaz.jpg>
acesso em 31 jan. 2020
Na imagem de satélite as
áreas demarcadas em branco representam locais onde a formação de nuvens se concentra,
e consequentemente onde as possibilidades de chuvas são mais amplas. A faixa
que se estende entre as regiões Sul e Nordeste corresponde à ZCAS,
intensificada pela interação da Alta da Bolívia e o Vórtice Ciclônico de Altos
Níveis.
Faz-se
necessário ter atenção a erros conceituais graves, que podem trazer incorreções
na análise do quadro climático brasileiro nesse inicio de ano, posto que a
maioria dos fenômenos ou anomalias de nosso clima seja sempre associada à ocorrência
do el niño ou da la niña. Porém, dessa vez não é o caso. Embora a ZCAS possa ser
influenciada diretamente por essas duas anomalias climáticas globais, de acordo
com os cientistas da agência meteorológica dos Estados Unidos, chamado de Administração
Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês) o verão 2019 – 2020 apresenta
quadro de neutralidade em relação a tais anomalias; ou seja, não estamos
vivendo um el niño, tampouco uma la niña. Caso houvesse o estabelecimento
de um el niño no atual período, seria
mais difícil a formação da Alta da Bolívia, e consequentemente a ZCAS não teria
intensidade para provocar tantas chuvas. Ao passo que no caso de uma la niña, a Alta da Bolívia seria muito
mais intensa, e consequentemente a ZCAS traria possibilidades ainda maiores de
chuvas na região.
Como
resultado da atuação da ZCAS, observada em janeiro de 2020, os estados do
Espírito Santo e Minas Gerais foram intensamente afetados por chuvas
torrenciais, que provocaram perdas materiais e humanas, além de danos
estruturais nas cidades afetadas. Inicialmente as cidades capixabas foram as
mais afligidas; porém, após os primeiros dias de ocorrência do fenômeno, o
estado de Minas Gerais passou a sofrer com muito mais intensidade os impactos
das fortes chuvas de verão, principalmente na cidade de Belo Horizonte, onde os
valores acumulados das precipitações desse mês ultrapassaram todas as médias
anuais do último século, e as perdas humanas e materiais também se acumularam
na mesma escala.
Disponível
em: <https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/01/25/grafico-as-chuvas-em-minas.ghtml>
acesso em 31 jan. 2020
O gráfico apresenta os
volumes pluviométricos na cidade de Belo Horizonte, nos meses de janeiro de cada
ano, de 1990 até 2020. A média geral de chuvas para esse mês foi de 329,1mm.
Até o dia 25/01/2020 havia chovido cerca de 800mm (o valor atualizado para
29/01/2020 já era de 932,3mm), maior volume registrado para o mês nos últimos 110
anos de medições na cidade.
Por
se tratar de uma grande metrópole, densamente povoada e com notáveis falhas
estruturais, como a maioria das cidades brasileiras, os impactos dessas fortes chuvas
concentradas em um curto período de tempo afetam direta e substancialmente as
populações residentes, provocando além das mortes, alagamentos, deslizamentos
de terra, quedas de barreiras e suspensão de serviços essenciais como a
distribuição de água e eletricidade. O último levantamento de mortes até o dia
31/01/2020 informava que 55 pessoas perderam a vida no estado de Minas Gerais,
e outras 10 no Espírito Santo, além de dezenas de milhares de desabrigadas e
deslocadas pelas enchentes ou riscos geológicos em suas habitações.
A
capital mineira tem sua situação agravada pela combinação entre o crescimento
desordenado da cidade, que promove além da maciça impermeabilização do solo a
ocupação de áreas de risco, como as vertentes e as várzeas, com a topografia da
cidade, que se encontra encrustada entre serras e morros, recebendo grande parte
da água escoada das áreas adjacentes, uma vez que a cidade encontra-se em uma
altitude mais baixa que seu entorno. Como há córregos canalizados no perímetro
urbano da cidade, e ali é “despejada” toda água proveniente dos aclives
marginais da capital, seu transbordamento é quase que inevitável e as
inundações urbanas se tornam fatos corriqueiros nos períodos mais chuvosos,
acumulando-se prejuízos para o poder público e para a iniciativa privada.
Disponível
em: <https://static-wp-eqi15-prd.euqueroinvestir.com/wp-content/uploads/2020/01/areas-de-chuva-em-bh-590x332.jpeg> acesso em 31 jan. 2020
Como o relevo provoca o
escoamento de grandes volumes de água na direção de Belo Horizonte, e a
ocupação imobiliária sem planejamento produziu habitações em locais de risco,
seja por conta da inclinação superior a 30º (vertentes) ou pelo acúmulo de
águas movimentadas pelo escoamento superficial (várzeas nas margens dos cursos
hídricos), toda chuva concentrada tem elevado potencial de perdas e prejuízos
na capital mineira.
Segundo
pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, a tendência
é que nas primeiras semanas do mês de fevereiro a ZCAS alterada permaneça sobre
a região Sudeste, trazendo consigo o risco de novas chuvas para as áreas já
atingidas no mês de janeiro, tendo possibilidade do aumento dos riscos de
prejuízos humanos e materiais, especialmente no Espírito Santo e Minas Gerais.
Após esse período a tendência é que a frente fria antártica perca força e passe
a influenciar cada vez menos a região, reduzindo-se gradativamente as médias
pluviométricas e os efeitos negativos das chuvas torrenciais, voltando a
situação à normalidade no mês de março.
Mas,
como mencionado anteriormente, em tempos de mudanças e anomalias climáticas,
qualquer previsão do tempo dura apenas até ser contrariada pelas forças da
natureza...
■
domingo, 24 de janeiro de 2016
CONFERÊNCIA MUNDIAL DO CLIMA 2015 - COP-21
Parte 1: O que há por trás da aparente
preocupação global em relação às mudanças climáticas?
Por Éder Israel
Disponível
em: <http://menos1lixo.virgula.uol.com.br/wp-content/uploads/2015/12/cop-paris-perspective-cropped.png>
Acesso em 23 jan. 2016
Ainda
sob a comoção criada após os ataques terroristas ocorridos em Paris no final de
2015, foi realizada na capital francesa uma das mais importantes conferências
relativas ao meio ambiente, a qual foi chamada de COP-21. Dentre os principais
pontos debatidos nessa conferência e que passaram "despercebidos", podemos destacar alguns que se configuram como os mais ressonantes para os
próximos anos, tais como o conjunto de propostas realizado pelos países menos
desenvolvidos, assim como a "benevolência" relativa das potências
mundiais em relação a ações ligadas à conservação ambiental. Parece bom demais
para ser verdade...
A
COP-21 pode ser compreendida como uma proposta de revisão dos pontos e
propostas realizados em 1998 no Protocolo de Kyoto, quando se buscava uma
redução de 5,2% das emissões de CO2 para a atmosfera a ser alcançada
pelos países desenvolvidos (chamados na ocasião de Nações do Anexo 1) no
período entre 2008 e 2012. Nesse final de 2015, a meta principal era a
ampliação desta taxa de redução para
além dos 5,2%, bem como a proposta de comprometimento de países fora do grupo
do Anexo 1, para que se chegasse a um consenso global para a retração mundial
dos níveis de poluição atmosférica e consequentemente do aquecimento global.
Disponível
em: <http://gdb.voanews.com/41879063-5408-492D-A460-D04CCB976391_mw1024_s_n.jpg>
Acesso em 23 jan. 2016
Voltando
aos pontos mais importantes e dignos de menção, destacamos a "boa
vontade", principalmente por parte dos Estados Unidos e seu discurso/proposta
de reduzir em 1/3 as suas emissões de CO2 para a atmosfera. Poxa, os
Estados Unidos, que recusavam a reduzir em 5,2% as emissões em 1998 quando não
ratificaram o Protocolo de Kyoto? Muito
estranho isso...
Ora,
qual a razão deste pleno e repentino interesse em ajudar o mundo com o meio
ambiente? Estariam os Estados Unidos se tornando um país altruísta e preocupado
com o bem estar mundial? O que a maior
potência mundial poderia ganhar com essa mudança de atitude ambiental?
Precisamos responder a estas questões, para conseguir compreender minimamente o
contexto global da questão ambiental para este início de século XXI. Vamos a
isso.
Sabemos
que no final do século XX, os Estados Unidos passaram a enfrentar um problema
que não havia enfrentado desde o término da Segunda Guerra Mundial, que é a
concorrência com outra nação que busque tomar sua posição de maior potência capitalista
do mundo, fato que se observa atualmente
com o crescimento econômico e a conversão capitalista cada vez mais
sólida da China. Embora a economia chinesa tenha atravessado recentemente
algumas turbulências, o fato é que o país asiático assume cada vez mais a
posição de destaque entre as nações emergentes do mundo e caminha a passos
largos na direção de competir brevemente com os Estados Unidos de modo mais
efetivo pela posição de Hegemonia capitalista. A China pretende desbancar o
mais rápido possível o controle primaz que os estadunidenses detém desde o
término da Guerra Fria em 1991, e busca isso às custas de uma ampliação da
produção industrial, sem se preocupar com os custos ambientais disso.
A
situação econômica da China atual se sustenta, dentre outras coisas, no fato de
que a nação asiática não faça parte dos países do Anexo 1 do Protocolo de
Kyoto, logo não possuía a obrigatoriedade de reduzir em 5,2% as emissões de CO2
para a atmosfera, o que permitiu ao governo e às indústrias do/no país a livre
queima do carvão mineral existente na Manchúria, produzindo energia fóssil em
nível elevado. Porém os poluentes atmosféricos eram liberados na mesma
proporção do crescimento do PIB chinês. Em 2008, a China ultrapassou os Estados
Unidos como maior emissor global de CO2, e desde então a situação
tornou-se ainda mais severa, pois enquanto o mundo buscava por fontes alternativas
de energia em substituição ao petróleo poluente, os chineses ampliavam a cada
dia a queima do carvão mineral, mais poluente que o próprio petróleo.
Disponível
em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQpLn9nKBan7g2X9jfjSukvcVWrgGIg1KImI4UMONp1_UtgV_payz5tCnx0qOzJg4v90yekFp4igP-9I6rgXUXTdYIL1uAg849byn-muvU0mdeztpshFMjfxfBNEKBJGV3foTaZtqClOw/s1600/polui%25C3%25A7%25C3%25A3o+china+2.jpg>
Acesso em 24 jan. 2016
A
primeira pergunta anteriormente feita, sobre quais os interesses dos Estados
Unidos em "ajudar" ao mundo, é respondida com base nesse aspecto,
pois com a economia chinesa crescendo quase ininterruptamente desde a década de
1980, a continuação da produção industrial do país asiático o levaria a
concorrer, em poucos anos, em pé de igualdade com a economia dos Estados
Unidos, em crise desde 2008. Propor um acordo global de redução das emissões de
CO2 na COP-21, seria ótimo para o governo estadunidense, pois isso
levaria a China a ser obrigada a reduzir a queima do carvão mineral que possui
a custos baixos e a sua substituição por outras fontes (fósseis ou não) que o
país não possui. Aumentar-se-iam os custos produtivos da nação asiática, reduzir-se-ia
seu crescimento econômico, e os Estados Unidos teriam um "suspiro"
maior na tentativa de se manter a posição de maior potência do século XXI.
O
segundo questionamento, seria se os Estados Unidos estariam se revestindo de
altruísmo para com as preocupações globais no que tange ao aquecimento global.
Bobagem... A Primavera Árabe de 2011, trouxe uma profunda instabilidade para o
mundo árabe e consequentemente para a oferta internacional de petróleo (embora
devemos considerar que nesse início de 2016 os preços deste recurso energético
anteriormente tão valorizado nos anos anteriores tenha atingido níveis abaixo
das últimas décadas, mas trata-se de outra discussão a ser feita em outro
momento). Pois bem, a economia estadunidense ainda não se reestabeleceu
plenamente da crise imobiliária de 2008 e vê dificuldades em equilibrar seus
gastos já planejados e o sobregasto com o petróleo, até recentemente caro.
Altruísmo que nada, a questão no caso seria "pindaíba" mesmo, pois a
busca tem sido por outras fontes energéticas em alternativa ao petróleo, não
por considerar este muito poluente, mas sim por considerá-lo muito caro. Está
respondido o segundo questionamento.
E
em terceiro lugar, questionei o que os Estados Unidos estariam ganhando com
essa proposta de redução de 30% de suas emissões de CO2 para a
atmosfera. Em se tratando do maior expoente do capitalismo mundial, é óbvio que
o termo "ganhar" deve ser entendido como ganho econômico, como
acúmulo de riqueza e capital. Ora, um dos grandes debates atuais acerca das
questões energéticas nos Estados Unidos, é a extração e a utilização do gás do
xisto, apresentado como "salvador da pátria" ou "fonte
energética do futuro". Porém, enfrenta severas críticas principalmente por
conta de seu método de extração, chamado de crackin',
que é acusado de causar a contaminação e o comprometimento das águas
subterrâneas, além da emissão de gases mais nocivos ao clima que o CO2.
Disponível
em: <http://fundacaoverde.org.br/wp-content/uploads/2014/01/gas_xisto4.jpg>
Acesso em 24 jan. 2016
Portanto,
o discurso de que estaria disposto a reduzir a dependência histórica em relação
ao petróleo soa, para a opinião pública estadunidense, como uma boa vontade
aparente do Estado em busca da sustentabilidade ambiental e isso poderia
diminuir as críticas e cobranças hoje realizadas à extração do gás do xisto,
que no final das contas é exatamente o que as grandes corporações energéticas do
país, que sustentam as campanhas políticas, querem. Como disse, é bom demais
para ser verdade...
Na
prática, as discussões realizadas na COP-21 serviram muito mais para pavimentar
os caminhos das grandes potências na recuperação econômica da crise global de
2008, do que para solucionar ou mitigar problemas de ordem ambiental do mundo.
Embora houveram pontos e propostas ambientalmente interessantes que debateremos
em outro momento.
Continua...
terça-feira, 24 de novembro de 2015
O DESASTRE SÓCIO-AMBIENTAL DE MARIANA - MG (parte 3)
Como dizem os mineiros:
"Quando a esmola é demais, o santo desconfia..."
Por Éder Israel
Disponível em: < http://content-portal.istoe.com.br/istoeimagens/imagens/mi_4752743197071956.jpg> Acesso em 23 nov. 2015
Após
a tragédia (como se ela já tivesse passado...) começam as ações dos juristas,
ambientalistas e “coisistas” das redes sociais. O clamor que se criou para o
apontamento dos culpados e a estipulação das punições a faz com que as coisas
se compliquem, pois, a pressa brasileira, faz a justiça morosa caminhar a
passos largos e desconsertados de quem não tem o costume de se mover.
É
preocupante, a divisão dos "justiceiros ambientalistas", em duas
vertentes distintas de "debate" acerca das questões. A primeira
destas vertentes, moralista, saudosa do glorioso Brasil potência econômica
mundial, antes da década de 1990 (se estiver levando a sério esta ironia, pare
imediatamente de ler este texto), acredita piamente que quando o Estado era o
timoneiro da economia, antes, portanto, da política de privatizações do
neoliberalismo, coisas do tipo não ocorriam
no país.
Há,
de fato, quem atribua à privatização da Companhia Vale do Rio Doce a ocorrência
do desastre de agora, como se a gestão dos riscos por parte do Estado fosse
mais eficiente (ou menos ineficiente). Não me aprofundarei nessa discussão, por
considerá-la por demais superficial e pueril. A outra vertente, ortodoxa, apregoa a necessidade de se impor pesadas
multas à SAMARCO, afetando o bolso dos "donos" da empresa, como se
isso, por si só, resolvesse o problema. Ora, a multa seria apenas um valor
financeiro, arrecadado pelo Estado, que poderia (eu disse poderia) ser direcionado
para as obras necessárias à recuperação do desastre ambiental.
Acreditar
que este dinheiro, em um país corrupto (desde quando espelhos compravam
pau-brasil...) chegaria de fato ao vale do rio Doce, seria como acreditar que a
gestão estatal da mineração traria maior controle e rigor às questões
ambientais ligadas à extração de commodities. Acorda aí, José!
Atendendo
ao clamor social e da mídia parcial brasileira por "justiça" (se
pudesse, muita gente amarraria a SAMARCO a um poste e deixaria aos urubus...),
o governo estipulou uma multa de R$ 250 milhões contra a empresa, supostamente
após o inventário dos reais danos causados pelo vazamento da lama dos lagos de
Fundão e Santarém. Uai (em bom mineirês), deu tempo de realizar investigações
isentas e precisas acerca dos verdadeiros problemas recorrentes e dos reais
custos para a reparação dos impactos? Acho que não heim... Mas enfim, a multa
foi estabelecida e segundo a SAMARCO será paga; talvez...
Após
a multa "aplicada" pelo governo federal (através do IBAMA), um juiz
de Minas Gerais (estado mais afetado pelo "acidente") entrou com uma
ação pedindo o bloqueio de aproximadamente R$ 300 milhões em dinheiro nas
contas da SAMARCO, que devem ser usados (segundo palavras do magistrado) em obras
de recuperação e revitalização do vale do rio Doce, nos estados de Minas Gerais
e Espírito Santo.
Somados,
a multa e o bloqueio de contas completam uma quantia razoável, (quando se
analisa apenas os valores financeiros) porém irrisória (quando se tem a mínima
ideia do real impacto e se observa os custos) para a recuperação e realização
de obras similares a estas pelo mundo. Caso esses recursos chegassem aos
devidos locais a serem recuperados, ainda assim seria insuficiente para mitigar
os impactos, o que dirá para repará-los e resolvê-los.
Este
valor parece ainda mais irrisório quando se remete a outras tragédias
ambientais pelo mundo, como, por exemplo, o vazamento de petróleo da plataforma
da British Petroleum (BP) em 2010, no
Golfo do México. No episódio, órgãos estadunidenses multaram a companhia em
aproximadamente US$ 86 bilhões, valor quase infinitamente maior que o aplicado
à SAMARCO, além da obrigação, por parte da BP de realizar a "limpeza"
e "despoluição" da área afetada pela mancha de óleo. Eu sei, José,
são coisas diferentes e não devem ser comparadas, usei apenas como exemplo
prático...
A
rapidez com que o Estado necessitou dar uma resposta em forma de punição à
SAMARCO, somada ao não-esforço da empresa em considerar o valor de R$ 250
milhões por demais alto, revela a possibilidade de que tais valores não sejam
condizentes com a realidade dos fatos relacionados aos acontecimentos ocorridos
em Mariana.
Mas
enfim, é Brasil. No final de tudo a gente da um jeitinho e as coisas se ajustam.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
O DESASTRE SÓCIO-AMBIENTAL DE MARIANA - MG (parte 2)
O amargo futuro do rio Doce
Por Éder Israel
Disponível em: < http://msalx.veja.abril.com.br/2015/11/09/1858/pe6Cx/alx_brasil-barragem-mariana-20151109-013_original.jpeg?1447102717
> Acesso em 13 nov. 2015
Após o rompimento das barragens e da liberação dos resíduos
contaminados serra a abaixo, a gravidade se encarregou de fazer seu trabalho,
arrastando tudo que havia pelo caminho em direção ao vale do rio Doce, levando
para a água que abastece cidades mineiras e capixabas todo tipo de rejeito
proveniente das atividades mineradoras.
Confesso que inicialmente pareceu-me apenas uma água turva e
barrenta, que transbordaria as águas do rio Doce, porém após sua passagem as
águas do rio voltariam a se "limpar", como ocorrem após as fortes
chuvas que sujam as águas deste rio no verão mineiro. Porém, duas notícias (que
não posso precisar as fontes e nem averiguar completamente suas veracidades)
trouxeram um golpe seco de realidade à visão minimalista que esse desastre
trouxe a muitos de nós.
A primeira notícia é na realidade um relato de um químico de que
as primeiras análises da água do rio Doce após a chegada da lama da SAMARCO
davam a impressão de que alguém havia jogado a tabela periódica inteira dentro
do rio, tamanha a quantidade e a diversidade de elementos químicos (muitos
deles contaminantes) presentes e observáveis nas amostras. Segundo dados
laboratoriais foi observada na água a presença de manganês, arsênio, mercúrio,
alumínio, ferro, chumbo, boro, bário, cobre, dentre outros materiais
contaminantes.
A segunda notícia, ainda mais alarmante partiu da SAAE (Serviço
Autônomo de Água e Esgoto de Governador Valadares - MG), que atestou que nas
amostras avaliadas pelos seus laboratórios, havia na água contaminada pela lama
da SAMARCO uma quantidade de metais muito superior ao aceitável pela
Organização Mundial de Saúde - OMS e por outros órgãos internacionais. Segundo
esta avaliação, havia uma quantidade de ferro 1.366.666% acima do normal; já o
manganês, material tóxico, estava 118.000% acima do normal; o alumínio
encontrava-se 645.000% além dos valores toleráveis, além dos demais materiais
ali presentes.
A tabela a seguir, divulgada pela prefeitura de Governador
Valadares, se refere aos valores observados para alguns destes materiais
presentes na água no dia 11 de novembro, seis dias após o vazamento.
Fonte: < http://img.r7.com/images/2015/11/11...>
Acesso em 15 nov. 2015
A torrente de lama que chegou à calha do rio Doce pode ser
responsável pelo maior desastre ambiental da história do Brasil, sob o risco de
dizimar toda a fauna e flora aquática e ribeirinha do rio. A mortandade de
peixes observada assusta, embora as autoridades que deveriam se atentar ao
problema se mostram incapazes de esboçar qualquer tipo de reação efetiva, o que
na verdade é típico do Brasil, onde as questões urgentes são sempre suprimidas
por algum acontecimento de grande magnitude e mais recente que se observa.
Disponível em:< http://s2.glbimg.com/vC4KqkJkElWMdSCRjQ_WmAA3lwg=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2015/11/13/rio_doce.jpg>
Acesso em 15 nov. 2015
Um dos grandes questionamentos que deveria estar sendo feito agora
se refere às perspectivas futuras para o rio Doce e sua população, pois
caminhamos de fato para um impacto ambiental irreversível, uma vez que espécies
endêmicas pode ter sido simplesmente varridas pela onda de poluição e rejeitos
que por ali passou. Além disso, há o problema das famílias, não só aquelas que
perderam tudo com a passagem da lama, mas sim e principalmente aquelas que
dependem do rio como forma de sustento. De onde estes pescadores irão garantir
a realização de sua atividade profissional? Há um plano emergencial para esta
situação? Ou os governos federal e estadual também vivem naquele misto de "se
eu não fizer outro fará" e "se nunca aconteceu, por que aconteceria
agora?"...
O grande fotógrafo de Minas, Sebastião Salgado deu essa semana uma
entrevista contundente, em defesa de Minas Gerais, dos mineiros e
principalmente do rio Doce, enfatizando a ideia central de sua fala sobre o
desastre ambiental no referido rio, afirmando veementemente que "vamos
recuperá-lo!". Admiro muito Sebastião Salgado, sou fã incondicional de sua
fotografia e de sua 'mineirice' desmedida, mas discordo dele em 2 pontos
básicos. Em primeiro lugar, por quê NÓS vamos recuperar o rio Doce? Em segundo
lugar, a preocupação de enfatizar que a VALE estaria disposta a patrocinar um
fundo de recuperação das nascentes da bacia do rio Doce, que sofre há décadas
com o desmatamento e demais atividades antrópicas.
Ora, parece-me pouco efetivo em uma situação de emergência e
catástrofe no médio e baixo curso do rio, que as ações e planos de mitigação de
problemas se refiram ao alto curso e às nascentes do mesmo, embora saiba e
admita a necessidade destas ações, parece-me pouco eficaz resolver os problemas
de Mariana investindo na nascente do rio no município de Ressaquinha, na Serra
da Mantiqueira. Mas enfim, é só uma opinião...
Finalizo, por hora, com uma frase que tenho repetido seguidas
vezes nos últimos anos, seguida de sua rápida explicação, para que não hajam
falsas e tendenciosas interpretações. Tenho dito que "o grande problema do
Brasil tem sido o brasileiro", e explico! Não por qualquer desvio de
caráter, índole, má fé ou qualquer outro defeito pejorativo, mas sim pela
capacidade que temos de nos adaptar e nos virar em quaisquer situações, dando
sempre um jeito de "consertar" as coisas que nos são entregues
erradas. Isso traz para nós uma acomodação, e uma incapacidade de cobrança, que
nos torna capazes de dar um jeitinho para tudo que não está certo, ao invés de
exigir que seja feito e nos entregue do modo correto.
Criamos uma capacidade enorme de dizer "vamos recuperá-lo",
quando deveríamos dizer "vocês serão responsabilizados"...
Continua...
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