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sábado, 18 de abril de 2020

O RENASCIMENTO DO KRAKATOA


ANAK KRAKATOA

- Por Éder Israel


Localizado na porção sul da Ásia, entre o continente oriental e a Oceania, o Krakatoa e atualmente o Anak Krakatoa fazem parte de uma das regiões de maior atividade tectônica do mundo.

Disponível em: <http://www.esa.int/Space_in_Member_States/Portugal/Envisat_produz_o_mapa_global_da_Terra_mais_nitido_de_sempre> acesso em 17 abr. 2020

Vulcanismo

A erupção vulcânica ocorrida na região asiática do arquipélago de Sumatra no dia 11 de abril de 2020, e noticiada amplamente pela mídia internacional, fez ressurgir um grande fantasma tectônico do passado, rememorando a histórica e catastrófica erupção ocorrida no mesmo arquipélago no ano de 1883, considerada até hoje um dos maiores eventos desse tipo registrado na história. Naquela ocasião, no século XIX, houve uma combinação de eventos catastróficos, originados por uma grande erupção, acompanhada por uma grande explosão do edifício vulcânico e seguida pela formação de ondas gigantes (tsunamis) de grande magnitude. Em suma, um “apocalipse tectônico”...

Para entender os eventos de 1883 e lançar luz sobre os novos eventos de 2020, faz-se necessária a compreensão da dinâmica tectônica que envolve uma erupção vulcânica. O vulcanismo, enquanto processo, representa uma peça fundamental de regulação da dinâmica interna da Terra, posto que, permite a liberação da pressão acumulada nas camadas internas do planeta, impedindo seu colapso e consequente explosão. Muito mais importante que a liberação do magma do manto, é o equilíbrio das pressões interna e externa da Terra, e o vulcanismo, seja ele de edifício nos continentes e ilhas ou de fissura, nos fundos oceânicos é o agente responsável pro tal equiparação.

Vulcões como o Krakatoa são formados a partir do tectonismo terrestre, do qual deriva o movimento das placas tectônicas e a consequente deriva continental, que coloca as calotas litosféricas (placas tectônicas) sólidas em movimento sobre um grande mar de rochas derretidas, chamado Astenosfera, onde ocorrem as chamadas correntes de convecção, que movem essas enormes “balsas rochosas”. E a região onde se localiza essa formação vulcânica asiática faz parte de um complexo global, que concentra a maior parte de toda a atividade tectônica da Terra, chamada de Círculo de Fogo do Pacífico, onde se observa mais de 80% de toda atividade sísmica de grande dimensão na atualidade.


O Círculo (ou Anel) de Fogo do Pacífico se estende por toda a margem desse oceano, onde se encontram inúmeras fronteiras de placas tectônicas, sejam elas convergentes, divergentes ou tangenciais. Ali se concentram, por consequência, eventos geológicos de grande magnitude, causados por forças endógenas e processos orogenéticos.

Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Pacific_Ring_of_Fire.svg/1200px-Pacific_Ring_of_Fire.svg.png> acesso em 17 abr. 2020

Há uma relação direta entre os grandes eventos geológicos, uma vez que qualquer movimentação de placas tectônicas requer um novo ajuste e rearranjo das demais placas para que o equilíbrio da crosta seja restabelecido. Assim, há uma relação próxima entre o terremoto, seguido de erupção vulcânica, que ocorreu na Nova Zelândia, em dezembro de 2019 e a erupção observada agora em abril no sul da Ásia. Ambas as localidades se posicionam sobre o Círculo de Fogo do Pacífico, e a movimentação das placas que observou-se na Oceania está agora gerando acomodações na Ásia. Não se surpreenda se em breve surgirem notícias de terremotos ou vulcanismos na costa do continente americano, pois a movimentação geológica no continente asiático certamente causará repercussões na outra borda do pacífico num futuro não muito distante...

Krakatoa, 1883

Retomando o entendimento acerca do evento tectônico de abril de 2020, para compreender toda a atenção e preocupação da mídia e cientistas mundiais a respeito dessa nova erupção, ocorrida no vulcão Anak Krakatoa (que na tradução ao pé da letra significa “Criança Krakatoa”), faz-se necessário retornarmos ao final do século XIX e entendermos como se deu e quais os maiores impactos daquela que até hoje é considerada uma das maiores atividades vulcânicas da história recente da Terra.

A região onde se localizava o antigo Krakatoa corresponde a um arquipélago com várias pequenas ilhas entre Sumatra e Sunda, território indonésio. Como já mencionado anteriormente, esse arquipélago se posiciona sobre a zona de maior instabilidade da crosta, e qualquer movimentação de placas tectônicas, obrigatoriamente, implicará em acomodações nas bordas do oceano Pacífico. Naquele evento, a pressão acumulada as camadas internas da Terra se tornou demasiadamente grande, e a sua não liberação poderia levar a um grande colapso e consequentemente a uma explosão de ordem global. De modo metafórico podemos fazer a comparação abstrata do nosso planeta com uma grande panela de pressão, cujo interior encontra-se tomado por materiais muito quentes e comprimidos. Ora, se essa pressão se elevar indefinidamente dentro dessa panela, chegar-se-á a um nível tal que as paredes desse utensílio de cozinha se romperão e toda a energia acumulada ali dentro será liberada em um único instante, após uma grande explosão. Pois bem, digamos que os vulcões seriam as válvulas dessa imensa panela de pressão chamada Terra. Portanto, as erupções são normais, e mais do que isso, necessárias para o pleno funcionamento de nosso planeta.

Mas imagine que na última vez que essa panela de pressão foi usada, ela não tenha sido devidamente limpa e, materiais anteriormente fluidos se solidificaram dentro de sua válvula, entupindo-a... Na próxima fervura, quando a pressão interna se tornar muito mais alta que a externa, se essa válvula entupida não conseguir dissipar essa energia ali confinada, a panela explodirá. Assim se deu com o Krakatoa naquela ocasião. Após uma última erupção vulcânica ter liberado a pressão excessiva do manto, o último magma expelido acabou por se solidificar dentro do canal do vulcão, transformando-se em rocha sólida, de modo que essa rocha se transformou em uma espécie de “rolha”, causando o entupimento dessa “válvula”.

Em 1883 o canal (cujo nome correto é conduto vulcânico) por onde passaria o magma que o manto tentava expelir encontrava-se obstruído por rígidas rochas ígneas, impedindo a passagem dos materiais, e levando a pressão interna da Terra a níveis muito além da normalidade. Assim, com o aumento constante dessa pressão sob o edifício vulcânico, criou-se uma situação de colapso, levando a um fenômeno chamado “vulcanismo explosivo”, porém em uma escala muito além daquela conhecida. Com isso toda a ilha onde se situava o Krakatoa explodiu, liberando enfim a pressão acumulada e lançando pelos ares tanto os materiais que impediam o “funcionamento” do vulcão, como materiais expulsos pelo manto terrestre.



Após o grande evento explosivo de 1883, grande parte das ilhas vulcânicas do arquipélago do sul da Ásia foi completamente destruído, restando apenas ruínas daquilo que fora no passado um grande ponto de alívio das tensões internas da Terra sobre o Círculo de Fogo do Pacífico

Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69> acesso em 17 abr. 2020

A explosão desse evento eruptivo forçou a abertura do conduto vulcânico para a passagem do magma, lançando para a atmosfera uma grande quantidade de fragmentos de rochas, geologicamente chamadas de bombas vulcânicas, que alcançaram pelo menos 25 quilômetros de altura, tendo, segundo relatos da época, o som da explosão sido ouvido a pelo menos 5.000 quilômetros de distância. Juntamente com as bombas vulcânicas foram lançadas também para a atmosfera grandes quantidades de cinza vulcânica, que formou uma densa nuvem que praticamente circundou o planeta naquela faixa latitudinal. Essa densa nuvem de cinzas permaneceu por meses na atmosfera, tendo impactado diretamente na ação da radiação solar e no armazenamento de calor na Terra, o que ocasionou um dos invernos mais rigorosos no continente europeu no século XIX. Sem contar a elevação do grau de acidez das chuvas que passaram a cair, uma vez que grande parte desse material particulado continha enxofre.

Juntamente com a liberação de materiais particulados para atmosfera, grande parte da energia sísmica gerada pela explosão da ilha vulcânica foi transferida para a água oceânica, tendo se transformado em energia mecânica, passando a movimentar grandes massas de água a partir do arquipélago asiático, o que ocasionou a ocorrência de vários tsunamis, que se alastraram pelas águas em múltiplas direções, completando o conjunto de catástrofes do apocalíptico evento de 1883. As ondas que atingiram dezenas de metros de altura se espalharam pelas águas dos oceanos Índico e Pacífico, chegando mesmo ao outro estremo do grande oceano, na costa oeste da América. Como resultado da combinação de eventos de grande magnitude, estima-se que pelo menos 35.000 pessoas tenham perdido suas vidas no rastro de destruição gerado no final do século XIX.

Mas, embora as ilhas vulcânicas tenham sido literalmente riscadas do mapa com as sucessivas explosões e consequências desse evento, essa zona continua manifestando as forças internas do planeta, ao passo que o Círculo de Fogo do Pacífico segue como grande “válvula de escape” da energia produzida e acumulada no interior da Terra. Após os eventos de 1883, novas movimentações de placas tectônicas ocorreram e novas erupções vulcânicas de menor magnitude expeliram material magmático do manto sob as águas oceânicas, formando novas camadas de rochas sobrepostas, que futuramente dariam origem a novas ilhas e consequentemente novos edifícios vulcânicos. Nasce assim a “Criança Krakatoa”, ou simplesmente Anak Krakatoa.



A formação de novas pequenas ilhas no cenário de devastação de Krakatoa mantém a dinâmica interna da Terra em pleno funcionamento, ao passo que garante a manutenção do equilíbrio entre as camadas internas e internas do planeta. Mas o conhecimento do passado traz consigo o temor e a certeza de que os eventos de 1883 podem naturalmente se repetir na região.

Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69> acesso em 17 abr. 2020

Anak Krakatoa, 2020

As sucessivas erupções que ocorreram ao longo do século XX, decorrentes do ajustamento das partes que compõem a estrutura da Terra, reconstruíram, de certo modo, feições que haviam na região de Sumatra no século XIX, assim sendo, novas ilhas vulcânicas passaram a fazer parte do ambiente e lentamente, na velocidade do tempo geológico, a atividade vulcânica na região voltou à “normalidade”. Porém, trata-se de uma região instável, o que significa que a qualquer momento tudo pode mudar e eventos inesperados e desastrosos podem voltar a acontecer, e por se tratarem de eventos associados às forças endógenas da Terra, o homem não tem nenhum controle ou poder de evita-los ou amenizá-los.

A região de Sumatra já havia dado avisos consistentes de que grandes eventos poderiam estar próximos a acontecer, mas sabemos que eventos geológicos são matematicamente imprevisíveis e ocorrem de maneira instantânea e pontual. No ano de 2004, nessa mesma região da Ásia o mundo assistiu estarrecido à ocorrência de um grande tsunami, causado pela ocorrência de um maremoto em águas profundas, próximo ao litoral do Sri Lanka. Esse tipo de evento acontece sempre que há qualquer tipo de movimentação de placas tectônica, e como mencionamos anteriormente, a ocorrência de um evento causa obrigatoriamente a ocorrência de eventos subsequentes.

Como já referido, há uma relação direta entra a movimentação das placas tectônicas na Nova Zelândia em dezembro de 2019 com a ocorrência da erupção no Anak Krakatoa em abril desse ano, assim como esse evento tem relação direta com a erupção de um vulcão nas Filipinas em janeiro de 2020, um terremoto que atingiu Cuba, também em janeiro de 2020, outro na Turquia no mesmo mês, outro na China ainda em janeiro, mais um no oeste dos Estados Unidos em março desse ano, e até mesmo um que ocorreu na Itália ontem (16 de janeiro de 2020)... Passaríamos dias a fio aqui falando de terremotos e erupções recentes no mundo, e em comum eles teriam o fato de estarem todos ligados. Como afirmamos, quando uma placa se move em um lugar, todas as outras precisam se mover para compensar essa "mexida"...


Entre os dias 10 e 11 de abril de 2020, o vulcão insular, Anak Krakatoa expeliu lava e materiais incandescentes (fluxos piroclásticos) por 2 horas ininterruptas, quase 140 anos após o Krakatoa ter varrido o conjunto de ilhas no sul da Ásia com uma sequencia de eventos catastróficos de magnitude incalculável.

Disponível em: <https://i1.wp.com/www.news1.news/wp-content/uploads/2020/04/096633de99cc3c86684a6588e43031c5.jpeg?fit=1200%2C696&ssl=1> acesso em 17 abr. 2020

Durante a recente erupção no arquipélago do pacífico, o Anak Krakatoa expeliu uma densa nuvem de fumaça que atingiu pelo menos 15 quilômetros de altitude, que foi espalhada pelos ventos que varrem a atmosfera. Embora tenha tomado conta dos noticiários do mundo inteiro, essa atividade não foi a maior observada no Anak Krakatoa, pois em 2018 o mesmo vulcão entrou em processo magmático, seguido por um tsunami que atingiu o litoral da Indonésia, ceifando a vida de mais de 400 pessoas. O que preocupa de fato não é o tamanho dessa erupção em si, mas sim a recorrência desse tipo de evento, posto que é a segunda grande manifestação do tipo em apenas 16 meses. E segundo cientistas e geólogos, de concreto pode-se afirmar apenas que o pior ainda está por vir, pois afirmam que o poder destrutivo do Krakatoa filho é infinitamente maior que o do Krakatoa pai...  





domingo, 2 de fevereiro de 2020

CHUVAS NO SUDESTE: BELO HORIZONTE EM ESTADO DE ALERTA



Temporais no Sudeste do Brasil: Por que tem chovido tanto nesse início de 2020?

- Por Éder Israel


Disponível em: <https://jornalmontesclaros.com.br/wp-content/uploads/2020/01/climatempo69-624x400.png> acesso em 31 jan. 2020

Na região sudeste do Brasil, principalmente nas porções não litorâneas, o período de verão, configura-se como estação mais chuvosa, com precipitações concentradas principalmente entre os meses de outubro e março. Porém, no início de 2020 os índices pluviométricos se apresentam mais elevados que a média histórica da região.

Tradicionalmente a região Sudeste do Brasil apresenta elevada umidade durante o período de verão, estação marcadamente chuvosa do clima Tropical Semiúmido, predominante na região. Porém, o janeiro de 2020 tem apresentado anomalias climáticas que tornam os índices pluviométricos exageradamente elevados. Os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo sofrem com alagamentos constantes e milhares de pessoas desabrigadas, além de dezenas de pessoas que perderam suas vidas, em decorrência de deslizamentos de terras e inundações. Na verdade o clima na transição entre os anos de 2019 e 2020 tem apresentado graves alterações, e o que acontece no Brasil é apenas reflexo das condições climáticas globais.

Por se localizar em uma área de baixas latitudes, o território brasileiro se insere dinâmica da Zona de Convergência Intertropical - ZCIT, na qual os ventos alísios sopram das latitudes próximas aos trópicos em direção à Linha do Equador, transportando consigo a umidade que ocasiona abundantes chuvas na zona climática mais quente da Terra. Porém, as chuvas da ZCIT se concentram na região norte do país, não tendo relação direta com os temporais que ocorrem no Sudeste brasileiro. Como mencionado, as chuvas nesse início de ano nessa região se relacionam a anomalias climáticas, enquanto das chuvas da Amazônia fazem parte da normalidade da circulação global da atmosfera.

As chuvas torrenciais que castigam atualmente Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro são provenientes da elevada umidade trazida da região Norte do Brasil (borda sul da Amazônia), quando se forma a chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul – ZCAS, responsável por grande parte das precipitações que ocorrem nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país, principalmente durante os meses de verão. Porém, no início de 2020 a formação dessa zona de convergência se deu de maneira mais acentuada, o que ocasionou a ocorrência das chuvas torrenciais que castigam as populações que vivem nas regiões por ela afetadas

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Disponível em: <https://imagens.climatempo.com.br/climapress/galeria/2017/11/a35d6714e490a15aed32727deda862df.gif> acesso em 31 jan. 2020

A ação conjunta de centros de alta e baixa pressão atmosférica (1 e 2, no mapa) sobre o território brasileiro associada à chegada de uma frente fria proveniente da Antártida (3 no mapa) forma uma zona de intensa nebulosidade entre as regiões Sul e Nordeste, provocando elevação substancial da pluviosidade média nessa área.

A ZCAS se forma em decorrência das diferenças de pressões entre as regiões da América do Sul, criando um corredor de deslocamento de grandes quantidades de vapor de água da Amazônia em direção à região Sul, de modo similar ao que ocorre com a formação dos chamados “Rios Voadores”, porém em escala muito mais intensa e de repercussões muito mais severas. A ZCAS se associa com a formação de duas zonas de distintas pressões, sendo uma chamada de Alta da Bolívia (AB), e a outra chamada de Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN). Ambas as zonas atuam em combinação com a chegada de uma frente fria nas regiões litorâneas do Atlântico-Sul, criando as condições de instabilidade e elevada umidade no território nacional.

A Alta da Bolívia se caracteriza por ser uma zona de alta pressão atmosférica; portanto, anticiclônica (dispersora de ventos) que se forma na borda leste da Cordilheira dos Andes, próximo do Centro-Oeste do Brasil, impedindo a livre circulação do ar úmido que sai da Amazônia em direção à região Sul, desviando-o para o Centro-Oeste e para o Sudeste do país. Esse centro de alta pressão se estabelece em uma altitude média de 10 km, e se move no sentido anti-horário, criando uma espécie de corredor preferencial para os ventos úmidos amazônicos. Por outro lado, o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis se estabelece no Nordeste brasileiro, formando uma zona de baixa pressão atmosférica; portanto, ciclônica (receptora dos ventos). A movimentação desse vórtice se dá no sentido horário, sendo exatamente entre a AB e o VCAN o caminho percorrido pelas correntes de ar carregadas de umidade que se deslocam da Floresta Equatorial, e se encaminham para a porção Centro-Sul brasileira.

Como esse ar quente e úmido se desloca concentrado por essa rota preferencial, que a climatologia chama de “cavado atmosférico”, a tendência é que ocorram chuvas ao longo de sua movimentação, como normalmente acontece durante todos os verões no Centro-Sul. Porém, nesse início de 2020 um agravante acaba por acentuar esse quadro de normalidade, que é o fato de simultaneamente à atuação da AB e do VCAN ter chegado à costa brasileira uma frente fria, proveniente das águas frias da região antártica. O choque entre o ar quente e úmido proveniente da região Norte do país e o ar de baixas temperaturas proveniente do polo sul cria uma zona de instabilidade sobre a região Sudeste, levando à rápida e intensa condensação do vapor de água que se move pelo “cavado atmosférico”, ocasionando chuvas torrenciais nessa área.


Disponível em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhENetgM4u5HQ5tynMJnLXIppxnJSNX8t7XqdDOfdKviImApIUby9vtJykHfrGEpqI42o55ctOIxtwlr-9DLOGn_AmOEWQB1efQtjS5mg3tbHTko3UMLRgPoZe4JsEWoGbbFbwo8zUZWgy7/s1600/amaz.jpg> acesso em 31 jan. 2020

Na imagem de satélite as áreas demarcadas em branco representam locais onde a formação de nuvens se concentra, e consequentemente onde as possibilidades de chuvas são mais amplas. A faixa que se estende entre as regiões Sul e Nordeste corresponde à ZCAS, intensificada pela interação da Alta da Bolívia e o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis.

Faz-se necessário ter atenção a erros conceituais graves, que podem trazer incorreções na análise do quadro climático brasileiro nesse inicio de ano, posto que a maioria dos fenômenos ou anomalias de nosso clima seja sempre associada à ocorrência do el niño ou da la niña. Porém, dessa vez não é o caso. Embora a ZCAS possa ser influenciada diretamente por essas duas anomalias climáticas globais, de acordo com os cientistas da agência meteorológica dos Estados Unidos, chamado de Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês) o verão 2019 – 2020 apresenta quadro de neutralidade em relação a tais anomalias; ou seja, não estamos vivendo um el niño, tampouco uma la niña. Caso houvesse o estabelecimento de um el niño no atual período, seria mais difícil a formação da Alta da Bolívia, e consequentemente a ZCAS não teria intensidade para provocar tantas chuvas. Ao passo que no caso de uma la niña, a Alta da Bolívia seria muito mais intensa, e consequentemente a ZCAS traria possibilidades ainda maiores de chuvas na região.

Como resultado da atuação da ZCAS, observada em janeiro de 2020, os estados do Espírito Santo e Minas Gerais foram intensamente afetados por chuvas torrenciais, que provocaram perdas materiais e humanas, além de danos estruturais nas cidades afetadas. Inicialmente as cidades capixabas foram as mais afligidas; porém, após os primeiros dias de ocorrência do fenômeno, o estado de Minas Gerais passou a sofrer com muito mais intensidade os impactos das fortes chuvas de verão, principalmente na cidade de Belo Horizonte, onde os valores acumulados das precipitações desse mês ultrapassaram todas as médias anuais do último século, e as perdas humanas e materiais também se acumularam na mesma escala.


Disponível em: <https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/01/25/grafico-as-chuvas-em-minas.ghtml> acesso em 31 jan. 2020

O gráfico apresenta os volumes pluviométricos na cidade de Belo Horizonte, nos meses de janeiro de cada ano, de 1990 até 2020. A média geral de chuvas para esse mês foi de 329,1mm. Até o dia 25/01/2020 havia chovido cerca de 800mm (o valor atualizado para 29/01/2020 já era de 932,3mm), maior volume registrado para o mês nos últimos 110 anos de medições na cidade.

Por se tratar de uma grande metrópole, densamente povoada e com notáveis falhas estruturais, como a maioria das cidades brasileiras, os impactos dessas fortes chuvas concentradas em um curto período de tempo afetam direta e substancialmente as populações residentes, provocando além das mortes, alagamentos, deslizamentos de terra, quedas de barreiras e suspensão de serviços essenciais como a distribuição de água e eletricidade. O último levantamento de mortes até o dia 31/01/2020 informava que 55 pessoas perderam a vida no estado de Minas Gerais, e outras 10 no Espírito Santo, além de dezenas de milhares de desabrigadas e deslocadas pelas enchentes ou riscos geológicos em suas habitações.

A capital mineira tem sua situação agravada pela combinação entre o crescimento desordenado da cidade, que promove além da maciça impermeabilização do solo a ocupação de áreas de risco, como as vertentes e as várzeas, com a topografia da cidade, que se encontra encrustada entre serras e morros, recebendo grande parte da água escoada das áreas adjacentes, uma vez que a cidade encontra-se em uma altitude mais baixa que seu entorno. Como há córregos canalizados no perímetro urbano da cidade, e ali é “despejada” toda água proveniente dos aclives marginais da capital, seu transbordamento é quase que inevitável e as inundações urbanas se tornam fatos corriqueiros nos períodos mais chuvosos, acumulando-se prejuízos para o poder público e para a iniciativa privada.


Disponível em: <https://static-wp-eqi15-prd.euqueroinvestir.com/wp-content/uploads/2020/01/areas-de-chuva-em-bh-590x332.jpeg> acesso em 31 jan. 2020

Como o relevo provoca o escoamento de grandes volumes de água na direção de Belo Horizonte, e a ocupação imobiliária sem planejamento produziu habitações em locais de risco, seja por conta da inclinação superior a 30º (vertentes) ou pelo acúmulo de águas movimentadas pelo escoamento superficial (várzeas nas margens dos cursos hídricos), toda chuva concentrada tem elevado potencial de perdas e prejuízos na capital mineira.

Segundo pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, a tendência é que nas primeiras semanas do mês de fevereiro a ZCAS alterada permaneça sobre a região Sudeste, trazendo consigo o risco de novas chuvas para as áreas já atingidas no mês de janeiro, tendo possibilidade do aumento dos riscos de prejuízos humanos e materiais, especialmente no Espírito Santo e Minas Gerais. Após esse período a tendência é que a frente fria antártica perca força e passe a influenciar cada vez menos a região, reduzindo-se gradativamente as médias pluviométricas e os efeitos negativos das chuvas torrenciais, voltando a situação à normalidade no mês de março.

Mas, como mencionado anteriormente, em tempos de mudanças e anomalias climáticas, qualquer previsão do tempo dura apenas até ser contrariada pelas forças da natureza...


domingo, 24 de janeiro de 2016

CONFERÊNCIA MUNDIAL DO CLIMA 2015 - COP-21

Parte 1: O que há por trás da aparente preocupação global em relação às mudanças climáticas?


Por Éder Israel


Disponível em: <http://menos1lixo.virgula.uol.com.br/wp-content/uploads/2015/12/cop-paris-perspective-cropped.png> Acesso em 23 jan. 2016

Ainda sob a comoção criada após os ataques terroristas ocorridos em Paris no final de 2015, foi realizada na capital francesa uma das mais importantes conferências relativas ao meio ambiente, a qual foi chamada de COP-21. Dentre os principais pontos debatidos nessa conferência e que passaram "despercebidos", podemos destacar alguns que se configuram como os mais ressonantes para os próximos anos, tais como o conjunto de propostas realizado pelos países menos desenvolvidos, assim como a "benevolência" relativa das potências mundiais em relação a ações ligadas à conservação ambiental. Parece bom demais para ser verdade...

A COP-21 pode ser compreendida como uma proposta de revisão dos pontos e propostas realizados em 1998 no Protocolo de Kyoto, quando se buscava uma redução de 5,2% das emissões de CO2 para a atmosfera a ser alcançada pelos países desenvolvidos (chamados na ocasião de Nações do Anexo 1) no período entre 2008 e 2012. Nesse final de 2015, a meta principal era a ampliação  desta taxa de redução para além dos 5,2%, bem como a proposta de comprometimento de países fora do grupo do Anexo 1, para que se chegasse a um consenso global para a retração mundial dos níveis de poluição atmosférica e consequentemente do aquecimento global.


Disponível em: <http://gdb.voanews.com/41879063-5408-492D-A460-D04CCB976391_mw1024_s_n.jpg> Acesso em 23 jan. 2016

Voltando aos pontos mais importantes e dignos de menção, destacamos a "boa vontade", principalmente por parte dos Estados Unidos e seu discurso/proposta de reduzir em 1/3 as suas emissões de CO2 para a atmosfera. Poxa, os Estados Unidos, que recusavam a reduzir em 5,2% as emissões em 1998 quando não ratificaram o Protocolo de Kyoto?  Muito estranho isso...

Ora, qual a razão deste pleno e repentino interesse em ajudar o mundo com o meio ambiente? Estariam os Estados Unidos se tornando um país altruísta e preocupado com o bem estar mundial? O que  a maior potência mundial poderia ganhar com essa mudança de atitude ambiental? Precisamos responder a estas questões, para conseguir compreender minimamente o contexto global da questão ambiental para este início de século XXI. Vamos a isso.

Sabemos que no final do século XX, os Estados Unidos passaram a enfrentar um problema que não havia enfrentado desde o término da Segunda Guerra Mundial, que é a concorrência com outra nação que busque tomar sua posição de maior potência capitalista do mundo, fato que se observa atualmente  com o crescimento econômico e a conversão capitalista cada vez mais sólida da China. Embora a economia chinesa tenha atravessado recentemente algumas turbulências, o fato é que o país asiático assume cada vez mais a posição de destaque entre as nações emergentes do mundo e caminha a passos largos na direção de competir brevemente com os Estados Unidos de modo mais efetivo pela posição de Hegemonia capitalista. A China pretende desbancar o mais rápido possível o controle primaz que os estadunidenses detém desde o término da Guerra Fria em 1991, e busca isso às custas de uma ampliação da produção industrial, sem se preocupar com os custos ambientais disso.

A situação econômica da China atual se sustenta, dentre outras coisas, no fato de que a nação asiática não faça parte dos países do Anexo 1 do Protocolo de Kyoto, logo não possuía a obrigatoriedade de reduzir em 5,2% as emissões de CO2 para a atmosfera, o que permitiu ao governo e às indústrias do/no país a livre queima do carvão mineral existente na Manchúria, produzindo energia fóssil em nível elevado. Porém os poluentes atmosféricos eram liberados na mesma proporção do crescimento do PIB chinês. Em 2008, a China ultrapassou os Estados Unidos como maior emissor global de CO2, e desde então a situação tornou-se ainda mais severa, pois enquanto o mundo buscava por fontes alternativas de energia em substituição ao petróleo poluente, os chineses ampliavam a cada dia a queima do carvão mineral, mais poluente que o próprio petróleo.
  

Disponível em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQpLn9nKBan7g2X9jfjSukvcVWrgGIg1KImI4UMONp1_UtgV_payz5tCnx0qOzJg4v90yekFp4igP-9I6rgXUXTdYIL1uAg849byn-muvU0mdeztpshFMjfxfBNEKBJGV3foTaZtqClOw/s1600/polui%25C3%25A7%25C3%25A3o+china+2.jpg> Acesso em 24 jan. 2016

A primeira pergunta anteriormente feita, sobre quais os interesses dos Estados Unidos em "ajudar" ao mundo, é respondida com base nesse aspecto, pois com a economia chinesa crescendo quase ininterruptamente desde a década de 1980, a continuação da produção industrial do país asiático o levaria a concorrer, em poucos anos, em pé de igualdade com a economia dos Estados Unidos, em crise desde 2008. Propor um acordo global de redução das emissões de CO2 na COP-21, seria ótimo para o governo estadunidense, pois isso levaria a China a ser obrigada a reduzir a queima do carvão mineral que possui a custos baixos e a sua substituição por outras fontes (fósseis ou não) que o país não possui. Aumentar-se-iam os custos produtivos da nação asiática, reduzir-se-ia seu crescimento econômico, e os Estados Unidos teriam um "suspiro" maior na tentativa de se manter a posição de maior potência do século XXI.

O segundo questionamento, seria se os Estados Unidos estariam se revestindo de altruísmo para com as preocupações globais no que tange ao aquecimento global. Bobagem... A Primavera Árabe de 2011, trouxe uma profunda instabilidade para o mundo árabe e consequentemente para a oferta internacional de petróleo (embora devemos considerar que nesse início de 2016 os preços deste recurso energético anteriormente tão valorizado nos anos anteriores tenha atingido níveis abaixo das últimas décadas, mas trata-se de outra discussão a ser feita em outro momento). Pois bem, a economia estadunidense ainda não se reestabeleceu plenamente da crise imobiliária de 2008 e vê dificuldades em equilibrar seus gastos já planejados e o sobregasto com o petróleo, até recentemente caro. Altruísmo que nada, a questão no caso seria "pindaíba" mesmo, pois a busca tem sido por outras fontes energéticas em alternativa ao petróleo, não por considerar este muito poluente, mas sim por considerá-lo muito caro. Está respondido o segundo questionamento.

E em terceiro lugar, questionei o que os Estados Unidos estariam ganhando com essa proposta de redução de 30% de suas emissões de CO2 para a atmosfera. Em se tratando do maior expoente do capitalismo mundial, é óbvio que o termo "ganhar" deve ser entendido como ganho econômico, como acúmulo de riqueza e capital. Ora, um dos grandes debates atuais acerca das questões energéticas nos Estados Unidos, é a extração e a utilização do gás do xisto, apresentado como "salvador da pátria" ou "fonte energética do futuro". Porém, enfrenta severas críticas principalmente por conta de seu método de extração, chamado de crackin', que é acusado de causar a contaminação e o comprometimento das águas subterrâneas, além da emissão de gases mais nocivos ao clima que o CO2.



Disponível em: <http://fundacaoverde.org.br/wp-content/uploads/2014/01/gas_xisto4.jpg> Acesso em 24 jan. 2016

Portanto, o discurso de que estaria disposto a reduzir a dependência histórica em relação ao petróleo soa, para a opinião pública estadunidense, como uma boa vontade aparente do Estado em busca da sustentabilidade ambiental e isso poderia diminuir as críticas e cobranças hoje realizadas à extração do gás do xisto, que no final das contas é exatamente o que as grandes corporações energéticas do país, que sustentam as campanhas políticas, querem. Como disse, é bom demais para ser verdade...

Na prática, as discussões realizadas na COP-21 serviram muito mais para pavimentar os caminhos das grandes potências na recuperação econômica da crise global de 2008, do que para solucionar ou mitigar problemas de ordem ambiental do mundo. Embora houveram pontos e propostas ambientalmente interessantes que debateremos em outro momento.

Continua...



terça-feira, 24 de novembro de 2015

O DESASTRE SÓCIO-AMBIENTAL DE MARIANA - MG (parte 3)

Como dizem os mineiros: "Quando a esmola é demais, santo desconfia..."

Por Éder Israel


Disponível em: < http://content-portal.istoe.com.br/istoeimagens/imagens/mi_4752743197071956.jpg> Acesso em 23 nov. 2015


Após a tragédia (como se ela já tivesse passado...) começam as ações dos juristas, ambientalistas e “coisistas” das redes sociais. O clamor que se criou para o apontamento dos culpados e a estipulação das punições a faz com que as coisas se compliquem, pois, a pressa brasileira, faz a justiça morosa caminhar a passos largos e desconsertados de quem não tem o costume de se mover.

É preocupante, a divisão dos "justiceiros ambientalistas", em duas vertentes distintas de "debate" acerca das questões. A primeira destas vertentes, moralista, saudosa do glorioso Brasil potência econômica mundial, antes da década de 1990 (se estiver levando a sério esta ironia, pare imediatamente de ler este texto), acredita piamente que quando o Estado era o timoneiro da economia, antes, portanto, da política de privatizações do neoliberalismo, coisas do tipo não ocorriam  no país.

Há, de fato, quem atribua à privatização da Companhia Vale do Rio Doce a ocorrência do desastre de agora, como se a gestão dos riscos por parte do Estado fosse mais eficiente (ou menos ineficiente). Não me aprofundarei nessa discussão, por considerá-la por demais superficial e pueril. A outra vertente, ortodoxa,  apregoa a necessidade de se impor pesadas multas à SAMARCO, afetando o bolso dos "donos" da empresa, como se isso, por si só, resolvesse o problema. Ora, a multa seria apenas um valor financeiro, arrecadado pelo Estado, que poderia (eu disse poderia) ser direcionado para as obras necessárias à recuperação do desastre ambiental.

Acreditar que este dinheiro, em um país corrupto (desde quando espelhos compravam pau-brasil...) chegaria de fato ao vale do rio Doce, seria como acreditar que a gestão estatal da mineração traria maior controle e rigor às questões ambientais ligadas à extração de commodities. Acorda aí, José!



Atendendo ao clamor social e da mídia parcial brasileira por "justiça" (se pudesse, muita gente amarraria a SAMARCO a um poste e deixaria aos urubus...), o governo estipulou uma multa de R$ 250 milhões contra a empresa, supostamente após o inventário dos reais danos causados pelo vazamento da lama dos lagos de Fundão e Santarém. Uai (em bom mineirês), deu tempo de realizar investigações isentas e precisas acerca dos verdadeiros problemas recorrentes e dos reais custos para a reparação dos impactos? Acho que não heim... Mas enfim, a multa foi estabelecida e segundo a SAMARCO será paga; talvez...

Após a multa "aplicada" pelo governo federal (através do IBAMA), um juiz de Minas Gerais (estado mais afetado pelo "acidente") entrou com uma ação pedindo o bloqueio de aproximadamente R$ 300 milhões em dinheiro nas contas da SAMARCO, que devem ser usados (segundo palavras do magistrado) em obras de recuperação e revitalização do vale do rio Doce, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Somados, a multa e o bloqueio de contas completam uma quantia razoável, (quando se analisa apenas os valores financeiros) porém irrisória (quando se tem a mínima ideia do real impacto e se observa os custos) para a recuperação e realização de obras similares a estas pelo mundo. Caso esses recursos chegassem aos devidos locais a serem recuperados, ainda assim seria insuficiente para mitigar os impactos, o que dirá para repará-los e resolvê-los.

Este valor parece ainda mais irrisório quando se remete a outras tragédias ambientais pelo mundo, como, por exemplo, o vazamento de petróleo da plataforma da British Petroleum (BP)  em 2010, no Golfo do México. No episódio, órgãos estadunidenses multaram a companhia em aproximadamente US$ 86 bilhões, valor quase infinitamente maior que o aplicado à SAMARCO, além da obrigação, por parte da BP de realizar a "limpeza" e "despoluição" da área afetada pela mancha de óleo. Eu sei, José, são coisas diferentes e não devem ser comparadas, usei apenas como exemplo prático...




A rapidez com que o Estado necessitou dar uma resposta em forma de punição à SAMARCO, somada ao não-esforço da empresa em considerar o valor de R$ 250 milhões por demais alto, revela a possibilidade de que tais valores não sejam condizentes com a realidade dos fatos relacionados aos acontecimentos ocorridos em Mariana.

Mas enfim, é Brasil. No final de tudo a gente da um jeitinho e as coisas se ajustam.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O DESASTRE SÓCIO-AMBIENTAL DE MARIANA - MG (parte 2)

O amargo futuro do rio Doce

Por Éder Israel



Disponível em: < http://msalx.veja.abril.com.br/2015/11/09/1858/pe6Cx/alx_brasil-barragem-mariana-20151109-013_original.jpeg?1447102717 > Acesso em 13 nov. 2015

Após o rompimento das barragens e da liberação dos resíduos contaminados serra a abaixo, a gravidade se encarregou de fazer seu trabalho, arrastando tudo que havia pelo caminho em direção ao vale do rio Doce, levando para a água que abastece cidades mineiras e capixabas todo tipo de rejeito proveniente das atividades mineradoras.

Confesso que inicialmente pareceu-me apenas uma água turva e barrenta, que transbordaria as águas do rio Doce, porém após sua passagem as águas do rio voltariam a se "limpar", como ocorrem após as fortes chuvas que sujam as águas deste rio no verão mineiro. Porém, duas notícias (que não posso precisar as fontes e nem averiguar completamente suas veracidades) trouxeram um golpe seco de realidade à visão minimalista que esse desastre trouxe a muitos de nós.

A primeira notícia é na realidade um relato de um químico de que as primeiras análises da água do rio Doce após a chegada da lama da SAMARCO davam a impressão de que alguém havia jogado a tabela periódica inteira dentro do rio, tamanha a quantidade e a diversidade de elementos químicos (muitos deles contaminantes) presentes e observáveis nas amostras. Segundo dados laboratoriais foi observada na água a presença de manganês, arsênio, mercúrio, alumínio, ferro, chumbo, boro, bário, cobre, dentre outros materiais contaminantes.

A segunda notícia, ainda mais alarmante partiu da SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Governador Valadares - MG), que atestou que nas amostras avaliadas pelos seus laboratórios, havia na água contaminada pela lama da SAMARCO uma quantidade de metais muito superior ao aceitável pela Organização Mundial de Saúde - OMS e por outros órgãos internacionais. Segundo esta avaliação, havia uma quantidade de ferro 1.366.666% acima do normal; já o manganês, material tóxico, estava 118.000% acima do normal; o alumínio encontrava-se 645.000% além dos valores toleráveis, além dos demais materiais ali presentes.

A tabela a seguir, divulgada pela prefeitura de Governador Valadares, se refere aos valores observados para alguns destes materiais presentes na água no dia 11 de novembro, seis dias após o vazamento.



Fonte: < http://img.r7.com/images/2015/11/11...> Acesso em 15 nov. 2015

A torrente de lama que chegou à calha do rio Doce pode ser responsável pelo maior desastre ambiental da história do Brasil, sob o risco de dizimar toda a fauna e flora aquática e ribeirinha do rio. A mortandade de peixes observada assusta, embora as autoridades que deveriam se atentar ao problema se mostram incapazes de esboçar qualquer tipo de reação efetiva, o que na verdade é típico do Brasil, onde as questões urgentes são sempre suprimidas por algum acontecimento de grande magnitude e mais recente que se observa.



Disponível em:< http://s2.glbimg.com/vC4KqkJkElWMdSCRjQ_WmAA3lwg=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2015/11/13/rio_doce.jpg> Acesso em 15 nov. 2015

Um dos grandes questionamentos que deveria estar sendo feito agora se refere às perspectivas futuras para o rio Doce e sua população, pois caminhamos de fato para um impacto ambiental irreversível, uma vez que espécies endêmicas pode ter sido simplesmente varridas pela onda de poluição e rejeitos que por ali passou. Além disso, há o problema das famílias, não só aquelas que perderam tudo com a passagem da lama, mas sim e principalmente aquelas que dependem do rio como forma de sustento. De onde estes pescadores irão garantir a realização de sua atividade profissional? Há um plano emergencial para esta situação? Ou os governos federal e estadual também vivem naquele misto de "se eu não fizer outro fará" e "se nunca aconteceu, por que aconteceria agora?"...

O grande fotógrafo de Minas, Sebastião Salgado deu essa semana uma entrevista contundente, em defesa de Minas Gerais, dos mineiros e principalmente do rio Doce, enfatizando a ideia central de sua fala sobre o desastre ambiental no referido rio, afirmando veementemente que "vamos recuperá-lo!". Admiro muito Sebastião Salgado, sou fã incondicional de sua fotografia e de sua 'mineirice' desmedida, mas discordo dele em 2 pontos básicos. Em primeiro lugar, por quê NÓS vamos recuperar o rio Doce? Em segundo lugar, a preocupação de enfatizar que a VALE estaria disposta a patrocinar um fundo de recuperação das nascentes da bacia do rio Doce, que sofre há décadas com o desmatamento e demais atividades antrópicas.

Ora, parece-me pouco efetivo em uma situação de emergência e catástrofe no médio e baixo curso do rio, que as ações e planos de mitigação de problemas se refiram ao alto curso e às nascentes do mesmo, embora saiba e admita a necessidade destas ações, parece-me pouco eficaz resolver os problemas de Mariana investindo na nascente do rio no município de Ressaquinha, na Serra da Mantiqueira. Mas enfim, é só uma opinião...

Finalizo, por hora, com uma frase que tenho repetido seguidas vezes nos últimos anos, seguida de sua rápida explicação, para que não hajam falsas e tendenciosas interpretações. Tenho dito que "o grande problema do Brasil tem sido o brasileiro", e explico! Não por qualquer desvio de caráter, índole, má fé ou qualquer outro defeito pejorativo, mas sim pela capacidade que temos de nos adaptar e nos virar em quaisquer situações, dando sempre um jeito de "consertar" as coisas que nos são entregues erradas. Isso traz para nós uma acomodação, e uma incapacidade de cobrança, que nos torna capazes de dar um jeitinho para tudo que não está certo, ao invés de exigir que seja feito e nos entregue do modo correto.

Criamos uma capacidade enorme de dizer "vamos recuperá-lo", quando deveríamos dizer "vocês serão responsabilizados"...

Continua...