segunda-feira, 4 de novembro de 2019

CORREÇÃO COMENTADA DE GEOGRAFIA - ENEM 2019





Questão 46

A pegada ecológica gigante que estamos a deixar planeta está a transformá-lo de tal forma que os especialistas consideram que já entramos numa nova época geológica, o Antropoceno. E muitos defendem que, se não travarmos a crise ambiental, mais rapidamente transformaremos a Terra em Vênus do que iremos a Marte. A expressão “Antropoceno” é atribuída químico e prêmio Nobel Paul Crutzen, que a propôs durante uma conferência em 2000, ao mesmo tempo que anunciou o fim do Holoceno — a época geológica em que os seres humanos se encontram há cerca de mil anos, segundo a União Internacional das Ciências Geológicas (UICG), a entidade que define as unidades tempo geológicas.

SILVA, R. D. Antropoceno: e se formos os últimos seres vivos a alterar a Terra?  Disponível em: www.publico.pt. Acesso em: 5 dez. 2017 (adaptado).

A concepção apresentada considera a existência de uma nova época geológica concebida a partir da capacidade influência humana nos processos

a) eruptivos.

b) exógenos.

c) tectônicos.

d) magmáticos.

e) metamórficos

Resposta: B

Comentário:

O conceito de pegada ecológica se relaciona literalmente ao “rastro” que a atividade antrópica produz na medida em que se apropria dos recursos e os transforma de acordo com seus interesses, principalmente econômicos. Desse modo, quando cientistas cunham o conceito do “Período Antropoceno” eles estão na verdade se referindo a um momento na história em que o agente principal é o indivíduo humano, e a realidade é o resultado direto das ações por ele praticadas. Grande parte dos períodos e eras geológicos pretéritas foram ditadas e construídas pela ação das forças endógenas da Terra (tectonismo, vulcanismo e abalos sísmicos), porém, como na atualidade o principal agente é o homem, trata-se assim de uma força que atua externamente na transformação da superfície terrestre, que integra as chamadas forças exógenas.


Questão 47


Disponível em: www.ibge.gov.br. Acesso em 11 dez. 2018 (adaptado)

A geração de imagens por meio da tecnologia ilustrada depende da variação do(a):

a) Albedo dos corpos físicos.

b) Profundidade do lençol freático.

c) Campo de magnetismo terrestre.

d) Qualidade dos recursos minerais.

e) Movimento de translação planetária.

Resposta: A

Comentário:

Na atualidade os processos cartográficos encontram-se diretamente relacionados com as novas tecnologias, desenvolvidas principalmente a partir da segunda metade do século XX, muitas vezes associadas ao contexto da Guerra Fria e a corrida aeroespacial entre Estados Unidos e União Soviética. Grande parte desse avanço se relaciona com desenvolvimento dos satélites e sistemas de aviação, que possibilitaram o estabelecimento do sensoriamento remoto.

Dentro do sensoriamento remoto se destaca o imageamento por satélite, que consiste na captação, por sensores que orbitam a Terra, da energia solar refletida pela superfície e pelos objetos nela presentes. Desse modo, o que define a possibilidade de formação de imagem de um objeto qualquer é a sua capacidade de refletir a radiação solar de volta para o espaço, que é chamada de albedo.


Questão 49

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (lbama) está investigando o extermínio de abelhas por intoxicação por agrotóxicos em colmeias de São Paulo e Minas Gerais. Os estudos com inseticidas do tipo neonicotinoides devem estar concluídos no primeiro semestre de 2015. Trata-se de um problema de escala mundial, presente, inclusive, em países do chamado primeiro mundo, e que traz, como consequência, grave ameaça aos seres vivos do planeta, inclusive ao homem.

IBAMA. Polinizadores em risco de extinção são ameaça à vida do ser humano. Disponível em: www.mma.gov.br. Acesso em: 10 mar. 2014.

Qual solução para o problema apresentado garante a produtividade da agricultura moderna?

a) Preservação da área de mata ciliar.

b) Adoção da prática de adubação química.

c) Utilização da técnica de controle biológico.

d) Ampliação do modelo de monocultura tropical.

e) Intensificação da drenagem do solo de várzea.

Resposta: C

Comentário:

O contexto da questão remete aos impactos ambientais decorrentes de práticas agrícolas intensivas, ampliadas principalmente após a Segunda Guerra Mundial, em virtude da ocorrência da Revolução Verde, que trouxe consigo a modernização dos processos produtivos no campo, inicialmente nas potências mundiais e posteriormente nas nações menos desenvolvidas. Nesse caso trata-se do uso de agrotóxicos e pesticidas, que visam à eliminação das pragas que afligem os cultivos, mas que podem ocasionar a eliminação de indivíduos (fauna e flora) que não prejudicam tais cultivos.

Desse modo, uma ação que seria capaz de minimizar o problema da eliminação de abelhas polinizadoras, conforme mencionado no texto, seria a redução do uso dos agrotóxicos, e a consequente busca de outros métodos de combate às pragas, que não agridam animais que são inofensivos e por vezes benéficos aos cultivos. A prática mais viável econômica e ambientalmente seria o controle biológico dessas pragas, introduzindo no ambiente infestado uma espécie predadora, desde que se evite também o estabelecimento de um desequilíbrio da cadeia alimentar com esse mecanismo.


Questão 50

A hospitalidade pura consiste em acolher aquele que chega antes de lhe impor condições, antes de saber e indagar o que quer que seja, ainda que seja um nome ou “documento” de identidade. Mas ela também supõe que se dirija a ele, de maneira singular, chamando-o portanto e reconhecendo-lhe um nome próprio: “Como você se chama?” A hospitalidade consiste em fazer tudo para se dirigir ao outro, em lhe conceder, até mesmo perguntar seu nome, evitando que essa pergunta se torne uma “condição”, um inquérito policial, fichamento ou um simples controle das fronteiras. Uma arte e uma poética, mas também toda uma política dependem disso, toda uma ética se decide aí.

DERRIDA, J. Papel-máquina. São Paulo: Estação Liberdade, 2004 (adaptado).

Associado ao contexto migratório contemporâneo, conceito de hospitalidade proposto pelo autor impõe a necessidade de

a) anulação da diferença.

b) cristalização da biografia.

c) incorporação da alteridade.

d) supressão da comunicação.

e) verificação da proveniência.

Resposta: C

Comentário:

Atualmente a globalização dos lugares e das sociedades tem ampliado as possibilidades de interação e relacionamento entre os indivíduos de culturas e etnias cada vez mais distintas e anteriormente desconhecidas entre si. Nesse contexto os fluxos migratórios tornam-se forças definidoras do modo e da intensidade dos relacionamentos estabelecidos, trazendo consigo duas possibilidades igualmente reais e complexas: por um lado há a possibilidade rica de intercâmbio cultural entre indivíduos, que possibilita inegável ganho social, mas por outro, há a possibilidade (cada vez mais crescente) de choques culturais, não raramente desencadeando processos de xenofobia e confrontos.

Em uma sociedade em que a competitividade e o individualismo ditam o ideário do sucesso econômico e social, o “outro” é por vezes visto como uma ameaça ao “eu estabelecido”, o que torna a aceitação daquele que vem de fora uma tarefa complicada, principalmente nas nações mais desenvolvidas, e muitas vezes mais competitivas. Assim, torna-se imperativo que ao mesmo tempo em que as conexões viárias tornam os indivíduos mais próximos fisicamente, haja a adoção de valores como a empatia e a alteridade, capazes de tornar os envolvidos mais próximos cultural e socialmente.


Questão 53

Brasil, Alemanha, Japão e Índia pedem reforma do Conselho de Segurança

Os representantes do G4 (Brasil, Alemanha, Índia e Japão) reiteraram, em setembro de 2018, a defesa pela ampliação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) durante reunião em Nova York (Estados Unidos). Em declaração conjunta, de dez itens, os chanceleres destacaram que o órgão, no formato em que está, com apenas cinco membros permanentes e dez rotativos, não reflete o século 21. “A reforma do Conselho de Segurança é essencial para enfrentar os desafios complexos de hoje. Como aspirantes a novos membros permanentes de um conselho reformado, os ministros reiteraram seu compromisso de trabalhar para fortalecer o funcionamento da ONU e da ordem multilateral global, bem como seu apoio às respectivas candidaturas”, afirma a declaração conjunta.

Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 7 dez. 2018 (adaptado).

Os países mencionados no texto justificam sua pretensão com base na seguinte característica comum:

a) Extensividade de área territorial.

b) Protagonismo em escala regional.

c) Investimento em tecnologia militar.

d) Desenvolvimento de energia nuclear.

e) Disponibilidade de recursos minerais.

Resposta: B

Comentário:

A Organização das Nações Unidas – ONU, criada após a Segunda Guerra Mundial com o intuito de funcionar como um fórum supranacional de discussão e debate entre as nações, visando o bem comum e a minimização de possibilidades de conflitos armados entre os Estados integrantes, possui em sua divisão organizacional um aspecto que dificulta seu princípio básico de neutralidade, que é o estabelecimento do Conselho de Segurança, formado por Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França e China, únicas nações que possuem o poder de veto sobre as decisões dos demais. A existência desse grupo restrito desfaz por si só o ideário de igualdade e simetria entre as nações.

No contexto da segunda metade do século XX, principalmente na nova ordem mundial emergida após o término da Guerra Fria, outras nações despontaram como potências econômicas ou candidatas a novas potências, as quais tem buscado a ampliação de seu poderio geopolítico, tal qual ocorrera com as nações do Conselho de Segurança no pós Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, Alemanha, Índia, Brasil e Japão despontam como novos centros de poder e influência nas realidades regionais a que se inserem, e buscam transformar essa influência regional em poderio global, integrando o grupo de nações mais fortes dentro da ONU.


Questão 56

A reestruturação global da indústria, condicionada pelas estratégias de gestão global da cadeia de valor dos grandes grupos transnacionais, promoveu um forte deslocamento do processo produtivo, até mesmo de plantas industriais inteiras, e redirecionou os fluxos de produção e de investimento. Entretanto, o aumento da participação dos países em desenvolvimento no produto global deu-se de forma bastante assimétrica quando se compara o dinamismo dos países do leste asiático com o dos demais países, sobretudo os latino-americanos, no período 1980-2000.

SARTI, F.; HIRATUKA, C. Indústria mundial: mudanças e tendências recentes. Campinas: Unicamp, n. 186, dez. 2010.

A dinâmica de transformação da geografia das indústrias descrita expõe a complementaridade entre dispersão espacial e

a) autonomia tecnológica.

b) crises de abastecimento.

c) descentralização política.

d) concentração econômica.

e) compartilhamento de lucros.

Resposta: D

Comentário:

O contexto econômico associado à Terceira Revolução Industrial (1970) possibilitou o processo de desconcentração industrial das grandes potências hegemônicas, que viram na evolução dos meios de transportes e telecomunicações mundiais (meio técnico-científico-informacional) a possibilidade de multiplicação de seus lucros através da busca de novos fatores locacionais (mão de obra barata, impostos reduzidos, sindicatos fracos, leis ambientais frágeis (...) em nações ainda não industrializadas. Nesse processo, nações da América Latina e sudeste da Ásia passaram por um acelerado processo de industrialização, possibilitado, em grande parte, pela chegada de investimentos externos através da chegada das multinacionais.

Porém, mesmo havendo uma desconcentração das cadeias produtivas, o controle e a administração dessas cadeias permaneceram centralizados nas nações mais desenvolvidas (donas das multinacionais agora dispersadas). Assim, ao mesmo tempo em que se observa uma desconcentração industrial em direção às nações mais pobres, nota-se também a manutenção da concentração econômica histórica nas nações mais desenvolvidas, uma vez que os lucros das filiais industriais retornam para as sedes escritórios que não acompanharam o movimento de desconcentração.


Questão 57

Regiões áridas e semiáridas do mundo


SALGADO-LABOURIAL, M. L. História ecológica da Terra. São Paulo: Edgard Blucher, 1994 (adaptado).

No Hemisfério Sul, a sequência latitudinal dos desertos representada na imagem sofre uma interrupção no Brasil devido à seguinte razão:

a) Existência de superfícies de intensa refletividade.

b) Preponderância de altas pressões atmosféricas.

c) Influência de umidade das áreas florestais.

d) Predomínio de correntes marinhas frias.

e) Ausência de massas de ar continentais.

Resposta: C

Comentário:

O processo de formação dos grandes desertos quentes da Terra é determinado por uma combinação de fatores naturais, com destaque para as altas pressões atmosféricas, típicas das proximidades das faixas tropicais, ação de correntes marinhas frias e a presença de barreiras orográficas. Desse modo dá-se o processo de desertização. Por outro lado, algumas áreas podem desenvolver feições desérticas através de impactos ambientais causados por ações antrópicas, tais como o desmatamento, a monocultura e o uso indevido da irrigação. Nesse caso o processo é chamado desertificação.

No mapa apresentado pela questão, no hemisfério sul, nota-se o posicionamento dos grandes desertos tropicais (Atacama, na América do Sul; Kalahari, na África; e Grande Deserto Australiano, na Oceania). Porém no território brasileiro, nessa mesma faixa latitudinal não se observa a formação de uma zona desértica, em decorrência da abundância de chuvas provenientes da evapotranspiração das zonas florestais da América do Sul, que no caso do nosso país dá origem a um fenômeno regional conhecido como “Rios Voadores”, que garante o fluxo de ar úmido da floresta equatorial em direção à porção tropical do país, impedindo o processo de desertização.


Questão 59


Disponível em: https://hypescience.com.Acesso em: 1 dez. 2018 (adaptado).

A divisão política do mundo como apresentada na imagem seria possível caso o planeta fosse marcado pela estabilidade do(a)

a) ciclo hidrológico.

b) processo erosivo.

c) estrutura geológica.

d) índice pluviométrico.

e) pressão atmosférica.

Resposta: C

Comentário:

Em Eras Geológicas passadas, em decorrência do processo de resfriamento da superfície terrestre, todas as terras emersas estavam unidas em um único grande bloco continental batizado de Pangeia, o qual era circundado por um único grande oceano chamado Pantalassa. Porém, em decorrência das diferenças de temperaturas e pressões das partes interna e externa da Terra deu-se início a uma série de processos estruturais, que desencadearam grandes perturbações e instabilidades na estrutura interna do planeta, iniciando o processo de divisão da Pangeia e deriva dos continentes.

Desse modo, o continente pré-histórico se dividiu inicialmente em duas partes, sendo a Laurásia composta pelas terras do norte (posteriormente dividida em América do Norte e Eurásia) e a Gondwana, compreendendo as terras do sul (futuramente fragmentada em América do Sul, África, Índia, Oceania e Antártida). Logo, pode-se afirmar que se houvesse uma estabilidade geológica (sem as diferenças de pressões e temperaturas internas da Terra), ainda hoje as terras emersas estariam agrupadas na forma de Pangeia, conforme retrata a imagem da questão.


Questão 61

TEXTO I

Ouve o barulho do rio, meu filho
Deixa esse som te embalar
As folhas que caem no rio, meu filho
Terminam nas águas do mar
Quando amanhã por acaso faltar
Uma alegria no seu coração
Lembra do som dessas águas de lá
Faz desse rio a sua oração.


MONTE, M. et al. O rio. In: Infinito particular. Rio de Janeiro: Sony; Universal Music, 2006 (fragmento).


TEXTO II

O atrativo ecoturístico não é somente o banho de cachoeira, sentar e caminhar pela praia, cavalgar, mas conhecer a biodiversidade, às vezes supostamente em extinção. Observar baleias, nadar com o golfinho, tocar em corais, sair ao encontro de dezenas de jacarés em seu hábitat natural são símbolos que fascinam um ecoturista. A natureza é transformada em espetáculo diferente da vida urbana moderna.

SANTANA, P. V. Ecoturismo: uma indústria sem chaminé? São Paulo: Labur Edições, 2008.


São identificadas nos textos, respectivamente, as seguintes posturas em relação à natureza:

a) Exploração e romantização.

b) Sacralização e profanação.

c) Preservação e degradação.

d) Segregação e democratização.

e) Idealização e mercantilização.

Resposta: E

Comentário:

Os dois textos apresentados pela questão trazem duas visões completamente distintas dos espaços naturais, sob duas perspectivas completamente diferentes. No primeiro texto nota-se uma exaltação dos aspectos naturais de um rio, assim como a exposição de seu valor afetivo para o indivíduo, em uma análise romântica do valor simbólico idealizado para um simples curso de água.

Já no segundo texto, nota-se a valorização dos elementos constituintes de um determinado meio natural, associando-os não mais a aspectos afetivos, simbólicos ou romantizados, mas sim se apropriando deles de maneira mercantilista, através da exploração turística das paisagens (convertidas em atrações), demonstrando a transição da visão naturalista do primeiro fragmento para uma visão mais consumista no segundo excerto, vendo os recursos como instrumento de acumulação financeira.


Questão 68

A comunidade de Mumbuca, em Minas Gerais, tem uma organização coletiva de tal forma expressiva que coopera para o abastecimento de mantimentos da cidade do Jequitinhonha, o que pode ser atestado pela feira aos sábados. Em Campinho da Independência, no Rio de Janeiro, o artesanato local encanta os frequentadores do litoral sul do estado, além do restaurante quilombola que atende aos turistas.

ALMEIDA, A. W. B. (Org.). Cadernos de debates nova cartografia social: Territórios quilombolas e conflitos. Manaus: Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia; UEA Edições, 2010 (adaptado).

No texto, as estratégias territoriais dos grupos de remanescentes de quilombo visam garantir:

a) Perdão de dívidas fiscais.

b) Reserva de mercado local.

c) Inserção econômica regional.

d) Protecionismo comercial tarifário.

e) Benefícios assistenciais públicos.

Resposta: C

Comentário:

O fragmento apresentado na questão faz menção a duas comunidades tradicionais de povos quilombolas no sudeste do Brasil. No texto apresenta-se um aspecto econômico desses grupos descendentes de escravos, visando sua inserção no mercado regional, através da produção e comercialização de mercadorias no espaço de entorno, como em Jequitinhonha (no caso da comunidade Mumbuca - MG) ou associado às atividades turísticas regionais (como no caso da comunidade de Campinho da Independência - RJ).

Em ambos os casos o que se denota é o fato de que além da visibilidade regional, o que esses grupos buscam é a afirmação econômica e social na realidade que os circundam, através da independência econômica e da liberdade social que a inserção mercadológica pode trazer, Trata-se, portanto de uma combinação de afirmação cultural e manutenção de raízes locais, sem que haja o isolamento para as relações externas, sejam elas em âmbito econômico ou social.


Questão 69

Localizado a 160 km da cidade de Porto Velho (capital do estado de Rondônia), nos limites da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e Terra Indígena Karipunas, o povoado de União Bandeirantes surgiu em 2000 a partir de movimentos de camponeses, madeireiros, pecuaristas e grileiros que, à revelia do ordenamento territorial e diante da passividade governamental, demarcaram e invadiram terras na área rural fundando a vila. Atualmente, constitui-se na região de maior produção agrícola e leiteira do município de Porto Velho, fornecendo, inclusive, alimentos para a Hidrelétrica de Jirau.

SILVA, R. G. C. Amazônia globalizada – o exemplo de Rondônia. Confins, n. 23, 2015 (adaptado).

A dinâmica de ocupação territorial descrita foi decorrente da

a) mecanização do processo produtivo.

b) adoção da colonização dirigida.

c) realização de reforma agrária.

d) ampliação de franjas urbanas.

e) expansão de frentes pioneiras.

Resposta: E

Comentário:

A região retratada no texto compreende a chamada “Franja da Amazônia”, definida com área de ocupação e apropriação recente do território ao meio econômico nacional, através da expansão da fronteira agrícola do país entre as regiões Norte (vasta extensão ainda por ocupar) e Centro-Oeste (quase que plenamente ocupada desde a expansão da sojicultura na Revolução Verde da década de 1970).

É natural que na região de recente incorporação econômica se localizem a maior parte dos impactos ambientais ligados ao desmatamento, e problemas sociais relacionados a conflitos de terras entre latifundiários, pequenos proprietários e povos tradicionais. Assim, nessa região de ocupação recente da Amazônia, também chamada de frente pioneira de desenvolvimento, o conflito mais marcante se dá entre os povos indígenas, os invasores de terras (grileiros) e os latifundiários, ampliando ainda mais a histórica tensão no campo brasileiro.


Questão 71

No sistema capitalista, as muitas manifestações de crise criam condições que forçam a algum tipo de racionalização. Em geral, essas crises periódicas têm o efeito de expandir a capacidade produtiva e de renovar as condições de acumulação. Podemos conceber cada crise como uma mudança do processo de acumulação para um nível novo e superior.

HARVEY, D. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005 (adaptado).

A condição para a inclusão dos trabalhadores no novo processo produtivo descrito no texto é a

a) associação sindical.

b) participação eleitoral.

c) migração internacional.

d) qualificação profissional.

e) regulamentação funcional.

Resposta: D

Comentário:

No processo de evolução e desenvolvimento de sociedades baseadas no modelo de produção capitalista nota-se a presença de crises cíclicas, que alguns teóricos chamam de “destruição criativa”, onde após um período de auge, o sistema vigente começa a entrar em decadência necessitando ser substituído por outro mais evoluído, embora seja focado igualmente na acumulação de riquezas. Assim foi na crise do sistema colonial no século XVIII, bem como na crise do modelo fordista em 1929 e mais recentemente a crise do sistema financeiro estadunidense em 2008.

Embora tais crises sejam esperadas, e mesmo necessárias, toda a dinâmica social precisa ser adaptada ao novo que surge, e as relações produtivas precisam ser ajustadas em todos os aspectos para que o modelo que emerge seja capaz de superar de modo eficiente o anterior que entrou em crise. Em 1939 Joseph Schumpeter definiu que toda evolução capitalista se dá em quatro fases distintas, iniciando-se pelo boom (quando a novidade surge), seguida pela recessão (quando atinge seu ápice máximo de acumulação), vindo depois a depressão (quando o sistema começa a sucumbir e deixa de funcionar) abrindo espaço para a recuperação (quando o novo surge e supera a crise do antigo).

É inegável que toda fase de evolução e ampliação do desenvolvimento produtivo no capitalismo é acompanhada por saltos tecnológicos e desenvolvimentos técnicos, o que traz consigo a necessidade que a mão de obra se condicione a essa nova realidade (geralmente associada a novas máquinas) através do aumento de seu nível de qualificação profissional, evitando assim processos massivos de desemprego estrutural, que afetaria o mercado de consumo e consequentemente o processo de acumulação de riquezas.


Questão 82

Tratava-se agora de construir um ritmo novo. Para tanto, era necessário convocar todas as forças vivas da Nação, todos os homens que, com vontade de trabalhar e confiança no futuro, pudessem erguer, num tempo novo, um novo Tempo. E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa, começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra, e no calcanho, em carro de boi, em lombo de burro, em paus-de-arara, por todas as formas possíveis e imagináveis, em sua mudez cheia de esperança, muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias; foram chegando de tantos povoados, tantas cidades cujos nomes pareciam cantar saudades aos seus ouvidos, dentro dos antigos ritmos da imensa pátria... Terra de sol, Terra de luz... Brasil! Brasil! Brasília!

MORAES, v.; JOBIM,A. C. Brasília, sinfonia da alvorada. III — A chegada dos candangos. Disponível em: www.viniciusdemoraes.com.br. Acesso em: 14 ago. 2012 (adaptado).

No texto, a narrativa produzida sobre a construção de Brasília articula os elementos políticos e socioeconômicos indicados, respectivamente, em:

a) Apelo simbólico e migração inter-reqional.

b) Organização sindical e expansão do capital.

c) Segurança territorial e estabilidade financeira.

d) Consenso partidário e modernização rodoviária.

e) Perspectiva democrática e eficácia dos transportes.

Resposta: A

Comentário:

O texto apresentado pela questão traz parte de uma canção/poema escrita em menção ao processo de construção da cidade de Brasília no período de governo do presidente Juscelino Kubitschek. Nesse contexto, o chamado Plano de Metas sob o slogan “50 anos em 05”, trouxe consigo a busca pela interiorização da economia brasileira seguindo o modelo da “marcha para o oeste” estadunidense, assim como a tentativa de se estabelecer a integração nacional através do sistema rodoviário radial, planejado para superar a fase do ferroviarismo cafeeiro das bordas do litoral atlântico.

Tratava-se, portanto de um período de busca pela afirmação do ideário desenvolvimentista no país, assim como o apelo nacionalista para a criação de um grandioso símbolo do progresso de um Brasil moderno que surgia. A nova capital a ser construída em 1000 dias seria esse marco simbólico da passagem definitiva de um estado de atraso econômico para uma fase de pleno avanço nacional. Porém a envergadura da obra demandaria o uso maciço de mão de obra que não se dispunha no até então ermo Centro Oeste. Assim, a migração inter-regional principalmente de trabalhadores nordestinos (batizados de “Candangos”) foi vital para que as aspirações de JK fossem alcançadas.


Questão 83

Saudado por centenas de militantes de movimentos sociais de quarenta países, o papa Francisco encerrou no dia 09/07/2015 o 2° Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Segundo ele, a “globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e a indiferença”.

Disponível em: http://cartamaior.com.br. Acesso em: 15 jul. 2015 (adaptado).

No texto há uma crítica ao seguinte aspecto do mundo globalizado:

a) Liberdade política.

b) Mobilidade humana.

c) Conectividade cultural.

d) Disparidade econômica.

e) Complementaridade comercial.

Resposta: D

Comentário:

O processo de globalização, emergido a partir do período das Grandes Navegações (séculos XV e XVI) trouxe consigo a ampliação das interações entre os espaços e os povos, assim como a maximização dos fluxos materiais e imateriais entre esses espaços. Porém, a globalização conforme se observa hoje se tornou uma importante ferramenta de expansão do modelo capitalista de produção, servindo primeiramente aos interesses dos capitais e economias e não propriamente aos interesses sociais dos indivíduos.

Assim, nota-se que o crescimento dos ganhos e das relações econômicas é diretamente proporcional à ampliação das desigualdades socioeconômicas entre povos e nações, uma vez que a acumulação capitalista depende diametralmente das relações desiguais para que haja a mais-valia máxima e consequentemente a lucratividade e acumulação plenas. Assim, as disparidades econômicas entre nações ricas, que ocupam postos hegemônicos no sistema mundo e nações pobres, que ocupam posições subalternas na atualidade se mostram cada vez mais claras e latentes, agravando problemas históricos e tornando um ideário que defende um modelo global inclusivo em uma ferramenta altamente excludente.


Questão 87

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) realizou 248 ações fiscais e resgatou um total de 590 trabalhadores da situação análoga à de escravo, 2014, em todo o país. A análise do enfrentamento trabalho em condições análogas às de escravo materializa a efetivação de parcerias inéditas no trato da questão, podendo ser referenciadas ações fiscais realizadas com o Ministério da Defesa, Exército Brasileiro, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis Ibama) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Disponível em: http://portal.mte.gov.br. Acesso em: 4 fev. 2015 (adaptado).

A estratégia defendida no texto para reduzir o problema social apontado consiste em:

a) Articular os órgãos públicos.

b) Pressionar o Poder Legislativo.

c) Ampliar a emissão das multas.

d) Limitar a autonomia das empresas.

e) Financiar as pesquisas acadêmicas.

Resposta: A

Comentário:

O processo atual de pleno desenvolvimento econômico das nações traz consigo a busca incessante dos sistemas produtivos pela lucratividade exponencial, e para tal procura-se sempre minimizar o quanto for possível os custos de produção, representados principalmente pela mão de obra e carga tributária. Assim, locais e situações onde os salários sejam os menores se tornam altamente atrativos para diversos ramos da produção, o que pode ocasionar processos legais ou ilegais de exploração da força de trabalho, criando relações que se mostram análogas à escravidão.

No caso brasileiro, tem se tornado cada vez mais comum nos noticiários informações acerca de trabalhadores em condições degradantes de trabalho, similares aos regimes que foram legalmente extintos do país pela Lei Áurea em 1888. As duas regiões onde esse tipo de prática é mais notada são as áreas de expansão de fronteira agrícola na Amazônia, onde trabalhadores migrantes são submetidos a condições totalmente fora dos pressupostos estabelecidos por lei, e no sudeste, onde corriqueiramente são encontrados grupos de trabalhadores, geralmente imigrantes sul-americanos ilegais, sendo explorados em confecções e pequenas fábricas no estado de São Paulo.

Por se tratar de um problema atual, ainda há pouca eficiência dos meios legais de combate a esse tipo de prática, porém nos últimos anos, diversos órgãos do governo iniciaram um processo de cooperação e cruzamento de dados que tem possibilitado maior eficiência no combate a essa exploração ilegal da mão de obra. Assim, a combinação entre a criação de um banco de dados nacional e a articulação entre órgãos públicos pode auxiliar efetivamente na responsabilização e penalização daqueles que exploram no Brasil o trabalho análogo à escravidão.


Questão 88

O bônus demográfico é caracterizado pelo período em que, por causa da redução do número de filhos por mulher, a estrutura populacional fica favorável ao crescimento econômico. Isso acontece porque há proporcionalmente menos crianças na população, e o percentual de idosos ainda não é alto.

GOIS, A. O Globo, 5 abr. 2015 (adaptado).

A ação estatal que contribui para o aproveitamento do bônus demográfico é o estímulo à

a) atração de imigrantes.

b) elevação da carga tributária.

c) qualificação da mão de obra.

d) admissão de exilados políticos.

e) concessão de aposentadorias.

Resposta: C

Comentário:

O processo de transição demográfica consiste em uma mudança da estrutura etária da população de uma dada localidade, na qual ocorre a redução da taxa de natalidade e consequente estreitamento da base da pirâmide, seguida pela ampliação da longevidade, que provoca o alargamento do topo dessa pirâmide. Assim, passa-se de uma situação onde a alta natalidade e a alta mortalidade produziam um pequeno crescimento vegetativo, para um estágio em que a combinação entre baixa natalidade e baixa mortalidade criam novamente um baixo crescimento vegetativo.

No intervalo desses dois momentos as nações atravessam um período chamado de bônus demográfico, que consiste em uma situação onde a menor natalidade diminui a proporção de crianças e jovens no país, porém ainda não ocorrendo uma ampliação maciça da expectativa de vida, assim o número de idosos ainda não compromete as contas do Estado. Deste modo, o momento do bônus é propício para que os investimentos públicos possam ser direcionados para a população jovem e adulta, principalmente em serviços de educação, possibilitando o aumento da qualificação da mão de obra local, que futuramente pode aumentar o desenvolvimento técnico da nação.


Questão 89

Os moradores de Utqiagvik passaram dois meses quase totalmente na escuridão

Os habitantes desta pequena cidade no Alasca — o estado dos Estados Unidos mais ao norte — já estão acostumados a longas noites sem ver a luz do dia. Em 18 de novembro de 2018, seus pouco mais de 4 mil habitantes viram o último pôr do sol do ano. A oportunidade seguinte para ver a luz do dia ocorreu no dia 23 de janeiro de 2019, às 13h04min (horário local).

Disponível em: www.bbc.com. Acesso em: 16 maio 2019 (adaptado).

O fenômeno descrito está relacionado ao fato de a cidade citada ter uma posição geográfica condicionada pela

a) continentalidade.

b) maritimidade.

c) longitude.

d) latitude.

e) altitude.

Resposta: D

Comentário:

A combinação entre o formato esférico da Terra e o movimento de translação que ela realiza em torno do sol faz com que haja ângulos deferentes de incidência da radiação solar em diferentes zonas da superfície do planeta, partindo-se de ângulos totalmente perpendiculares no Equador, chegando a ângulos completamente oblíquos nas regiões polares, como na região do Alasca, mencionada no texto da questão.

Desse modo, poder-se inferir que o aumento das latitudes (distância em graus a partir da linha do Equador em direção aos polos) aumenta a angulação da incidência do sol, reduzindo automaticamente a geração de calor e luz, o que faz com que haja a diminuição da temperatura e da luminosidade, possibilitando que nos meses de inverno haja o fenômeno da “grande noite polar” (período em que não se recebe nenhuma incidência de iluminação solar), e durante o verão o fenômeno oposto, chamado de “sol da meia noite” (período em que não escurece em nenhum momento nas calotas polares).


Questão 90

A fome não é um problema técnico, pois ela não se deve à falta de alimentos, isso porque a fome convive hoje com as condições materiais para resolvê-la.

PORTO-GONÇALVES, C. W. Geografia da riqueza, fome e meio ambiente. In: OLIVEIRA, A. U.; MARQUES, M. I. M. (Org.). O campo no
 século XXI: território de vida, de luta e de construção da justiça social. São Paulo: Casa Amarela; Paz e Terra, 2004 (adaptado).

O texto demonstra que o problema alimentar apresentado tem uma dimensão política por estar associado ao(à)

a) escala de produtividade regional.

b) padrão de distribuição de renda.

c) dificuldade de armazenamento de grãos.

d) crescimento da população mundial.

e) custo de escoamento dos produtos.

Resposta: B

Comentário:

Ainda no século XVIII, quando Thomas Malthus propôs seu estudo acerca das questões demográficas do mundo naquele contexto histórico, a questão da relação entre a quantidade ofertada de alimentos e o tamanho da demanda desses recursos pela população era tida como a base para qualquer entendimento acerca do nível de desenvolvimento econômico das nações e combate às situações de fome no mundo. Malthus propôs que definitivamente não seria possível produzir comida para toda a população, e a fome seria um mal inevitável, caso não houvesse um controle rígido das taxas de natalidade e consequentemente do crescimento vegetativo.

O século XX veio e com ele a modernização agrícola através da Revolução Verde, que trouxe a maximização da produção no campo, aumentando exponencialmente a oferta de alimentos para as populações, o que segundo o ideário de Malthus seria por si só capaz de eliminar completamente a fome do mundo. Mas, o que se observou foi algo bem diferente, pois, ao mesmo tempo em que as taxas de natalidade tem reduzido globalmente, a oferta de alimentos tem se ampliado a cada safra agrícola, sem contudo haver a erradicação da fome, que ao contrário, cresce a cada ano.

Assim, pode-se concluir que a problemática da fome no mundo encontra-se na atualidade, bem como em todos os períodos históricos anteriores, atrelada à falta de acesso por uma grande parcela da população aos meios que possibilitem a aquisição desses alimentos. De modo que é inegável que a condição básica para a erradicação da fome no mundo não passa pelo simples aumento da produção agrícola, mas sim pela mudança no padrão de distribuição da renda, de uma forma tal que faça com que as populações mais pobres possam acessar meios financeiros de adquirir seu sustento básico.

domingo, 3 de novembro de 2019

CORREÇÃO COMENTADA DE GEOGRAFIA - UFPR - 2019 / 2020



Questão 69

A respeito das projeções cartográficas, considere as seguintes afirmativas:

1. O emblema da Organização das Nações Unidas (ONU) consiste numa projeção azimutal equidistante centrada no Polo Norte.

2. É impossível transferir a superfície curva da Terra para um plano sem desfigurá-la ou alterá-la, motivo pelo qual a representação que mais se aproxima da realidade permanece sendo o globo.

3. Na projeção de Mercator, as distâncias entre os paralelos aumentam à medida que se afastam da linha equatorial, inviabilizando seu uso para a navegação.

4. As projeções polares são apropriadas para representar regiões de altas latitudes, além de terem grande utilidade na navegação aérea e na análise geopolítica.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente a afirmativa 3 é verdadeira.

b) Somente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras.

d) Somente as afirmativas 1, 2 e 4 são verdadeiras.

e) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.

Resposta: D

Comentário:

O formato esférico e tridimensional da Terra torna a tarefa de criação de uma representação plana, em um mapa, impossível de ser realizada com total precisão e fidelidade aos dados reais da superfície do planeta. É impossível, apesar de toda a tecnologia do sensoriamento remoto na atualidade, a criação de um plano bidimensional perfeito (mapa) a partir de uma realidade tridimensional (Terra). Assim, na cartografia deve-se partir da ideia de que nenhum tipo de mapa é livre de distorções ou deformações, sendo o globo terrestre a única maneira de apresentar o planeta de modo mais próximo à realidade.

Dentre as possibilidades de representação terrestre em um plano bidimensional se destacam as três principais projeções cartográficas, que são a cilíndrica, a cônica e a azimutal; cada uma delas com as suas vantagens e suas respectivas implicações e deformações. Na projeção cilíndrica tem-se a melhor maneira de confecção de um mapa-múndi, porém apesar da fidelidade dos dados nas baixas latitudes (onde o papel toca no globo), nas zonas polares há grandes deformações, devido ao distanciamento entre o papel e a superfície esférica do globo terrestre. Dentro das projeções cilíndricas se destaca a Projeção Cilíndrica Conforme de Mercator, elaborada no século XVI, sendo fiel nos contornos dos continentes, ao passo que distorce as áreas e as distâncias relativas. Tendo sido elaborada durante o colonialismo, essa projeção tem importante uso na navegação marítima. Assim como a Projeção Cilíndrica Equivalente de Peters, criada em meados do século XX, dando ênfase para os territórios da África e América Latina, sendo considerada uma projeção das desigualdades sociais. Esse mapa é fiel nas áreas relativas dos continentes, mas distorce suas formas e distâncias.

No caso da projeção cônica, tem-se que seu principal problema é o fato de abarcar apenas um hemisfério terrestre de cada vez, sendo portanto impossível a criação de um mapa-múndi a partir dessa técnica. O fato de utilizar um papel dobrado em forma de cone, as deformações são observadas na zona equatorial e nas zonas polares, enquanto nas médias latitudes (zonas temperadas) o papel toca no globo e as informações são mantidas com fidelidade. O uso desse tipo de projeção é restrito aos setores militares, principalmente no estabelecimento de estratégias de guerra, sendo o uso civil pouco eficiente.

Por outro lado, há a projeção azimutal, também chamada de polar ou plana. Trata-se de uma técnica na qual o papel é posicionado em um ponto pré-escolhido do globo terrestre (azimute) sendo que naquele ponto as informações serão completamente fiéis à realidade. Porém à medida que se afasta desse azimute, o papel se distancia do globo e as informações se tornam cada vez mais deformadas. Esse tipo de mapa tem como principal vantagem o fato de ser equidistante, ou seja, conserva as distâncias entre os pontos, apesar de distorcer suas formas e tamanhos, sendo, portanto muito utilizada para o estabelecimento de rotas aéreas. O principal exemplo de uso dessa projeção é na representação de mundo na bandeira da Organização das Nações Unidas – ONU, tendo como objetivo uma representação mundial centrada no polo norte (zona supranacional neutra) com todos os continentes alinhados ao seu redor, trazendo consigo a ideologia de que essa instituição seja neutra no cenário geopolítico mundial.


Questão 70

Em 1º de julho de 1997, Hong Kong, uma ex-colônia britânica, passou a fazer parte da China, sob o acordo “um país, dois sistemas”, que assegura certa autonomia ao território de cerca de 7,4 milhões de habitantes. Considerada uma Região Administrativa Especial, Hong Kong possui seu próprio sistema de leis, diversos partidos políticos e direitos essenciais garantidos. 

A respeito do assunto, considere as seguintes afirmativas:

1. Hong Kong foi cedida ao Reino Unido em 1842, após a Primeira Guerra do Ópio, quando se tornou uma colônia britânica.

2. Pelo acordo, ficou assegurado que nenhuma alteração poderá ser feita no sistema de governo de Hong Kong e em seu estilo de vida até o ano de 2047.

3. O governo central chinês tem afirmado de maneira recorrente sua jurisdição sobre Hong Kong, mas evitando atritos políticos entre os dois sistemas.

4. O passaporte utilizado pelos habitantes das duas regiões é o mesmo, porém o cidadão honconguês possui visto livre em vários países.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente a afirmativa 3 é verdadeira.

b) Somente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.

d) Somente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras.

e) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.

Resposta: B

Comentário:

Durante a Primeira Guerra do Ópio a Inglaterra pressionava militarmente a China pela abertura do país asiático para o ópio produzido pelos ingleses em sua colônia indiana, o qual era bloqueado pelo governo chinês. Como resultado da pressão britânica o governo da China acabou cedendo e permitindo a abertura de vários portos do país aos produtos da potência europeia, além do pagamento de indenização aos ingleses e da entrega do território de Hong Kong à Grã Bretanha, através do Tratado de Nanquim. Desse modo, a cidade chinesa se torna inicialmente colônia e posteriormente protetorado europeu até 1997, quando foi devolvida ao governo da China, sob a condição de manter-se politicamente autônoma e economicamente capitalista pelos próximos 50 anos, sendo que apenas a partir de 2047 o Estado chinês voltaria a ter total domínio sobre o território.

Na medida em que se aproxima o término dos 50 anos de autonomia de Hong Kong, estabelecidos no acordo de devolução à china em 1997, tanto o governo chinês quanto o governo autônomo do antigo protetorado britânico tem buscado planos para o futuro. Nas últimas décadas o território alcançou grande desenvolvimento econômico, decorrente principalmente do recebimento de investimentos industriais japoneses a partira da década de 1970, quando se tornou um Tigre Asiático, passando por uma rápida e moderna industrialização, colocando-se à frente do nível do restante da China. Por outro lado, a economia chinesa também passa hoje por um intenso crescimento decorrente da conversão gradual ao capitalismo, a partir da abertura econômica do país nas chamadas Zonas Econômicas Especiais, criadas pelo Partido Comunista Chinês. Assim, é imperioso para a China reconquistar o controle de Hong Kong, posto que isso auxiliaria na modernização tecnológica e econômica da nação, ao mesmo tempo que para Hong Kong, voltar ao domínio chinês tiraria da região qualquer chance de crescimento autônomo e expansão econômica, além da perda das liberdades civis, uma vez que na China ainda vigora o autoritarismo dos tempos da Guerra Fria.

Hoje Hong Kong vive uma onda de violentos protestos populares decorrentes da combinação de uma aproximação política entre o governo local e o governo chinês e do aumento da pressão política da China, propondo reformas que facilitem a retomada do domínio do território em 2047. O que coloca em choque diametral o regime político chinês (baseado no autoritarismo) e a legislação honconguêsa (baseado na autonomia política e em liberdades maiores que as da China). Dentre as liberdades gozadas pela população de Hong Kong pode-se citar o posse de um passaporte diferenciado, que permite livre acesso a outros países, diferente do passaporte portado pelo restante da população chinesa, assim como a liberdade econômica e o direito à propriedade privada. A raiz dos atuais protestos encontra-se na proposta política do governo da região de uma Lei de Extradição, que permitiria que pessoas acusadas pela China fossem julgadas não segundo as leis de Hong Kong, mas sim segundo as leis chinesas, o que demonstraria claramente uma perda de autonomia local e consequente aumento do poder da do governo de Pequim na ex-colônia inglesa, “livre” até 2047.


Questão 71

No dia 26 de abril de 1986, à 1h23min58s, uma série de explosões destruiu o reator e o prédio do quarto bloco da Central Elétrica Atômica de Tchernóbil, na fronteira de Belarus. A catástrofe de Tchernóbil se converteu no mais grave acidente tecnológico do século XX. Para a pequena Belarus, o acidente representou uma desgraça nacional, levando-se em conta que ali não havia nenhuma central atômica.

(Adaptado de Svetlana Aleksiévitch, Vozes de Tchernóbil, p. 9-10.)

O evento ocorrido em Tchernóbil atesta e reforça incertezas, problemas e incongruências acerca do uso da energia nuclear. A esse respeito, assinale a alternativa correta.

a) Dado seu uso recente no Brasil, não há registro de acidentes com substâncias radiativas no país, seja no âmbito da produção de energia, seja no uso em equipamentos radiológicos.

b) O domínio tecnológico para a geração de energia nuclear pode possibilitar a produção de armas nucleares, razão pela qual os Estados Unidos exercem uma forte pressão sobre o projeto nuclear do Irã.

c) A construção de novas usinas nucleares no Brasil encontra-se restrita, dada sua dependência tecnológica em relação ao enriquecimento do urânio.

d) A reduzida participação da energia nuclear na matriz energética japonesa é decorrente da preocupação quanto à capacidade de as usinas suportarem atividades sísmicas no país.

e) O acidente de Tchernóbil influenciou a opinião pública acerca da aceitação da energia nuclear, repercutindo na queda de sua produção nos países industrializados.

Resposta: B

Comentário:

Ao longo do século XX, principalmente em sua segunda metade houve grande ampliação na produção e consumo de energia nuclear no mundo, aspecto diretamente associado ao contexto geopolítico desse período, onde se travava a corrida armamentista e aeroespacial entre Estados Unidos (capitalismo) e União Soviética (socialismo). O objetivo da corrida armamentista era criar armamentos cada vez mais destrutivos e utilizá-los como dissuasão do lado oposto, sendo as bombas atômicas o auge desse desenvolvimento.

Um dos principais aspectos diferenciadores dos EUA e da URSS das demais nações era exatamente o domínio da atomística e a posse desses armamentos, o que levava as outras nações a buscar o mesmo poder geopolítico dessas potências hegemônicas, através do desenvolvimento dos mesmos armamentos. Assim, várias nações do mundo iniciaram programas atômicos supostamente para fins civis (geração de energia elétrica) que na prática serviam para esconder as reais intenções militares de suas pesquisas. Assim o mundo assistiu durante a Guerra Fria a ampliação das unidades de geração de energia a partir de minerais radioativos (urânio e plutônio), principalmente nas grandes potências econômicas.

Uma das exceções a essa estratégia de “disfarçar” um programa militar com usinas de geração de energia foi o Japão, pois o país asiático praticamente não dispõe de opções energéticas tradicionais, e se vale de fato das termelétricas movidas principalmente a plutônio, sendo essa ainda uma das principais fontes energéticas do país na atualidade, embora o acidente nuclear na usina de Fukushima em 2011 tem levado a potência oriental a investir em alternativas, como a maremotriz, para a redução gradativa do uso de fontes nucleares.

No caso brasileiro, nosso programa nuclear data do período de governos militares, onde os comandantes do país tinham de fato a intenção de realizar pesquisas relativas à atomística com fins bélicos, e para isso se valeram do programa nuclear de Angra dos Reis. Nesse contexto o país avançou largamente nas pesquisas relativas ao enriquecimento de urânio, mineral abundante no território brasileiro, tendo desenvolvido uma tecnologia extremamente eficiente e barata de enriquecimento, além da autossuficiência de combustível nuclear, apesar de não ter conseguido desenvolver equipamentos bélicos a partir dessa tecnologia. O país foi marcado no ano de 1987 por um acidente com composto radioativo (Césio-137) na cidade de Goiânia, embora não haja qualquer relação desse acontecimento com o programa nuclear do Brasil, uma vez que acidente aconteceu com a desmontagem de uma máquina de raios-x abandonada em um ferro velho, que acabou por vitimar fatalmente 4 pessoas, além de contaminar várias outras.

Atualmente o grande impasse no âmbito da energia nuclear se dá pelo embate entre os governos dos Estados Unidos e do Irã, por conta da manutenção de um programa nuclear no país árabe, supostamente para o enriquecimento de urânio para a geração de energia, mas que segundo a potência americana tem o intuito de criar uma “cortina de fumaça” sobre as reais intenções da nação do Oriente Médio, que visaria o desenvolvimento de bombas atômicas, o que traria ainda mais instabilidade para a já instável região asiática. Desse modo os Estados Unidos recorrem à imposição de sanções econômicas ao Irã, visando dissuadir o país do prosseguimento de seu programa nuclear.

Questão 72

“Vou construir um grande muro – e ninguém constrói muros melhor que eu, acreditem. Para além disso, vou fazer com que o México pague esta construção”. Esta frase de Donald Trump revelou-se como uma medida que chocou milhares de pessoas e agradou a outras tantas.

(Disponível em: https://sol.sapo.pt/artigo/617127/como-surgiu-o-problema-das-fronteiras-entre-os-eua-e-o-mexico-)

Essa fala do presidente dos Estados Unidos remete a uma região de conflito. A respeito do assunto, assinale a alternativa correta.

a) O Rio Grande limita os EUA e o México e se configura num tipo de fronteira, a natural, com uma significativa carga simbólica, por servir de passagem entre a cidade mais violenta do mundo – Ciudad Juárez – e a segura cidade de El Paso.

b) Embora o maior controle da fronteira dos Estados Unidos com o México reforce tensões políticas e humanitárias na região, não reflete na capacidade de interação regional do NAFTA.

c) O controle da fronteira com o México teve início na década de 1980, na tentativa de se combater o tráfico de drogas proveniente da Colômbia.

d) A política migratória dos Estados Unidos é paradoxal, visto que, a um só tempo, incentiva a “importação de cérebros” e é rigorosa com os refugiados políticos provenientes da América Latina.

e) Embora seja crescente o número de cidadãos da Guatemala, Honduras e El Salvador na fronteira, ainda persiste um maior número de cidadãos mexicanos a serem detidos.

Resposta: A

Comentário:

Durante os atos de campanha na corrida presidencial nos Estados Unidos, o então candidato Donald Trump prometeu erguer um muro na fronteira sul da potência americana com o México, tendo como intuito frear o fluxo migratório de latinos, que usam o país norte americano como rota de entrada na América Anglo-saxônica. Outro argumento utilizado pelo candidato foi o intenso tráfico de armas e drogas, entre cidades no norte mexicano e o sul estadunidense.

Na realidade a construção do referido muro seria apenas a materialização de uma divisão já existente há décadas na região, uma vez que militares dos Estados Unidos já patrulham ostensivamente a região limítrofe das duas nações, sendo que em alguns trechos da fronteira já existem há anos cercas e muros, além de locais onde a divisa se estabelece de maneira natural pelas águas do Rio Grande.

Porém, a rigidez no controle fronteiriço vai contra os pressupostos de criação e estabelecimento do bloco econômico das nações da América do Norte – NAFTA, uma vez que restringe os fluxos materiais entre duas das nações constituintes desse mercado. Desse modo, tanto as relações políticas entre os governos dos Estados Unidos e do México, quanto os acordos comerciais entre as duas nações ficam estremecidas pelas disputas, o que pode complicar ainda mais a já controversa política externa do governo estadunidense, que alguns teóricos já batizaram de “desglobalização”.

Cabe mencionar que o controle de fronteira nos Estados Unidos acontece sempre de maneira seletiva, uma vez que há um intenso processo de importação de mão de obra altamente qualificada ou de elevado potencial técnico de nações menos desenvolvidas, intitulado de “fuga de cérebros”, assim como a aceitação facilitada de dissidentes políticos de governos não aliados da América Latina, como no caso de Cuba e mais recentemente Venezuela. 

Outro aspecto marcante na atual situação fronteiriça dos Estados Unidos é o fato de que nesse início de século XXI uma série de crises sistêmicas na América do Sul e na América Central fez subir de modo substancial a quantidade de imigrantes provenientes de outras nações, além do tradicional fluxo mexicano, com destaque para as grandes massas de pessoas que tentaram entrar recentemente na potência americana, provenientes de Honduras, Guatemala e El Salvador, superando em muitos momentos o número de pessoas nativas e provenientes do México.


Questão 73

A problemática da poluição diz respeito à qualidade de vida das aglomerações humanas, visto que a degradação ambiental causa uma deterioração dessa qualidade.

A esse respeito, assinale a alternativa correta.

a) A degradação ambiental passou a se constituir como um problema para a humanidade a partir do lançamento das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945.

b) A Terra reclama uma estratégia ambiental que atribua responsabilidades individuais, para cada nação, no sentido de desenvolver pesquisas e estudos acerca das implicações das atividades humanas sobre o sistema natural e vice-versa.

c) As questões ambientais se circunscrevem aos países de alto grau de desenvolvimento econômico e elevado consumo, em que os problemas são mais graves e complexos.

d) A resistência à manutenção do maior número de espécies para assegurar o futuro do ser humano se dá pelo fato de ela se constituir em proposição que contraria o desenvolvimento econômico.

e) A problemática ambiental não se limita ao mundo físico, integrando, em escalas diversas, as questões socioespaciais.

Resposta: E

Comentário:

Embora a discussão acerca da problemática ambiental seja recente, tendo se iniciado apenas na segunda metade do século XX, principalmente após a realização da Conferência de Estocolmo em 1972, as origens dos problemas enfrentados atualmente pela sociedade remonta a séculos anteriores, estando relacionados principalmente ao consumo de combustíveis fósseis pelas nações e também pela expansão do modo de vida urbano e do modelo capitalista de produção e consumo.

A Primeira Revolução Industrial, no final do século XVIII na Inglaterra introduziu o carvão mineral como fonte energética para a recém-criada atividade manufatureira, o que ocorreu em combinação com a aceleração do processo de urbanização do mundo desenvolvido. Portanto, a queima de hidrocarbonetos encontra-se diretamente associada aos impactos ambientais do mundo contemporâneo, embora as raízes dos problemas ambientais possam de fato ser associadas a Eras anteriores, quando do surgimento do homem...

Embora inicialmente a queima dos combustíveis fósseis tenha sido restrita às grandes potências mundiais, assim como os primeiros sinais de impactos decorrentes disso, na atualidade as consequências das ações danosas deixaram de circunscrever apenas aos limites territoriais dessas nações, tornando-se cada vez mais globais as suas afetações, o que demanda ações conjuntas de todas as nações e não mais apenas responsabilizações e ações individualizadas. Não se pode resolver um problema global apenas por meio de práticas locais.

O período posterior à Segunda Guerra Mundial trouxe consigo a mundialização da economia, através principalmente da desconcentração industrial das grandes potências econômicas, possibilitada pela Terceira Revolução Industrial e pelo advento das indústrias multinacionais, que foram atraídas para as nações menos desenvolvidas em busca de mão de obra barata, isenções fiscais e mercados consumidores. Porém, essas multinacionais levaram consigo o consumo de combustíveis fósseis a essas nações, até então pouco poluidoras, mas que passaram a produzir em seus territórios impactos ambientais até então restritos às grandes potências hegemônicas.

Um dos grandes problemas que a sociedade moderna deve resolver hoje é a combinação de um modelo econômico pautado no desenvolvimentismo e na produção máxima de excedentes comercializáveis com a necessidade de manter os recursos naturais que possibilitam a produção desses excedentes. Portanto, o dilema da problemática ambiental hoje é saber se vale a pena gerar lucros exponenciais na atualidade exaurindo os recursos e se tornar incapaz de gera-los no futuro, ou se compensa buscar o uso racional desses recursos, reduzindo o ritmo de produção e consumo, mas garantindo sua disponibilidade para que no futuro possa-se ainda produzir e gerar lucros. Assim, não se trata apenas de uma questão ligada aos aspectos físicos e ambientais do mundo, posto que envolva também a cultura, a sociedade, a economia, a política (...), enfim, envolve todas as variáveis possíveis da vida moderna.


Questão 74

A compra da remota Ilha da Groenlândia proposta pelo presidente dos EUA, Donald Trump, pode soar estranha. Afinal, trata-se do território menos povoado da Terra, com mais de 2 milhões de quilômetros quadrados – mais ou menos um quarto da área do Brasil – e apenas 57 mil habitantes.

(Disponível em: noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2019/08/22/por-que-remota-groenlandia-interessa-tanto-aos-eua-e-a-china.htm.)

Ponderando a dimensão e o alcance geopolítico do tema, considere as seguintes afirmativas:

1. A região ártica inclui territórios pertencentes ao Canadá, Finlândia, Groenlândia, Islândia, Noruega, Rússia, Suécia e Estados Unidos.

2. Os Estados Unidos possuem uma estratégia já consagrada de atuação na região ártica, construída a partir da aquisição do Alasca junto ao Império Russo em 1867.

3. A Rússia é o país com maior presença no Ártico e o melhor preparado para enfrentar as severidades da região.

4. Os efeitos do aquecimento global se manifestam no Ártico e o derretimento do gelo está permitindo um acesso mais fácil à região, chamando a atenção das nações árticas sobre ganhos e perdas potenciais a alcançar.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente a afirmativa 2 é verdadeira.

b) Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.

d) Somente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras.

e) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.

Resposta: C

Comentário:

Recentemente em uma de suas várias declarações polêmicas, o presidente estadunidense Donald Trump disse que pretendia abrir negociação com a Dinamarca para uma possível compra do território da Groelândia, alegando que a expansão territorial da potência americana para a região do Ártico reforçaria a hegemonia política e econômica de seu país no cenário global.

Embora em outro contexto histórico e com outras motivações, a intenção do mandatário dos Estados Unidos suscitou a lembrança do episódio de 1856 quando o país americano adquiriu junto ao Império Russo o território do Alasca. Naquele período não havia qualquer interesse em uma possível expansão dos domínios americanos na região do Ártico, como se observa na atualidade. Foi muito mais uma combinação de um momento complicado para a economia do Império Russo na época e uma maneira encontrada de “agradecer” ao apoio recebido dos russos durante a Guerra Civil, uma vez que o império europeu se posicionou a favor da União e contra os Confederados (apoiados pelos Ingleses). Portanto, em um primeiro momento não havia qualquer intenção econômica estadunidense de conquistar ou explorar o Ártico.

Mas na atualidade, os Estados Unidos possuem a maior presença na região Ártica, muito em decorrência de sua disputa geopolítica com a Rússia e a China, principalmente pelo acesso a novas rotas comerciais que tem sido abertas na região em decorrência do degelo da calota polar norte por consequência do aquecimento global e da elevação das temperaturas médias da Terra. Tais rotas comerciais seriam estratégicas para o comércio entre América e Europa, e entre Europa e Ásia nas próximas décadas. Soma-se a isso a descoberta recente de grandes jazidas petrolíferas e de gás natural sob a camada de gelo da região, cujo derretimento tornariam acessíveis e mais facilmente exploráveis.

Embora a maior presença militar seja hoje estadunidense, em termos territoriais a região do Ártico se estende pelos limites territoriais do Canadá, Groelândia (Dinamarca), Suécia, Islândia, Noruega, Rússia e também Estados Unidos (através do Alasca). Porém, o domínio e a exploração econômica das riquezas naturais e das rotas comerciais estratégicas dessa região dependerão de como as peças do tabuleiro geopolítico do século XXI serão movimentadas. Pode-se dizer que o discurso, aparentemente desloucado de “comprar a Groelândia” tenha sido o primeiro ato dessa disputa.

Questão 75

A organização do espaço diz respeito à divisão espacial do trabalho, à disposição e distribuição espacial da infraestrutura técnica e social, bem como ao padrão de segregação e autossegregação residencial, entre outros aspectos. 

A respeito da organização do espaço geográfico brasileiro, assinale a alternativa correta.

a) As adaptações e transformações do espaço geográfico são dependentes do planejamento urbano e regional e resultam numa organização espacial menos injusta, menos desigual, menos assimétrica.

b) O processo de organização espacial resultou em dois brasis: um novo e moderno, constituído por Sul e Sudeste, e outro velho e arcaico, representado pelo Norte, Nordeste e Centro Oeste.

c) A rede urbana da Amazônia obedece a uma orientação dada pela rede hidrográfica da região.

d) A formação territorial brasileira obedeceu à sucessão de ciclos econômicos, iniciando pela exploração do pau-brasil e culminando na atividade industrial, promotora de desenvolvimento e equanimidade regionais.

e) A divisão territorial do trabalho vigente no Brasil apresenta um centro dinâmico e industrializado – eixo Rio-São Paulo – e várias periferias especializadas no fornecimento de matérias-primas e mão de obra barata.

Resposta: C

Comentário:

O processo de urbanização e modernização das cidades, tanto no Brasil como em quaisquer outros países está diretamente ligado ao desenvolvimento industrial e à modernização das atividades agrícolas, posto que esses são os motores principais do processo de êxodo rural e desenvolvimento da economia das áreas urbanas ou urbanizadas.

Na atualidade os problemas relacionados à vida urbana tem se proliferado e aumentado a intensidade com que afeta a vida das pessoas nessas áreas, pois mesmo que as cidades se modernizem de maneira contínua e rápida, ao invés dessa modernização eliminar o quadro de desigualdades e de segregação da maioria da população dos benefícios oferecidos pela dinâmica citadina, essas mazelas tem se tornado mais amplas e cada vez ais visíveis, tornando muitas vezes as grandes metrópoles uma “terra de oportunidades inalcançáveis”.

Embora seja inegável que na contemporaneidade as ligações entre os espaços (próximos ou distantes) estejam mais intensas e eficientes, as desigualdades regionais persistem, mesmo que em muitos casos diminutas, jamais são completamente eliminadas. No caso do Brasil, historicamente a região sudeste se destaca como principal centro econômico e industrial da nação, porém esse destaque tem sido irradiado para outras regiões como o Sul, através do processo de desconcentração industrial, e o Centro-Oeste, por conta da expansão da fronteira agrícola após a Revolução Verde em 1970. Hoje, apesar de menos dinâmicos, Norte e Nordeste tem recebido grandes investimentos econômicos, sendo que na primeira região ocorre a expansão da fronteira agrícola do Centro-Oeste, ao passo que na segunda tem-se a chegada de muitas unidades fabris do Sudeste, em busca de menores custos produtivos e de fatores locacionais favoráveis. Assim, mais do que arcaicas, as regiões Norte e Nordeste tem sido vistas como regiões potenciais para uma expansão econômica futura.

No caso da região Norte há um potencial maior para o desenvolvimento nas próximas décadas, seja por conta de sua extensão territorial, por conta da diversidade dos recursos naturais existentes ou das condições climáticas menos severas. Porém, estruturalmente a região apresenta importantes dificuldades a um movimento de ocupação e desenvolvimento, principalmente no que tange aos sistemas de transportes, uma vez que é carente de redes rodoviárias e ferroviárias, tendo basicamente a opção hidroviária, associada à Bacia do Amazonas e aos rios constantemente caudalosos da região. Essa limitação estrutural reflete diretamente no modelo de urbanização da região, posto que a maioria das cidades esteja relacionada aos rios navegáveis, o que cria uma rede urbana chamada de “espinha de peixe”, por conta do desenho ligado aos cursos hídricos.

O processo de desconcentração industrial foi capaz de promover a redefinição das regiões periféricas ao sudeste, que antes eram vistas apenas como fornecedoras simples de matérias primas e mão de obra barata que se deslocava na direção dos centros metropolitanos do sudeste, mas que no presente tem (essas periferias) recebido unidades fabris que se desconcentram das áreas já saturadas do Centro-Sul em busca de custos produtivos mais baratos que fossem capazes de garantir sua lucratividade. Porém, mesmo com a chegada dessas indústrias, mesmo com a reconfiguração da posição hierárquica das regiões brasileiras, as desigualdades regionais não são completamente eliminadas, uma vez que mesmo perdendo quantitativamente fábricas, o sudeste segue qualitativamente à frente do restante do país em termos de desenvolvimento tecnológico e acumulação econômica.


Questão 76

Do México ao Chile, a áreas da África e a pontos turísticos no sul da Europa e no Mediterrâneo, o nível de ‘estresse hídrico’ – a quantidade de água extraída de fontes terrestres e superficiais em comparação com o total disponível – está atingindo níveis preocupantes.

(Disponível em: bbc.com/portuguese/amp/geral-49243195.)

Sobre estresse hídrico, assinale a alternativa correta.

a) Regiões de grande concentração populacional na Ásia, como o Sudeste asiático, apresentam maior estresse hídrico do que as áreas do continente de baixa densidade populacional.

b) O Brasil possui, segundo a Agência Nacional de Águas, aproximadamente 12% da disponibilidade de água doce do planeta e, à exceção do semiárido nordestino, as demais áreas do país apresentam baixo risco de estresse hídrico.

c) O estresse hídrico no continente africano é uma decorrência do excessivo uso de suas águas subterrâneas.

d) No sul da Europa, onde predominam verões quentes e secos, o turismo representa uma pressão adicional sobre os sistemas de águas.

e) Nos países andinos, a atividade industrial é responsável pela maior parte do consumo hídrico, superando o consumo agrícola e o residencial.

Resposta: D

Comentário:

A questão da água foi apontada durante grande parte do século XX como possível raiz de grandes conflitos armados e de situações prejudiciais às populações de regiões onde a escassez se mostra mais latente. E, durante esse início de século XXI essa previsão tem se confirmado e os recursos hídricos (principalmente a pressão sobre eles) tem se relacionado diretamente com situações negativas, que academicamente passaram a ser conhecidas como “estresse hídrico”, que na verdade podemos vulgarmente chamar de “falta de água”.

Porém, esse estresse hídrico não está relacionado apenas ao tamanho das populações de uma localidade e o consequente consumo de água realizado por essa população. Antes, se associa também (e principalmente) às condições naturais do clima, levando a regimes de chuvas irregulares e insuficientes, assim como geomorfológicas, relacionadas às reservas subterrâneas de água, por vezes insuficientes ou não potáveis. No caso brasileiro, naturalmente o sertão semiárido apresenta estresse hídrico ligado à escassez e irregularidade de chuvas ao longo do ano, além da alta salinidade das reservas subterrânea das águas, por vezes salobras e impróprias ao consumo convencional. Mas há no país também estresse hídrico em regiões mais chuvosas, como o sudeste, onde a grande concentração populacional, somada à ineficiência da distribuição e acesso pelas populações de mais baixa renda torna esse recurso insuficiente, configurando com isso estresse hídrico onde naturalmente teria água.

Em outras regiões do mundo, como no continente africano há regiões que sofrem esse problema ligado à combinação de fatores ambientais, por conta do clima árido e semiárido das proximidades dos desertos do Saara e do Kalahari, e fatores históricos, como a utilização maciça das águas dos rios em projetos de irrigação de monoculturas voltadas à exportação para mercados de grandes potências, principalmente europeias. Assim como na América d Sul, na região dos Andes, onde a conformação do relevo atua como uma importante barreira orográfica que barra a umidade proveniente do Oceano Pacífico, tornando muitas áreas interiores secas, como observa-se no deserto do Atacama no Chile, onde tem-se um quadro grave de estresse hídrico.

No continente europeu as condições naturais não são tão desfavoráveis à ocorrência de chuvas regulares e de pleno abastecimento hídrico das regiões, uma vez que praticamente todos os países se encontram na zona temperada, naturalmente úmida. Porém, na porção sul do continente, na borda do Mar Mediterrâneo, o clima apresenta verões mais quentes e secos, reduzindo as médias pluviométricas gerais. Por ser uma região costeira e quente em um continente geralmente frio, a costa mediterrânica atrai grandes massas de turistas de outras áreas europeias, o que aumenta a pressão sobre os recursos hídricas da área, desencadeando (principalmente nos períodos de alta temporada) um quadro local de estresse hídrico em uma região de elevado desenvolvimento socioeconômico.

Questão 77

A epidemia de sarampo é um fenômeno global. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que, em 2017, a doença foi responsável por 110 mil mortes. Segundo essas entidades, os casos notificados no mundo triplicaram nos sete primeiros meses na comparação com igual período de 2018. O Brasil, segundo o Ministério da Saúde, vinha de um histórico de não registrar casos adquiridos dentro do país desde o ano 2000. Em 2018, contudo, a doença reapareceu a partir de casos importados, disseminando-se, sobretudo, no estado:

a) de São Paulo.

b) do Amazonas.

c) de Roraima.

d) de Minas Gerais.

e) da Bahia.

Resposta: A

Comentário:

Após receber o certificado de erradicação do sarampo em 2016, o Brasil vive desde 2018 um novo surto da doença em seu território, levando o país a uma corrida pela imunização da população e a reconquista do certificado de erradicação da doença. Porém, no caso dessa recente manifestação do sarampo no território brasileiro, deve-se analisar não apenas questões internas ao país, uma vez que se a doença havia sido posterior erradicada, esses casos estão relacionado à importação desse vírus proveniente de alguma outra nação, onde a erradicação ainda não havia ocorrido.

Inicialmente, em 2018, o principal foco da epidemia era a Região Norte do país, principalmente os estados do Amazonas e de Roraima, diretamente associado ao intenso fluxo de venezuelanos que atravessaram a fronteira com o Brasil no auge da crise econômica e política do país bolivariano. Porém em 2019 uma segunda leva de casos importados (segundo o Ministério da Saúde, principalmente de Israel, Malta e Noruega) foi confirmada e se espalhou rapidamente, dessa vez principalmente no estado de São Paulo, que concentrou mais de 95% dos casos (confirmados e suspeitos) da doença nos últimos meses.

Cabe mencionar que o fato de São Paulo ainda figurar na posição de maior centro econômico e comercial do país, o estado é a “porta de entrada” da maior parte dos estrangeiros que chegam ao Brasil, tornando, por conseguinte a “porta de entrada” dos casos de infecção por doenças muitas vezes já erradicadas no país. Embora em momentos atípicos (como na crise venezuelana) a região norte passe a ser essa “via de acesso” para estrangeiros infectados ou não.