domingo, 22 de agosto de 2021

CORREÇÃO COMENTADA DE GEOGRAFIA PRIMEIRA FASE - UFU 2021/2 (TODAS AS CARREIRAS EXCETO MEDICINA)

 

Questão 25

"Na nova onda de violência que atinge Israel e a Faixa de Gaza, uma lógica permanece inalterada: o conflito, não resolvido entre judeus e árabes, que tem arruinado e acabado com a vida de palestinos e de israelenses por gerações.

E uma ferida aberta no coração do Oriente Médio e o fato de o conflito ter desaparecido das manchetes internacionais nos últimos anos não significa que ele tenha acabado. Os problemas não mudam, nem o ódio nem a amargura que atravessam não apenas anos, mas gerações". 

BOWEN, Jeremy. Jerusalém e Gaza: por que a nova onda de violência era inevitável". BBC News, de 12 de maio de 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57085173>. Acesso em: 14 maio 2021. 

Sobre aspectos e conflitos entre judeus e árabes que envolvem de modo particular a cidade de Jerusalém, analise as afirmativas.

I. Em 1948, após ofensivas militares de nações árabes, devido à criação do Estado de Israel (Primeira Guerra Árabe-Israelense), a cidade de Jerusalém (Oriental e Ocidental) ficou totalmente sob controle dos palestinos.

II. Israel assumiu o controle de Jerusalém Oriental somente no ano de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias (ou Terceira Guerra Árabe-Israelense).

III. Dentre as características que estimulam tensões em Jerusalém, destaca-se que a cidade possui importância para judeus e muçulmanos, sendo encontrados bairros e pontos sagrados apenas das duas religiões (judaísmo e islamismo).

IV. Na cidade velha (Jerusalém Oriental). estão localizados lugares importantes para os judeus, por exemplo, o Muro das Lamentações, e para os muçulmanos, a mesquita Al-Aqsa.

Assinale a alternativa que apresenta as afirmativas corretas.

a) Apenas I, II e IV.

b) Apenas II e IV.

c) Apenas I, III.

d) Apenas II, III e IV.

Resposta: B

Comentário

A região dos Territórios Palestinos se configura há décadas como uma das mais conflituosas dentro do Oriente Médio, principalmente após a partilha daquelas terras em 1947 pela Organização das Nações Unidas – ONU, o que deu origem a um Estado judeu encrustado numa região predominantemente árabe. Após a criação do Estado de Israel os judeus iniciaram um processo de expansionismo territorial sobre áreas que haviam sido destinadas aos povos palestinos, ampliando sobremaneira as tensões entre o governo judeu e os governos dos países árabes vizinhos, bem como grupos armados desses territórios, que nunca aceitaram a partilha dos territórios pela ONU após a Segunda Guerra Mundial, e muito menos as políticas expansionistas israelenses no presente. Desse modo, questões territoriais se fundem às divergências religiosas entre os povos e a violência se torna uma rotina cotidiana nessa região.

Correção

I. Incorreto, pois após a Primeira Guerra Árabe-Israelense de 1948 a cidade sagrada de Jerusalém foi dividida em duas zonas de controle e influência, sendo a sua parte Ocidental controlada pelos judeus de Israel, enquanto a porção Oriental ficou sob controle dos muçulmanos e cristãos palestinos, embora essa divisão nunca tenha sido de fato concretizada ou plenamente respeitada por ambos os lados.

II. Correto, pois após a Guerra dos Seis Dias em 1967 o Estado de Israel anexou importantes territórios, tanto nas áreas palestinas da Cisjordânia e Faixa de Gaza, como também porções nos territórios egípcios e libaneses, onde áreas estratégicas foram incorporadas e originaram animosidades e conflitos que perduram até os dias atuais.

III. Incorreto, pois a cidade de Jerusalém é considerada sagrada para as três religiões monoteístas do mundo, sendo um lugar de interesse de judeus, muçulmanos e cristãos que vivem nessa região, embora a maior parte das disputas que ocorrem ali envolvam diretamente os seguidores do judaísmo em Israel e aqueles que profetizam a fé islâmica nos Territórios Palestinos e países vizinhos.

IV. Correto, pois embora tenha ocorrido a divisão da cidade Jerusalém em 1948 entre judeus e muçulmanos, as disputas pela porção Oriental da cidade nunca cessaram, posto que para os árabes palestinos essa porção territorial é sagrada por abrigar a mesquita de Al-Aqsa, um símbolo “menos importante” apenas que Meca e Medina; ao passo que para os judeus de Israel o lugar também desperta muito interesse, por abrigar o Muro das Lamentações, “menos importante” apenas que o Monte do Templo.

Questão 26

Observe as pirâmides etárias do Brasil dos anos 2020 e 2060.

Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/index.html>. Acesso em: 10 maio 2021.

Com base na projeção realizada pelo IBGE, demonstrada comparativamente nas pirâmides etárias dos anos 2020 e 2060, assinale a alternativa INCORRETA.

a) A comparação entre as duas pirâmides indica tendência de envelhecimento da população brasileira.

b) A tendência no Brasil é o aumento da taxa de natalidade e a diminuição da taxa de mortalidade.

c) O "achatamento” da pirâmide etária até 2060 está relacionado à queda da taxa de natalidade e à redução da taxa de mortalidade.

d) A comparação entre as pirâmides etárias demonstra tendência de maior "homogeneidade" entre as faixas etárias da população brasileira.

Resposta: B

Comentário

As pirâmides etárias representam graficamente a estrutura da população de uma determinada localidade, dividindo-a horizontalmente segundo as faixas de idade, sendo a base composta por crianças e jovens, o meio composto pela população adulta e o topo representativo da população idosa. Verticalmente a pirâmide divide a população entre os gêneros masculino e feminino. Desse modo, ao se analisar a estrutura etária de uma nação pode-se ter uma ideia clara de suas feições sociais e econômicas, permitindo compreender o contexto presente na pirâmide, bem como deduzir o contexto histórico anterior a ela e ainda projetar o contexto futuro a essa pirâmide. Na maioria das análises etárias a observação dos grupos da base e do topo dos gráficos traz as mais importantes conclusões sobre a realidade socioeconômica da localidade em questão, posto que bases largas indicam populações jovens, que demandam grandes investimentos com saúde preventiva e educação básica, ao passo que topos mais alargados indicam populações envelhecidas, que demandam grandes investimentos em saúde paliativa e aposentadoria.  

Correção

a) Correto, pois ao se comparar as pirâmides brasileiras dos anos de 2020 e 2060, apresentadas pela questão nota-se uma mudança significativa em seu arranjo estrutural, por conta do estreitamento da base, que indica diminuição da população jovem, e alargamento do topo, o que indica aumento da proporção de idosos e o consequente envelhecimento etário da população.

b) Incorreto, pois a mudanças entre as duas pirâmides mostra que o estreitamento da base representa a redução das taxas de natalidade e de fecundidade da população, diminuindo a quantidade de crianças e jovens em sua composição, ao passo que o alargamento do topo indica a ampliação da população idosa, resultante de melhorias nas condições de vida e redução da taxa de mortalidade.

c) Correto, pois o “achatamento” da pirâmide brasileira se refere ao fato de que sua estrutura visual assume um aspecto mais próximo a um retângulo, com os grupos etários apresentando proporções parecidas, em detrimento do seu estágio inicial, quando sua estrutura geométrica era um triângulo quase perfeito.

d) Correto, pois a transição estrutural da pirâmide, passando de um aspecto quase triangular para um formato quase retangular indica que a população jovem, que era predominante anteriormente, foi reduzida, ao passo que a população idosa, que era anteriormente quase irrisória, foi ampliada, “homogeneizando” numericamente esses grupos etários.

Questão 27

Disponível em: <http://www.arionaurocartuns.com.br/2016/06/charge-desigualdade-social.htmi. Acesso em: 15 maio 2021

A respeito dos problemas sociais urbanos no Brasil, considere as afirmativas.

I. Dentre os problemas sociais urbanos encontrados em grandes cidades, podem-se apontar déficit habitacional, segregação socioespacial e deficiências relacionadas à mobilidade.

II. A infraestrutura das áreas centrais e dos bairros nobres eleva o "preço do solo", o que contribui para "expulsão" da população de baixa renda para a periferia das grandes cidades.

III. As áreas centrais das grandes cidades costumam ser pouco aproveitadas devido ao processo de horizontalização, restando somente espaços longínquos para a população de baixa renda.

IV. A especulação imobiliária contribui pouco para a segregação socioespacial nas grandes cidades, visto que o "preço do solo" é baixo nos espaços ocupados pela população de baixa renda.

V. O déficit habitacional refere-se exclusivamente à ausência de moradia nos centros das grandes cidades, evidenciado pelas poucas residências nas porções centrais.

Assinale a alternativa que apresenta as afirmativas corretas.

a) Apenas I e II.

b) Apenas II, IV e V.

c) Apenas Ill e V.

d) Apenas I, III e IV.

Resposta: A

Comentário

O processo de urbanização acompanha de modo próximo a modernização produtiva no campo e o desenvolvimento industrial das nações, sendo esses dois agentes os maiores responsáveis pelo deslocamento das populações das zonas rurais para os espaços urbanos. Entende-se por urbanização o estágio demográfico em que as populações nas cidades crescem de maneira mais acentuada de que a população total de um dado país. Desse modo, depende muito mais dos processos migratórios (êxodo rural) do que do crescimento vegetativo (natalidade e mortalidade). Nos países menos desenvolvidos esse processo se deu de maneira espontânea (não planejada) e acelerada (ao mesmo tempo se deslocavam para as cidades as pessoas atraídas pelas indústrias e aquelas expulsas pela modernização do campo). Assim, essa ausência de planejamento e essa rapidez no fluxo migratório fizeram com que os espaços urbanizados se mostrassem incapazes de oferecer qualidade de vida para as populações ali residentes, ampliando os quadros de desigualdade entre os grupos sociais.

Correção

I. Correto, pois a ineficiência no planejamento urbano promove o surgimento de problemas socioeconômicos, tais como a falta de moradia para parcelas das populações mais pobres, seja pelo baixo número de habitações construídas ou pela falta de dinheiro dessas pessoas para adquirir suas casas, segregando-as não só do espaço urbano privilegiado, mas também da vida social nas cidades. Estruturas essenciais, como saneamento básico e sistemas de transportes, também se mostram ineficientes e insuficientes nessas localidades.

II. Correto, pois a oferta de bens e serviços nas porções centrais das cidades, consideradas mais nobres, eleva o grau de atratividade desses espaços, tornando-as inacessíveis para as populações de mais baixa renda, que passam a ser segregadas para as zonas mais periféricas e inapropriadas, seja através da especulação imobiliária ou da gentrificação.

III. Incorreto, pois as porções centrais das grandes cidades concentram a maioria dos serviços e vantagens urbanas à população residente, tornando-se com isso muito valorizadas e intensamente ocupadas/aproveitadas, o que se materializa na verticalização do espaço para que haja o máximo aproveitamento por metro quadrado nesses locais.

IV. Incorreto, pois a especulação imobiliária e a gentrificação encontram-se na raiz da maior parte dos problemas relacionados à segregação socioespacial das áreas urbanas, uma vez que elevam os valores do espaço, tornando-o inacessível à parcela mais pobre da população. Embora seja um problema inicialmente latente nas porções centrais, com a desconcentração urbana contemporânea ambos são crescentemente recorrentes nas porções periféricas, muitas vezes rebatizadas de “subcentro”.

V. Incorreto, pois o déficit habitacional atinge não apenas as porções centrais das áreas urbanas, mas também, e de modo crescente as porções periféricas. Esse problema urbano pode se dar de modo quantitativo, quando o número de residências é inferior à população que as demande, ou qualitativo, quando apesar de existirem residências disponíveis elas estão financeiramente inacessíveis às populações de mais baixa renda.

Questão 28

A respeito das grandes bacias hidrográficas brasileiras, assinale a alternativa INCORRETA.

a) A Bacia Hidrográfica do Parnaíba compreende porções territoriais de três unidades da federação da Região Nordeste do Brasil, sendo seu rio principal, caracterizado por uma boa condição de navegabilidade.

b) A Bacia Hidrográfica do Tocantins-Araguaia, situada em áreas das Regiões Centro-Oeste e Norte, é a maior do Brasil, ao se considerarem apenas as bacias hidrográficas exclusivamente brasileiras, cujo potencial hidrelétrico significativo pode ser apontado, por exemplo, no Rio Tocantins, onde está situada a Usina Hidrelétrica de Tucuruí.

c) A Bacia Hidrográfica do Paraná, situada integralmente no território brasileiro, possui grande potencial hidrelétrico, evidenciado pela presença de usinas hidrelétricas de grande porte nos rios Paranaíba, Grande e Paraná.

d) A Bacia Hidrográfica do São Francisco está inserida nas Regiões Sudeste e Nordeste do Brasil, onde se encontram porções de agricultura irrigada e trechos navegáveis no rio São Francisco.

Resposta: C

Comentário

A vasta extensão territorial combinada com a posição latitudinal do Brasil, predominantemente na faixa intertropical (quente e úmida) permitem ao país uma grande riqueza em recursos naturais, em especial para aqueles ligados à água doce. Desse modo existem múltiplas bacias hidrográficas em nosso território, com destaque para aquelas consideradas perenes, posto que as constantes chuvas garantam o abastecimento desses cursos ao longo do ano. Economicamente esse benefício também se torna uma importante vantagem para a nação, pois em nosso relevo se destacam grandes áreas de planícies, onde os rios meandrantes e de águas mais lentas apresentam elevado potencial hidroviário (transporte), e vastas áreas de planaltos, onde os rios retilíneos e de águas rápidas apresentam elevado potencial hidráulico (geração de energia). Há de se destacar que muito desse potencial ainda hoje é considerado inventariado (disponível), mas não instalado (em uso).  

Correção

a) Correto, pois a Bacia do Parnaíba encontra-se inserida na região Nordeste do Brasil, circunscrita a espaços nos estados do Maranhão, Piauí e Ceará. O rio principal, que dá nome à bacia, atravessa regiões de relevos aplainados, apresentando assim grande condição de navegabilidade. Cabe destacar que o Rio Parnaíba é o maior rio essencialmente nordestino.

b) Correto, pois a Bacia do Tocantins-Araguaia se estende pelos estados de TO, GO, MT, PA, e MA, sendo considerada a maior bacia hidrográfica inteiramente brasileira. Apresenta dois rios principais, que dão nome à bacia, sendo que no Rio Araguaia existe um bom potencial hidroviário, ao passo que no Rio Tocantins existe um elevado potencial hidráulico, cujo aproveitamento mais destacado é na usina hidrelétrica e Tucuruí, que fornece energia para o projeto minerador da Serra dos Carajás (PA).

c) Incorreto, pois a Bacia do Paraná, que recobre grandes extensões na porção Centro-Sul do Brasil, nos estados MG, SP, GO, MS, PR, SC e RS, avança também para outros países, abrangendo áreas da Argentina, do Paraguai e do Uruguai. É a segunda maior bacia hidrográfica da América do Sul, e no território brasileiro apresenta o maior potencial hidráulico instalado, com destaque para a usina hidrelétrica binacional de Itaipu.

d) Correto, pois a Bacia do São Francisco nasce no interior de Minas Gerais, na região do clima Tropical Semiúmido e avança na direção do Nordeste, atravessando grandes áreas do clima Tropical Semiárido, sendo um importante rio perene dessa região seca.  Na divisa entre Sudeste e Nordeste o rio principal apresenta grande potencial hidroviário (hoje comprometido pelo assoreamento) e na porção semiárida sustenta importantes projetos de fruticultura irrigada, instalados às suas margens.

Questão 29

Considere a charge abaixo.

Disponível em: <http://www.arionaurocartuns.com.br/search?q=agrot%C3%B3xicos>. Acesso em: 15 maio 2021.

A charge acima é uma crítica a uma revolução iniciada na década 1960, ocorrida no setor primário da economia brasileira, que proporcionou expansão na produção de alimentos, sobretudo para abastecimento crescente população urbana. Essa revolução é marcada pela introdução de inovações tecnológicas, como a utilização de maquinários agrícolas, sementes alteradas geneticamente, agrotóxicos e fertilizantes.

Assinale a alternativa que indica corretamente o termo utilizado para se referir à revolução descrita.

a) Revolução dos Agrotóxicos.

b) Revolução Agrícola.

c) Revolução Rururbana.

d) Revolução Verde.

Resposta: D

Comentário

Durante o século XX a ciência e os processos produtivos associados ao modelo capitalista passaram por grandes saltos evolutivos e modernizaram fortemente as sociedades, principalmente após a Segunda Guerra Mundial. Indústria e agropecuária foram setores amplamente beneficiados por esse contexto, tendo assistido à elevação de suas capacidades produtivas e consequentemente suas lucratividades. Na agricultura o impacto se deu através do desenvolvimento da biotecnologia e do direcionamento de avanços industriais para o campo, com destaque para a mecanização. Esse processo de “industrialização do campo” deu origem ao que se convencionou a chamar de agronegócio. Porém, apesar dos inegáveis benefícios trazidos para os setores produtivos rurais, problemas socioambientais também se multiplicaram nesse contexto, e as desigualdades latentes nas sociedades urbanas capitalistas e degradações ambientais antes restritas às cidades se materializaram também no campo.

Correção

a) Incorreto, pois embora a modernização agrícola do pós-Segunda Guerra Mundial tenha trazido a ampliação do uso e da eficiência dos agrotóxicos e pesticidas, essa evolução não foi por si só uma revolução, mas sim um melhoramento de algo preexistente.

b) Incorreto, pois embora tenha de fato se concretizado como uma revolução agrícola, essa modernização não abrange apenas a esse segmento produtivo, tendo também impactado na pecuária e outros setores do campo. Convenciona-se chamar de Revolução Agrícola aquele processo que foi observado no Período Neolítico, quando as sociedades passaram do nomadismo para o sedentarismo.

c) Incorreto, pois embora a modernização do campo tenha impactado diretamente no espaço urbano, não se pode considerar que a evolução dos dois espaços geográficos tenha se dado a partir de um só processo. Na verdade, havia uma revolução acontecendo nas atividades produtivas rurais, ao mesmo tempo em que outra acontecia nas atividades produtivas urbanas, e apenas os seus resultados se integravam e se complementavam.

d) Correto, pois a partir da década de 1950 nos Estados Unidos, e da década de 1960 no Brasil, um conjunto de inovações, técnicas e tecnologias produtivas são implementadas nas atividades agrícolas e pecuárias, em prol da maximização da produtividade e da lucratividade dos processos. Esse período passa a ser conhecido como Revolução Verde ou Segunda Revolução Agrícola.

Questão 30

Mapas são representações da superfície terrestre, compostos de elementos tais como: título, escala cartográfica, orientação e legenda. A respeito das escalas dos mapas, analise as afirmativas abaixo.

I. A escala cartográfica corresponde a uma relação de proporção entre a área real e a área representada no mapa.

II. Mapas de pequena escala (ex.: 1:1.000.000) exibem uma área maior e com menos detalhes da área mapeada.

III. Mapas de grande escala (ex.: 1:10.000) apresentam uma área maior e com mais detalhes da área mapeada.

IV. A escala de 1:100.000 é menor que a escala de 1:500.000.

Assinale a alternativa que apresenta as afirmativas corretas.

a) Apenas I e III.

b) Apenas II e IV

c) Apenas I e II.

d) Apenas III e IV

Resposta: C

Comentário

A representação do espaço geográfico em um mapa exige uma série de adequações para que se possa de modo eficiente criar um documento cartográfico viável e principalmente possa-se utilizá-lo de maneira eficiente e proveitosa para os fins a que ele se destina. Para que tal documento tenha uma validade significativa ao usuário são criados signos e simbologias, conhecidas como Convenções Cartográficas, das quais se destacam a escala, que cria uma proporcionalidade entre o espaço real e aquele visto no papel em que o mapa foi elaborado, a orientação geográfica, que seria a indicação dos pontos cardeais e colaterais da área mapeada, a legenda dos dados, que permite inserção de diferentes variáveis em um mesmo mapa sem que elas se confundam e o título, que indica qual a temática abordada pelo mapa elaborado, dentre muitas outras convenções.

Correção

I. Correto, pois a escala corresponde a um valor fracionário, em que o numerador (geralmente 1) representa um valor de distância medida no mapa, e o denominador representa um valor de distância medida na realidade que foi mapeada. Na escala numérica, tanto a distância no mapa (d) quanto a distância na realidade (D) são quantificados em centímetros.

II. Correto, pois como se trata de uma fração, quanto maior for o denominador menor será o valor final da escala. O tamanho da escala é fundamental para se definir a dimensão da área que será representada pelo mapa, bem como a riqueza de detalhes por ele apresentada. Desse modo, em escalas grandes as áreas serão pequenas e os detalhes serão muitos; ao passo que em escalas pequenas as áreas serão grandes e os detalhes serão poucos.

III. Incorreto, pois em mapas de escalas grandes as áreas representadas serão sempre pequenas, uma vez que haverá pouca redução da realidade para que ela caiba no papel onde se busca representá-la. Porém, essa pequena área mapeada apresentará grande riqueza de detalhes.

IV. Incorreto, pois em números fracionários, como aqueles usados para apresentar as escalas dos mapas, os valores mostrados nos denominadores serão sempre inversamente proporcionais ao tamanho final da escala. Assim, 1:100.000 será uma escala cinco vezes maior que uma outra de 1:500.000.

Questão 31

No território brasileiro, predominam estruturas geológicas originadas nos Éons Arqueano, Proterozoico e nas Eras Paleozoica e Mesozoica do Éon Fanerozoico.

A respeito das estruturas geológicas presentes no território brasileiro, assinale a alternativa correta.

a) As grandes bacias sedimentares do Brasil foram originadas nas Eras Paleozoica e Mesozoica do Éon Fanerozoico. Um exemplo é a Bacia Sedimentar do Paraná.

b) Todas as bacias sedimentares brasileiras formaram-se no Éon Proterozoico. Um exemplo é a Bacia Sedimentar Amazônica.

c) As faixas móveis constituem porções que sofreram fortes movimentações tectônicas durante a era Paleozoica do Éon Fanerozoico. Um exemplo é Faixa Brasília.

d) Os crátons são terrenos geologicamente instáveis na atualidade, formados no Éon Fanerozoico. Um exemplo no Brasil é o Cráton do São Francisco.

Resposta: A

Comentário

A estrutura geológica do território brasileiro é marcada por macroformas predominantemente antigas, sendo representadas por Escudos Cristalinos ou Crátons, que recobrem cerca de 36% de nosso território emerso, e por Bacias Sedimentares ou Coberturas Fanerozóicas, que recobrem os 64% restantes de nosso espaço territorial. Já os Dobramentos Modernos não ocorrem em nosso território em decorrência de nossa posição geográfica no interior da Placa Sul-americana, o que determina uma situação de estabilidade tectônica ao Brasil. De modo geral os Escudos Cristalinos brasileiros foram originados ainda nas eras Pré Cambriana e Proterozoica, ao passo que as Bacias Sedimentares datam principalmente das eras Paleozoica, Mesozoica e Cenozoica.

Correção

a) Correto, pois as Bacias Sedimentares são posteriores aos Escudos Cristalinos, uma vez que se originam a partir do desgaste e destruição dessas estruturas mais antigas, fruto da ação das forças exógenas que atuam sobre a crosta. No caso brasileiro as principais bacias datam das eras Paleozoica e Mesozoica, no período que se estende de 540 a 70 milhões de anos atrás.

b) Incorreto, pois o Proterozoico marca a origem das primeiras formas de vida na Terra, ao passo que as Bacias Sedimentares, como a Amazônica e a do Paraná, duas das mais importantes do Brasil, começam a se formar após esse período, durante a era Paleozoica.

c) Incorreto, pois a formação de faixas móveis, que correspondem às bordas de antigos Escudos Cristalinos que interagiram entre si, como no caso da formação da Faixa Brasília, que se deu durante o Proterozoico, inserido no período anterior a 540 milhões de anos atrás, e não no Fanerozoico que começa a partir dos 540 milhões de anos atrás.

d) Incorreto, pois os Crátons ou Escudos Cristalinos são estruturas geológicas muito antigas e estáveis da superfície terrestre, tendo sido formados ainda durante a gênese da crosta, há cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, no período do Pré-Cambriano. As áreas mais instáveis do planeta no presente são estruturas mais jovens, e geralmente localizadas nas bordas das placas tectônicas.

Questão 32

Sobre os impactos ambientais relacionados à extração, à transformação, ao consumo e ao descarte de recursos naturais, cujos problemas foram intensificados a partir da segunda metade do século XX, e considerando-se as discussões e as decisões da Conferência de Estocolmo (1972), assinale a alternativa correta.

a) As relações hegemônicas de produção e de consumo desencadeiam intensa exploração de recursos naturais, cujas consequências ao meio ambiente podem ser mitigadas apenas pela adoção de novas tecnologias, ainda que se mantenham políticas de incentivo ao crescimento econômico.

b) Em âmbito global, podemos exemplificar, como impactos ambientais decorrentes das atividades industriais nas últimas décadas, o aquecimento global (efeito estufa), as chuvas ácidas e a ocorrência de movimentos de massa.

c) Na Conferência de Estocolmo (1972), os países em desenvolvimento defenderam a redução do ritmo de industrialização de todos os países. Por sua vez, os países desenvolvidos não se comprometeram a reduzir as emissões de poluentes.

d) As concepções abordadas na Conferência organizada pelas Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em Estocolmo (Suécia), no ano de 1972. contribuíram para anos mais tarde, ser formulado o conceito de desenvolvimento sustentável.

Resposta: D

Comentário

A evolução das sociedades e o desenvolvimento das economias nacionais impuseram a necessidade de ampliação do consumo dos recursos naturais e a sua conversão em bens de consumo pelas atividades industriais, bem como a potencialização da degradação ambiental decorrente das atividades agrícolas e principalmente do descarte dos efluentes das atividades produtivas. De modo diretamente proporcional o capitalismo moderno trouxe mudanças e modificações nas dinâmicas naturais do mundo, e muitas vezes a própria sociedade sofre os impactos dessas modificações, como por exemplo no atual quadro das mudanças climáticas (Aquecimento Global). Embora pouco se tenha avançado de fato, nas tentativas de se buscar um equilíbrio entre as atividades humanas e a conservação do ambiente natural, os debates acerca desse tema ocorrem há muito tempo, tendo como marco histórico inicial a Conferência de Estocolmo de 1972, onde muito se discutiu a respeito da interação entre o homem e a natureza, mas pouco se avançou, em decorrência das intenções e projetos antagônicos apresentados à época por nações desenvolvidas e em desenvolvimento.

Correção

a) Incorreto, pois o simples emprego de tecnologias produtivas pelas sociedades contemporâneas não é capaz de mitigar ou controlar as consequências das ações antrópicas sobre o meio ambiente. Na realidade o uso de tecnologias modernas no presente tem mais ampliado os impactos do que controlado os mesmos. Mais importante do que esse avanço tecnológico seria uma mudança cultural e social, superando o atual estilo de vida consumista e excessivamente dependente dos recursos naturais.

b) Incorreto, pois embora haja uma relação direta entre a produção industrial das nações e o quadro atual de mudanças climáticas, representado pelo Aquecimento Global e as chuvas ácidas, não há relação direta entre essa atividade e os movimentos de massa (deslizamentos de terra), uma vez que esses se encontram diretamente associados ao desmatamento e à ocupação de encostas íngremes nas áreas urbanas.

c) Incorreto, pois durante a Conferência de Estocolmo foram formados dois grupos de nações com interesses distintos e conflitantes, tendo por um lado os países mais desenvolvidos que defendiam a redução do ritmo de industrialização e consumo dos recursos, os quais foram chamados de “zeristas” e pelo outro os países em desenvolvimento, que defendiam a manutenção do ritmo de seu processo de industrialização e a redução apenas no ritmo das potências mundiais, os quais foram chamados de “desenvolvimentistas”.

d) correto, pois embora durante a Conferência de Estocolmo pouco se tenha avançado de modo prático nos debates acerca de sociedade e recursos naturais, muitas ideias foram ali propostas e serviram de sustentação para discussões futuras, como por exemplo o ideário acerca da finitude dos recursos e a necessidade de se buscar um modelo sustentável de sociedade, debatido na Conferência ECO-92 no Rio de Janeiro, 20 anos depois.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

GRUPO TALIBÃ (parte 2)

 

O GOVERNO E A QUEDA DO TALIBÃ NO AFEGANISTÃO


Prof. Éder Israel

 Em 11 de setembro de 2001 os Estados Unidos são atacados pelo grupo Al Qaeda, comandado por Osama Bin Laden

Disponível em: <https://www.snopes.com/fact-check/wtc-terrorism-insurance/> acesso em 17 ago. 2021

Compreendida a formação e ascensão do grupo Talibã no Afeganistão faz-se necessário agora o entendimento do modo como os radicais comandaram o país árabe durante os 5 anos em que permaneceram de fato no poder. É também importante que se esclareça o conjunto de fatores que culminariam na perda de seu controle da nação em 2001, e principalmente como os combatentes permaneceram ativos e atuantes nos bastidores, à espreita para reassumir o controle da nação na primeira oportunidade que aparecesse.

O Talibã seguiu à risca seu projeto inicial de implantar no Afeganistão um regime político centrando na interpretação radical das escrituras sagradas para os islâmicos, suprimindo direitos essenciais de grande parte de sua população e perseguindo minorias e grupos que se posicionassem contrariamente à sua doutrina. Isso trouxe um grande isolamento geopolítico à nação e acentuou sobremaneira as mazelas socioeconômicas que já impactavam pesadamente sobre a população.

Internamente o grupo impôs um regime teocrático radical à população, criticado e contestado por nações e organizações internacionais, no qual a violação dos direitos humanos era marcante e latente, com destaque para o cerceamento das liberdades individuais das populações femininas, proibidas de frequentar estabelecimentos de ensino e de ocupar postos no mercado de trabalho, sejam nos setores púbicos ou privados. Até mesmo a saída das mulheres de suas casas era condicionada ao fato de estarem acompanhadas de algum membro da família, do sexo masculino.

A “desocidentalização” do país teve ainda ações para a eliminação de aspectos culturais, que segundo os radicais talibãs estariam contra os preceitos estabelecidos pela Sharia. Nesse processo grandes patrimônios culturais da humanidade, como muitas bibliotecas lotadas de obras seculares que foram incendiadas e até mesmo representações religiosas de outras culturas, como as seculares estátuas de Buda presentes no país, que foram implodidas, sob a acusação de atentarem contra a fé islâmica. As perdas culturais, históricas, sociais, políticas e econômicas do período de governo do Talibã são irreparáveis ao Afeganistão e ao povo afegão.

Nesse período houve aproximação entre o grupo radical e outros representantes dessa visão extremista das escrituras sagradas islâmicas, com destaque para Osama Bin Laden e sua organização terrorista, conhecida como Al Qaeda, que tinha em comum com as lideranças talibãs o revanchismo contra o mundo ocidental, acusado de usurpar os recursos naturais e minar os traços culturais do Mundo Árabe. Esse discurso de ódio às culturas ocidentais se concentrava contra a representação geopolítica dos Estados Unidos, grande potência econômica do contexto e grande interessado no petróleo dos países árabes. Destruir a hegemonia estadunidense seria então o grande projeto da Al Qaeda, agora apoiado também pelo Talibã.

Osama Bin Laden, líder do grupo Al Qaeda se torna o principal inimigo dos Estados Unidos, após os atentados de 2001

Disponível em: <https://sicnoticias.pt/mundo/2017-01-20-Bin-Laden-estava-preocupado-com-envelhecimento-da-Al-Qaeda-antes-de-ser-abatido> acesso em 17 ago. 2021

Em setembro de 2001 o grupo comandado por Bin Laden realiza o mais icônico atentado terrorista da era moderna, atacando alvos estratégicos nos Estados Unidos como aviões lotados de civis, em sua maioria estadunidenses. Naquele ato o objetivo principal era mostrar ao mundo as fragilidades da maior potência mundial, atacando seu poderio econômico, representado pelas torres gêmeas do World Trade Center; seu poderio político, representado pela Casa Branca; e seu poderio militar, representado pela sede do Pentágono. Após os ataques o governo dos Estados Unidos rapidamente encontra ligações entre o grupo Al Qaeda e o Talibã, que governava o Afeganistão, acusando o grupo radical afegão de oferecer refúgio a Osama Bin Laden e a lideranças de sua organização do grupo, além de apoiar à realização dos atentados.

Desse modo, ainda em 2001, os Estados Unidos lançam uma grande ofensiva militar em resposta aos atentados, globalmente conhecida como Guerra ao Terror, que na prática materializa a nova política externa estadunidense para o século XXI, que ficaria conhecida como Doutrina Bush. Naquele ano o Afeganistão é invadido por tropas da colisão liderada pela potência americana, e rapidamente sua superioridade bélica permite a derrubada do Talibã do poder no país árabe, aparentemente pondo fim à era de extremismo e violência que marcou o regime ali implantado.

Porém, após a derrubada do regime extremista os Estados Unidos permaneceram no Afeganistão, seja através de seu efetivo militar que ali se manteve sob a justificativa de garantir a paz e a segurança da população, ou mesmo (e principalmente) pela influência política, posto que sob o discurso de criar um governo de coalizão nacional, com representatividade dos grupos étnicos afegãos, Hamid Karzai foi apoiado pelos Estados Unidos e assumiu a presidência ainda em 2001, tendo permanecido no poder até 2014. Enquanto Karzai esteve no poder os Estados Unidos tiveram sua presença e influência direta garantidas no Afeganistão, aumentando a dependência da nação asiática em relação à potência ocidental.

De fato, o Afeganistão é um país icônico na geopolítica mundial há vários séculos. Não por acaso vários impérios e potências econômicas tentaram dominar essa nação do Oriente Médio, que não possui grandes reservas de petróleo como seus vizinhos, não detém solos agricultáveis de excelente fertilidade e nem possui vastas jazidas mineralógicas... Em suma o Afeganistão é um país de relevo montanhoso, sem saída para o oceano e com grande parte de seu espaço inserido em zonas desérticas. Mas a despeito de todos esses fatores complicadores, o país possui uma posição geográfica estratégica, encrustado bem no centro do continente e em uma região de intensos conflitos. Poderíamos dizer que dominar o Afeganistão seria como ter um escritório administrativo em uma zona em que qualquer instabilidade afeta o mundo inteiro. E era nisso que pensava a URSS em 1979 e que pensavam os EUA em 2001...

Dentre os aspectos que justificam tanto interesse das potências em dominar o Afeganistão podemos destacar o fato de ter proximidade com potências nucleares instáveis, como Índia e Paquistão, ou com candidatos a novas potências nucleares, como o Irã; de possuir vizinhança geográfica com importantes jazidas de petróleo, como Irã e Iraque; de estar circunscrito em zonas de constante instabilidade beligerante, como os Territórios Palestinos e Israel; ou ainda de representar uma rota comercial de suma importância na ligação entre Oriente e Ocidente. Porém, da mesma maneira que o Afeganistão desperta o interesse das grandes potências ao longo de diferentes contextos históricos, o país se mostra também uma terra de difícil conquista, tendo conseguido derrubar e expulsar forças militares e nações inegavelmente mais fortes. Daí a expressão cunhada por muitos historiadores de que o país é um “Cemitério de grandes impérios” ...

De certo modo os Estados Unidos foram bem sucedidos em derrubar o Talibã do poder nacional, mas fracassaram no projeto de aniquilar de vez as ideias extremistas do grupo e principalmente suas aspirações de reconquistar de vez o controle político da nação. Embora o Governo de Hamid Karzai tenha permitido de maneira negligente o domínio econômico pelos Estados Unidos, sua aprovação e área de influência política se expandiu muito pouco para além da cidade de Cabul, tendo os membros do Talibã se dispersado, mas permanecido ativos em porções isoladas do interior da nação, à espreita da oportunidade para uma tentativa de retomada do controle nacional.

Zalmay Khalilzad (esq) foi enviado por Trump a Doha para se encontrar e negociar com o líder Talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar (dir) em 2020

Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58252774> acesso em 17 ago. 2021

Talvez o grande erro nesse período tenha sido uma estabanada tentativa de aproximação diplomática dos Estados Unidos, sob comando do então presidente Donald Trump, com as lideranças do grupo radical a partir de 2018, na qual se tentava desenhar um acordo de paz entre o governo afegão e o grupo Talibã, para que fosse realizada a retirada definitiva das tropas estadunidenses que ocupavam o país desde sua invasão em 2001. Como havia uma pressão popular na potência americana em prol do retorno dos soldados para a América, bem como uma pressão política por conta dos elevados gastos financeiros da permanência das tropas no Oriente Médio, Trump costurou às pressas um acordo e confiou em todas as garantias dadas pelos radicais árabes. Talvez por inocência, ou por incompetência, ou por covardia...

Não tinha como isso dar certo!

■ Continua...

terça-feira, 17 de agosto de 2021

GRUPO TALIBÃ (parte 1)

 GRUPO TALIBÃ RETOMA O PODER NO AFEGANISTÃO


Prof. Éder Israel

Combatentes do Talibã exibem forte arsenal bélico, tomado das forças de segurança

Disponível em: <https://folharondoniense.com.br/mundo/talibas-deixam-mais-de-100-mortos-ou-feridos-em-base-militar-no-afeganistao/> acesso em 17 ago. 2021

O mês de agosto de 2021 marca dois movimentos geopolíticos muito importantes para o mundo, os quais, em decorrência do quadro pandêmico atual, podem passar à margem dos grandes debates globais. O primeiro deles é a retirada completa (ou quase) das tropas estadunidenses do território afegão; o segundo, e sem dúvidas mais impactante, o retorno triunfal do grupo radical Talibã (ou Talebã, ou Taliban...) ao controle político do país asiático. Compreender esses dois movimentos, a relação entre eles e principalmente seus desdobramentos se faz vital para que possamos assistir com entendimento à geopolítica do século XXI sendo escrita diante dos nossos olhos.

Confusa, assim como é muita coisa que acontece no Oriente Médio aos nossos olhos ocidentais, é a relação histórica de “amor e ódio” entre os governos estadunidenses e as lideranças radicais do grupo árabe, pois em variados contextos históricos eles se atacam ou se ajudam com a mesma facilidade e intensidade. Precisamos, portanto, buscar no passado as raízes dessa interação para que possamos talvez lançar luz sobre os acontecimentos do presente. Para tal estabeleceremos como marco histórico inicial o período da bipolaridade mundial na Guerra Fria.

Primeiramente faz-se necessário entender o que é de fato o grupo Talibã, compreendendo todo o contexto e cenário de sua gênese em meados dos anos de 1990... porém, de certa forma, essa organização já existia mesmo antes de existir formalmente (?!), tendo sua fase embrionária fecundada ainda no final dos anos de 1970...

Essa origem embrionária remonta ao período de ocupação soviética no Afeganistão, compreendido entre 1979 e 1989, no apagar das luzes da Guerra Fria. Nesse período o bloco geopolítico comandado pela potência do Leste Europeu buscava ampliar sua presença e domínio no Oriente Médio, como meio de minar o crescimento econômico dos Estados Unidos, amplamente dependente do petróleo importado daquela região asiática. Portanto, nesse período de disputa ideológica quem não estivesse do lado soviético, tenderia a se aliar aos Estados Unidos e vice-versa, e foi assim com vários grupos árabes rebeldes em território afegão que não se interessavam (entre várias outras coisas) com o Estado ateu apregoado pelo bloco socialista. Muito pelo contrário!

Tanque foi abandonado, assim como muito armamento, após a retirada da URSS em 1989

Disponível em: <https://scroll.in/article/1001228/what-a-military-takeover-by-the-taliban-could-mean-for-afghanistan> acesso em 17 ago. 2021

Dos vários grupos rebeldes do país um dos mais destacados era o composto pelos Mujahidins (em tradução livre: “Guerreiros Santos”) que receberam apoio direto do serviço secreto dos Estados Unidos (CIA) para combater e expulsar os soviéticos que controlavam o Afeganistão à época. Esse apoio significava logística, capitais, treinamentos e armas. Em suma, o governo estadunidense travava uma guerra no Oriente Médio contra seu maior inimigo sem a necessidade de usar diretamente suas próprias tropas. E deu certo! Em 1989 os Soviéticos foram enfim expulsos do país asiático, e os vários grupos rebeldes estavam armados até os dentes e lutariam agora contra o governo afegão, que continuava a receber apoio externo da URSS.

Em 1992 os grupos rebeldes conseguiram enfim dominar as maiores cidades do país e extirparam o poder do governo nacional. Porém, longe da estabilidade, começaria um segundo conflito, dessa vez entre os vários grupos internos que até pouco tempo partilhavam as trincheiras contra o Socialismo soviético. Nesse contexto que o grupo majoritário, os Mujahidins, continua recebendo apoio externo, dessa vez do governo paquistanês, vizinho ao Afeganistão, enquanto os demais grupos e dissidentes Mujahidins lutam por seu próprio lugar ao sol. É nesse efervescente caldeirão beligerante que nasce em 1994 um pequeno grupo, composto por não mais que meia centena de jovens estudantes, batizado como Talibã (ou “Estudantes” em Pachto, uma das línguas faladas no país).






Sob comando de Mohammed Omar, um proeminente combatente que recebeu apoio e treinamento dos Estados Unidos durante a ocupação soviética, o novo grupo inicia suas ações paramilitares e começa a divulgar suas bases ideológicas e projetos para o país. Dentre os principais preceitos desse movimento estavam o combate às influências ocidentais (isso inclui principalmente os EUA, que até pouco tempo os financiava, treinava e armava...) e a implantação de um regime de governo baseado na Sharia, ou Lei Islâmica (na verdade a sua própria interpretação dela...). Um dos grandes trunfos do grupo recém criado foi o grande apoio popular, principalmente por parte do grupo étnico a que “pertencia”, o povo Pachtun, o mais numeroso do Afeganistão.

Desde sua fundação em 1994, Mohammed Omar comanda o Talibã até sua morte em 2013

Adaptado de: <https://www.gratispng.com/png-d65pha/> e <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:FlagofTaliban.svg> acesso em 17 ago. 2021

Ao longo do restante daquela década o grupo ganhava em volume, poder e influência nacional, conseguindo conquistar o controle de várias cidades, combatendo até a derrota de suas forças de defesa ou fazendo com que elas simplesmente passassem para o seu lado e fortalecesse o movimento rebelde. Nesse processo o Talibã foi acumulando grande parte do poderio e arsenal bélico, que permitiriam posteriormente a ampliação de sua zona de influência na nação e a aniquilação de grupos ou forças opositoras.

Já em 1996 o grupo toma a cidade de Cabul, capital do Afeganistão e sede do governo nacional, bem como assume o poder político e passa a governar o país, colocando em prática muitos dos projetos idealizados durante a gênese do grupo dois anos antes, principalmente o radicalismo na interpretação das escrituras sagradas islâmicas e a busca pela “desocidentalização” da sociedade, através do uso sistemático da violência contra minorias étnicas, opositores e marcadamente as mulheres, essas últimas plenamente cerceadas da vida social do país e relegadas a um quadro de extrema submissão e dominação.

O poder político do Talibã permaneceu quase que inabalável até o ano de 2001, mesmo tendo sido reconhecido formalmente como governo por apenas três nações: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Paquistão.

■ Continua...