sábado, 18 de abril de 2020

O RENASCIMENTO DO KRAKATOA


ANAK KRAKATOA

- Por Éder Israel


Localizado na porção sul da Ásia, entre o continente oriental e a Oceania, o Krakatoa e atualmente o Anak Krakatoa fazem parte de uma das regiões de maior atividade tectônica do mundo.

Disponível em: <http://www.esa.int/Space_in_Member_States/Portugal/Envisat_produz_o_mapa_global_da_Terra_mais_nitido_de_sempre> acesso em 17 abr. 2020

Vulcanismo

A erupção vulcânica ocorrida na região asiática do arquipélago de Sumatra no dia 11 de abril de 2020, e noticiada amplamente pela mídia internacional, fez ressurgir um grande fantasma tectônico do passado, rememorando a histórica e catastrófica erupção ocorrida no mesmo arquipélago no ano de 1883, considerada até hoje um dos maiores eventos desse tipo registrado na história. Naquela ocasião, no século XIX, houve uma combinação de eventos catastróficos, originados por uma grande erupção, acompanhada por uma grande explosão do edifício vulcânico e seguida pela formação de ondas gigantes (tsunamis) de grande magnitude. Em suma, um “apocalipse tectônico”...

Para entender os eventos de 1883 e lançar luz sobre os novos eventos de 2020, faz-se necessária a compreensão da dinâmica tectônica que envolve uma erupção vulcânica. O vulcanismo, enquanto processo, representa uma peça fundamental de regulação da dinâmica interna da Terra, posto que, permite a liberação da pressão acumulada nas camadas internas do planeta, impedindo seu colapso e consequente explosão. Muito mais importante que a liberação do magma do manto, é o equilíbrio das pressões interna e externa da Terra, e o vulcanismo, seja ele de edifício nos continentes e ilhas ou de fissura, nos fundos oceânicos é o agente responsável pro tal equiparação.

Vulcões como o Krakatoa são formados a partir do tectonismo terrestre, do qual deriva o movimento das placas tectônicas e a consequente deriva continental, que coloca as calotas litosféricas (placas tectônicas) sólidas em movimento sobre um grande mar de rochas derretidas, chamado Astenosfera, onde ocorrem as chamadas correntes de convecção, que movem essas enormes “balsas rochosas”. E a região onde se localiza essa formação vulcânica asiática faz parte de um complexo global, que concentra a maior parte de toda a atividade tectônica da Terra, chamada de Círculo de Fogo do Pacífico, onde se observa mais de 80% de toda atividade sísmica de grande dimensão na atualidade.


O Círculo (ou Anel) de Fogo do Pacífico se estende por toda a margem desse oceano, onde se encontram inúmeras fronteiras de placas tectônicas, sejam elas convergentes, divergentes ou tangenciais. Ali se concentram, por consequência, eventos geológicos de grande magnitude, causados por forças endógenas e processos orogenéticos.

Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Pacific_Ring_of_Fire.svg/1200px-Pacific_Ring_of_Fire.svg.png> acesso em 17 abr. 2020

Há uma relação direta entre os grandes eventos geológicos, uma vez que qualquer movimentação de placas tectônicas requer um novo ajuste e rearranjo das demais placas para que o equilíbrio da crosta seja restabelecido. Assim, há uma relação próxima entre o terremoto, seguido de erupção vulcânica, que ocorreu na Nova Zelândia, em dezembro de 2019 e a erupção observada agora em abril no sul da Ásia. Ambas as localidades se posicionam sobre o Círculo de Fogo do Pacífico, e a movimentação das placas que observou-se na Oceania está agora gerando acomodações na Ásia. Não se surpreenda se em breve surgirem notícias de terremotos ou vulcanismos na costa do continente americano, pois a movimentação geológica no continente asiático certamente causará repercussões na outra borda do pacífico num futuro não muito distante...

Krakatoa, 1883

Retomando o entendimento acerca do evento tectônico de abril de 2020, para compreender toda a atenção e preocupação da mídia e cientistas mundiais a respeito dessa nova erupção, ocorrida no vulcão Anak Krakatoa (que na tradução ao pé da letra significa “Criança Krakatoa”), faz-se necessário retornarmos ao final do século XIX e entendermos como se deu e quais os maiores impactos daquela que até hoje é considerada uma das maiores atividades vulcânicas da história recente da Terra.

A região onde se localizava o antigo Krakatoa corresponde a um arquipélago com várias pequenas ilhas entre Sumatra e Sunda, território indonésio. Como já mencionado anteriormente, esse arquipélago se posiciona sobre a zona de maior instabilidade da crosta, e qualquer movimentação de placas tectônicas, obrigatoriamente, implicará em acomodações nas bordas do oceano Pacífico. Naquele evento, a pressão acumulada as camadas internas da Terra se tornou demasiadamente grande, e a sua não liberação poderia levar a um grande colapso e consequentemente a uma explosão de ordem global. De modo metafórico podemos fazer a comparação abstrata do nosso planeta com uma grande panela de pressão, cujo interior encontra-se tomado por materiais muito quentes e comprimidos. Ora, se essa pressão se elevar indefinidamente dentro dessa panela, chegar-se-á a um nível tal que as paredes desse utensílio de cozinha se romperão e toda a energia acumulada ali dentro será liberada em um único instante, após uma grande explosão. Pois bem, digamos que os vulcões seriam as válvulas dessa imensa panela de pressão chamada Terra. Portanto, as erupções são normais, e mais do que isso, necessárias para o pleno funcionamento de nosso planeta.

Mas imagine que na última vez que essa panela de pressão foi usada, ela não tenha sido devidamente limpa e, materiais anteriormente fluidos se solidificaram dentro de sua válvula, entupindo-a... Na próxima fervura, quando a pressão interna se tornar muito mais alta que a externa, se essa válvula entupida não conseguir dissipar essa energia ali confinada, a panela explodirá. Assim se deu com o Krakatoa naquela ocasião. Após uma última erupção vulcânica ter liberado a pressão excessiva do manto, o último magma expelido acabou por se solidificar dentro do canal do vulcão, transformando-se em rocha sólida, de modo que essa rocha se transformou em uma espécie de “rolha”, causando o entupimento dessa “válvula”.

Em 1883 o canal (cujo nome correto é conduto vulcânico) por onde passaria o magma que o manto tentava expelir encontrava-se obstruído por rígidas rochas ígneas, impedindo a passagem dos materiais, e levando a pressão interna da Terra a níveis muito além da normalidade. Assim, com o aumento constante dessa pressão sob o edifício vulcânico, criou-se uma situação de colapso, levando a um fenômeno chamado “vulcanismo explosivo”, porém em uma escala muito além daquela conhecida. Com isso toda a ilha onde se situava o Krakatoa explodiu, liberando enfim a pressão acumulada e lançando pelos ares tanto os materiais que impediam o “funcionamento” do vulcão, como materiais expulsos pelo manto terrestre.



Após o grande evento explosivo de 1883, grande parte das ilhas vulcânicas do arquipélago do sul da Ásia foi completamente destruído, restando apenas ruínas daquilo que fora no passado um grande ponto de alívio das tensões internas da Terra sobre o Círculo de Fogo do Pacífico

Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69> acesso em 17 abr. 2020

A explosão desse evento eruptivo forçou a abertura do conduto vulcânico para a passagem do magma, lançando para a atmosfera uma grande quantidade de fragmentos de rochas, geologicamente chamadas de bombas vulcânicas, que alcançaram pelo menos 25 quilômetros de altura, tendo, segundo relatos da época, o som da explosão sido ouvido a pelo menos 5.000 quilômetros de distância. Juntamente com as bombas vulcânicas foram lançadas também para a atmosfera grandes quantidades de cinza vulcânica, que formou uma densa nuvem que praticamente circundou o planeta naquela faixa latitudinal. Essa densa nuvem de cinzas permaneceu por meses na atmosfera, tendo impactado diretamente na ação da radiação solar e no armazenamento de calor na Terra, o que ocasionou um dos invernos mais rigorosos no continente europeu no século XIX. Sem contar a elevação do grau de acidez das chuvas que passaram a cair, uma vez que grande parte desse material particulado continha enxofre.

Juntamente com a liberação de materiais particulados para atmosfera, grande parte da energia sísmica gerada pela explosão da ilha vulcânica foi transferida para a água oceânica, tendo se transformado em energia mecânica, passando a movimentar grandes massas de água a partir do arquipélago asiático, o que ocasionou a ocorrência de vários tsunamis, que se alastraram pelas águas em múltiplas direções, completando o conjunto de catástrofes do apocalíptico evento de 1883. As ondas que atingiram dezenas de metros de altura se espalharam pelas águas dos oceanos Índico e Pacífico, chegando mesmo ao outro estremo do grande oceano, na costa oeste da América. Como resultado da combinação de eventos de grande magnitude, estima-se que pelo menos 35.000 pessoas tenham perdido suas vidas no rastro de destruição gerado no final do século XIX.

Mas, embora as ilhas vulcânicas tenham sido literalmente riscadas do mapa com as sucessivas explosões e consequências desse evento, essa zona continua manifestando as forças internas do planeta, ao passo que o Círculo de Fogo do Pacífico segue como grande “válvula de escape” da energia produzida e acumulada no interior da Terra. Após os eventos de 1883, novas movimentações de placas tectônicas ocorreram e novas erupções vulcânicas de menor magnitude expeliram material magmático do manto sob as águas oceânicas, formando novas camadas de rochas sobrepostas, que futuramente dariam origem a novas ilhas e consequentemente novos edifícios vulcânicos. Nasce assim a “Criança Krakatoa”, ou simplesmente Anak Krakatoa.



A formação de novas pequenas ilhas no cenário de devastação de Krakatoa mantém a dinâmica interna da Terra em pleno funcionamento, ao passo que garante a manutenção do equilíbrio entre as camadas internas e internas do planeta. Mas o conhecimento do passado traz consigo o temor e a certeza de que os eventos de 1883 podem naturalmente se repetir na região.

Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69> acesso em 17 abr. 2020

Anak Krakatoa, 2020

As sucessivas erupções que ocorreram ao longo do século XX, decorrentes do ajustamento das partes que compõem a estrutura da Terra, reconstruíram, de certo modo, feições que haviam na região de Sumatra no século XIX, assim sendo, novas ilhas vulcânicas passaram a fazer parte do ambiente e lentamente, na velocidade do tempo geológico, a atividade vulcânica na região voltou à “normalidade”. Porém, trata-se de uma região instável, o que significa que a qualquer momento tudo pode mudar e eventos inesperados e desastrosos podem voltar a acontecer, e por se tratarem de eventos associados às forças endógenas da Terra, o homem não tem nenhum controle ou poder de evita-los ou amenizá-los.

A região de Sumatra já havia dado avisos consistentes de que grandes eventos poderiam estar próximos a acontecer, mas sabemos que eventos geológicos são matematicamente imprevisíveis e ocorrem de maneira instantânea e pontual. No ano de 2004, nessa mesma região da Ásia o mundo assistiu estarrecido à ocorrência de um grande tsunami, causado pela ocorrência de um maremoto em águas profundas, próximo ao litoral do Sri Lanka. Esse tipo de evento acontece sempre que há qualquer tipo de movimentação de placas tectônica, e como mencionamos anteriormente, a ocorrência de um evento causa obrigatoriamente a ocorrência de eventos subsequentes.

Como já referido, há uma relação direta entra a movimentação das placas tectônicas na Nova Zelândia em dezembro de 2019 com a ocorrência da erupção no Anak Krakatoa em abril desse ano, assim como esse evento tem relação direta com a erupção de um vulcão nas Filipinas em janeiro de 2020, um terremoto que atingiu Cuba, também em janeiro de 2020, outro na Turquia no mesmo mês, outro na China ainda em janeiro, mais um no oeste dos Estados Unidos em março desse ano, e até mesmo um que ocorreu na Itália ontem (16 de janeiro de 2020)... Passaríamos dias a fio aqui falando de terremotos e erupções recentes no mundo, e em comum eles teriam o fato de estarem todos ligados. Como afirmamos, quando uma placa se move em um lugar, todas as outras precisam se mover para compensar essa "mexida"...


Entre os dias 10 e 11 de abril de 2020, o vulcão insular, Anak Krakatoa expeliu lava e materiais incandescentes (fluxos piroclásticos) por 2 horas ininterruptas, quase 140 anos após o Krakatoa ter varrido o conjunto de ilhas no sul da Ásia com uma sequencia de eventos catastróficos de magnitude incalculável.

Disponível em: <https://i1.wp.com/www.news1.news/wp-content/uploads/2020/04/096633de99cc3c86684a6588e43031c5.jpeg?fit=1200%2C696&ssl=1> acesso em 17 abr. 2020

Durante a recente erupção no arquipélago do pacífico, o Anak Krakatoa expeliu uma densa nuvem de fumaça que atingiu pelo menos 15 quilômetros de altitude, que foi espalhada pelos ventos que varrem a atmosfera. Embora tenha tomado conta dos noticiários do mundo inteiro, essa atividade não foi a maior observada no Anak Krakatoa, pois em 2018 o mesmo vulcão entrou em processo magmático, seguido por um tsunami que atingiu o litoral da Indonésia, ceifando a vida de mais de 400 pessoas. O que preocupa de fato não é o tamanho dessa erupção em si, mas sim a recorrência desse tipo de evento, posto que é a segunda grande manifestação do tipo em apenas 16 meses. E segundo cientistas e geólogos, de concreto pode-se afirmar apenas que o pior ainda está por vir, pois afirmam que o poder destrutivo do Krakatoa filho é infinitamente maior que o do Krakatoa pai...  





domingo, 2 de fevereiro de 2020

CHUVAS NO SUDESTE: BELO HORIZONTE EM ESTADO DE ALERTA



Temporais no Sudeste do Brasil: Por que tem chovido tanto nesse início de 2020?

- Por Éder Israel


Disponível em: <https://jornalmontesclaros.com.br/wp-content/uploads/2020/01/climatempo69-624x400.png> acesso em 31 jan. 2020

Na região sudeste do Brasil, principalmente nas porções não litorâneas, o período de verão, configura-se como estação mais chuvosa, com precipitações concentradas principalmente entre os meses de outubro e março. Porém, no início de 2020 os índices pluviométricos se apresentam mais elevados que a média histórica da região.

Tradicionalmente a região Sudeste do Brasil apresenta elevada umidade durante o período de verão, estação marcadamente chuvosa do clima Tropical Semiúmido, predominante na região. Porém, o janeiro de 2020 tem apresentado anomalias climáticas que tornam os índices pluviométricos exageradamente elevados. Os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo sofrem com alagamentos constantes e milhares de pessoas desabrigadas, além de dezenas de pessoas que perderam suas vidas, em decorrência de deslizamentos de terras e inundações. Na verdade o clima na transição entre os anos de 2019 e 2020 tem apresentado graves alterações, e o que acontece no Brasil é apenas reflexo das condições climáticas globais.

Por se localizar em uma área de baixas latitudes, o território brasileiro se insere dinâmica da Zona de Convergência Intertropical - ZCIT, na qual os ventos alísios sopram das latitudes próximas aos trópicos em direção à Linha do Equador, transportando consigo a umidade que ocasiona abundantes chuvas na zona climática mais quente da Terra. Porém, as chuvas da ZCIT se concentram na região norte do país, não tendo relação direta com os temporais que ocorrem no Sudeste brasileiro. Como mencionado, as chuvas nesse início de ano nessa região se relacionam a anomalias climáticas, enquanto das chuvas da Amazônia fazem parte da normalidade da circulação global da atmosfera.

As chuvas torrenciais que castigam atualmente Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro são provenientes da elevada umidade trazida da região Norte do Brasil (borda sul da Amazônia), quando se forma a chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul – ZCAS, responsável por grande parte das precipitações que ocorrem nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país, principalmente durante os meses de verão. Porém, no início de 2020 a formação dessa zona de convergência se deu de maneira mais acentuada, o que ocasionou a ocorrência das chuvas torrenciais que castigam as populações que vivem nas regiões por ela afetadas

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Disponível em: <https://imagens.climatempo.com.br/climapress/galeria/2017/11/a35d6714e490a15aed32727deda862df.gif> acesso em 31 jan. 2020

A ação conjunta de centros de alta e baixa pressão atmosférica (1 e 2, no mapa) sobre o território brasileiro associada à chegada de uma frente fria proveniente da Antártida (3 no mapa) forma uma zona de intensa nebulosidade entre as regiões Sul e Nordeste, provocando elevação substancial da pluviosidade média nessa área.

A ZCAS se forma em decorrência das diferenças de pressões entre as regiões da América do Sul, criando um corredor de deslocamento de grandes quantidades de vapor de água da Amazônia em direção à região Sul, de modo similar ao que ocorre com a formação dos chamados “Rios Voadores”, porém em escala muito mais intensa e de repercussões muito mais severas. A ZCAS se associa com a formação de duas zonas de distintas pressões, sendo uma chamada de Alta da Bolívia (AB), e a outra chamada de Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN). Ambas as zonas atuam em combinação com a chegada de uma frente fria nas regiões litorâneas do Atlântico-Sul, criando as condições de instabilidade e elevada umidade no território nacional.

A Alta da Bolívia se caracteriza por ser uma zona de alta pressão atmosférica; portanto, anticiclônica (dispersora de ventos) que se forma na borda leste da Cordilheira dos Andes, próximo do Centro-Oeste do Brasil, impedindo a livre circulação do ar úmido que sai da Amazônia em direção à região Sul, desviando-o para o Centro-Oeste e para o Sudeste do país. Esse centro de alta pressão se estabelece em uma altitude média de 10 km, e se move no sentido anti-horário, criando uma espécie de corredor preferencial para os ventos úmidos amazônicos. Por outro lado, o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis se estabelece no Nordeste brasileiro, formando uma zona de baixa pressão atmosférica; portanto, ciclônica (receptora dos ventos). A movimentação desse vórtice se dá no sentido horário, sendo exatamente entre a AB e o VCAN o caminho percorrido pelas correntes de ar carregadas de umidade que se deslocam da Floresta Equatorial, e se encaminham para a porção Centro-Sul brasileira.

Como esse ar quente e úmido se desloca concentrado por essa rota preferencial, que a climatologia chama de “cavado atmosférico”, a tendência é que ocorram chuvas ao longo de sua movimentação, como normalmente acontece durante todos os verões no Centro-Sul. Porém, nesse início de 2020 um agravante acaba por acentuar esse quadro de normalidade, que é o fato de simultaneamente à atuação da AB e do VCAN ter chegado à costa brasileira uma frente fria, proveniente das águas frias da região antártica. O choque entre o ar quente e úmido proveniente da região Norte do país e o ar de baixas temperaturas proveniente do polo sul cria uma zona de instabilidade sobre a região Sudeste, levando à rápida e intensa condensação do vapor de água que se move pelo “cavado atmosférico”, ocasionando chuvas torrenciais nessa área.


Disponível em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhENetgM4u5HQ5tynMJnLXIppxnJSNX8t7XqdDOfdKviImApIUby9vtJykHfrGEpqI42o55ctOIxtwlr-9DLOGn_AmOEWQB1efQtjS5mg3tbHTko3UMLRgPoZe4JsEWoGbbFbwo8zUZWgy7/s1600/amaz.jpg> acesso em 31 jan. 2020

Na imagem de satélite as áreas demarcadas em branco representam locais onde a formação de nuvens se concentra, e consequentemente onde as possibilidades de chuvas são mais amplas. A faixa que se estende entre as regiões Sul e Nordeste corresponde à ZCAS, intensificada pela interação da Alta da Bolívia e o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis.

Faz-se necessário ter atenção a erros conceituais graves, que podem trazer incorreções na análise do quadro climático brasileiro nesse inicio de ano, posto que a maioria dos fenômenos ou anomalias de nosso clima seja sempre associada à ocorrência do el niño ou da la niña. Porém, dessa vez não é o caso. Embora a ZCAS possa ser influenciada diretamente por essas duas anomalias climáticas globais, de acordo com os cientistas da agência meteorológica dos Estados Unidos, chamado de Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês) o verão 2019 – 2020 apresenta quadro de neutralidade em relação a tais anomalias; ou seja, não estamos vivendo um el niño, tampouco uma la niña. Caso houvesse o estabelecimento de um el niño no atual período, seria mais difícil a formação da Alta da Bolívia, e consequentemente a ZCAS não teria intensidade para provocar tantas chuvas. Ao passo que no caso de uma la niña, a Alta da Bolívia seria muito mais intensa, e consequentemente a ZCAS traria possibilidades ainda maiores de chuvas na região.

Como resultado da atuação da ZCAS, observada em janeiro de 2020, os estados do Espírito Santo e Minas Gerais foram intensamente afetados por chuvas torrenciais, que provocaram perdas materiais e humanas, além de danos estruturais nas cidades afetadas. Inicialmente as cidades capixabas foram as mais afligidas; porém, após os primeiros dias de ocorrência do fenômeno, o estado de Minas Gerais passou a sofrer com muito mais intensidade os impactos das fortes chuvas de verão, principalmente na cidade de Belo Horizonte, onde os valores acumulados das precipitações desse mês ultrapassaram todas as médias anuais do último século, e as perdas humanas e materiais também se acumularam na mesma escala.


Disponível em: <https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/01/25/grafico-as-chuvas-em-minas.ghtml> acesso em 31 jan. 2020

O gráfico apresenta os volumes pluviométricos na cidade de Belo Horizonte, nos meses de janeiro de cada ano, de 1990 até 2020. A média geral de chuvas para esse mês foi de 329,1mm. Até o dia 25/01/2020 havia chovido cerca de 800mm (o valor atualizado para 29/01/2020 já era de 932,3mm), maior volume registrado para o mês nos últimos 110 anos de medições na cidade.

Por se tratar de uma grande metrópole, densamente povoada e com notáveis falhas estruturais, como a maioria das cidades brasileiras, os impactos dessas fortes chuvas concentradas em um curto período de tempo afetam direta e substancialmente as populações residentes, provocando além das mortes, alagamentos, deslizamentos de terra, quedas de barreiras e suspensão de serviços essenciais como a distribuição de água e eletricidade. O último levantamento de mortes até o dia 31/01/2020 informava que 55 pessoas perderam a vida no estado de Minas Gerais, e outras 10 no Espírito Santo, além de dezenas de milhares de desabrigadas e deslocadas pelas enchentes ou riscos geológicos em suas habitações.

A capital mineira tem sua situação agravada pela combinação entre o crescimento desordenado da cidade, que promove além da maciça impermeabilização do solo a ocupação de áreas de risco, como as vertentes e as várzeas, com a topografia da cidade, que se encontra encrustada entre serras e morros, recebendo grande parte da água escoada das áreas adjacentes, uma vez que a cidade encontra-se em uma altitude mais baixa que seu entorno. Como há córregos canalizados no perímetro urbano da cidade, e ali é “despejada” toda água proveniente dos aclives marginais da capital, seu transbordamento é quase que inevitável e as inundações urbanas se tornam fatos corriqueiros nos períodos mais chuvosos, acumulando-se prejuízos para o poder público e para a iniciativa privada.


Disponível em: <https://static-wp-eqi15-prd.euqueroinvestir.com/wp-content/uploads/2020/01/areas-de-chuva-em-bh-590x332.jpeg> acesso em 31 jan. 2020

Como o relevo provoca o escoamento de grandes volumes de água na direção de Belo Horizonte, e a ocupação imobiliária sem planejamento produziu habitações em locais de risco, seja por conta da inclinação superior a 30º (vertentes) ou pelo acúmulo de águas movimentadas pelo escoamento superficial (várzeas nas margens dos cursos hídricos), toda chuva concentrada tem elevado potencial de perdas e prejuízos na capital mineira.

Segundo pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, a tendência é que nas primeiras semanas do mês de fevereiro a ZCAS alterada permaneça sobre a região Sudeste, trazendo consigo o risco de novas chuvas para as áreas já atingidas no mês de janeiro, tendo possibilidade do aumento dos riscos de prejuízos humanos e materiais, especialmente no Espírito Santo e Minas Gerais. Após esse período a tendência é que a frente fria antártica perca força e passe a influenciar cada vez menos a região, reduzindo-se gradativamente as médias pluviométricas e os efeitos negativos das chuvas torrenciais, voltando a situação à normalidade no mês de março.

Mas, como mencionado anteriormente, em tempos de mudanças e anomalias climáticas, qualquer previsão do tempo dura apenas até ser contrariada pelas forças da natureza...


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

GLOBALIZAÇÃO X CORONAVÍRUS CHINÊS


2019-nCoV: A MAIS RECENTE AMEAÇA DE PANDEMIA GLOBAL

- Por Éder Israel


Disponível em: <https://img.freepik.com/vetores-gratis/mapa-mundial-com-tecnologia-global-ou-rede-de-conexao-social-com-ilustracao-vetorial-de-nos-e-nos_1284-1968.jpg?size=626&ext=jpg> acesso em 25 jan. 2020

Por mais que a propaganda vendida pelo ideário da globalização seja de que a integração entre povos e espaços atue como ferramenta fundamental para a diminuição das disparidades socioeconômicas, a realidade tem mostrado que, por vezes, mais que os benefícios da modernidade, os malefícios da vida moderna tem se aproveitado desse processo integracional.

No atual estágio do processo de globalização das sociedades, é natural que as distâncias que separam os espaços se apresentem cada vez mais reduzidas, em decorrência da evolução massiva e constante dos meios de transportes e telecomunicações. Embora as distâncias físicas continuem praticamente as mesmas de milênios atrás (o movimento das placas tectônicas provoca uma mudança irrisória nessas distâncias no tempo histórico), o tempo gasto para percorrê-las tem se tornado cada vez mais diminuto, e no caso das informações, essa distância é percorrida quase que de modo instantâneo.

Assim, a globalização passa a se basear cada vez mais nos chamados fluxos, que se estabelecem pelas ( e para as) relações entre os espaços e os indivíduos, outrora isolados ou muito afastados. Porém, da mesma maneira que há fluxos extremamente positivos, como das informações, das tecnologias, dos capitais (...), fluxos negativos também se ampliam de modo exponencial nos últimos anos, como das drogas, das armas, do tráfico sexual, das doenças (...). Desse modo, a globalização e a formação da chamada aldeia global tende a aproximar os lugares e povos, possibilitando-lhes acessos aos benefícios da vida moderna, mas trazendo consigo as mazelas da atual sociedade humana.

Com a crescente velocidade e a intensidade dos deslocamentos materiais e imateriais entre os espaços, o mundo vive sob a ameaça constante de que qualquer problema de saúde pública de uma nação (ou mesmo de uma cidade) rapidamente se espalhe a nível planetário, fazendo com que uma epidemia de determinada enfermidade tenha condições de se tornar rapidamente uma pandemia global. O mundo já experimentou sucessivas vezes essa sensação de preocupação e alerta nesse início de século XXI, quando várias doenças regionalizadas em determinados espaços nacionais se espalharam para outros países e mesmo continentes, causando temor de uma infecção mundial. Portanto, em um mundo em que praticamente não exista mais o isolamento das sociedades, qualquer sinal de alerta das organizações de saúde deve ser observado com total atenção.


Disponível em: <https://media.graytvinc.com/images/Coronavirus5.jpg> acesso em 25 jan. 2020

O anúncio de um caso de infecção por uma cepa desconhecida do Coronavírus na cidade de Wuhan, na China, coloca o mundo em alerta para o risco de uma pandemia que poderia se espalhar rapidamente pelo mundo.

A Organização Mundial da Saúde – OMS emitiu um alerta no dia 31 de dezembro de 2019 , depois que a agência de saúde do Estado chinês informou a existência de casos de uma grave e misteriosa síndrome pulmonar na cidade de Wuhan, na porção Centro-Leste do país asiático. Imediatamente foi recomendado ao governo chinês o isolamento dos pacientes e o início das investigações das causas da infecção. Já no início de janeiro de 2020 as autoridades sanitárias chinesas anunciaram que a infecção estava sendo causada por uma cepa, até então desconhecida, do Coronavírus, que foi identificada como 2019-nCoV.

O segundo passo foi a identificação da origem da contaminação. Segundo o governo da China, os primeiros infectados tinham em comum o fato de frequentarem um grande mercado de frutos do mar na cidade de Wuhan, o que levou o governo a definir esse mercado como possível foco inicial da contaminação. No mercado da cidade, além dos peixes e frutos do mar, são comercializados ilegalmente animais selvagens, consumidos como iguarias culinárias por parte da população chinesa, como galinhas, morcegos, coelhos e cobras. Esses animais passaram a ser considerados possíveis reservatórios do vírus, e as pesquisas se concentraram nessa ideia.

O Coronavírus é conhecido das autoridades internacionais de saúde, e possui cepas identificadas que podem causar desde resfriados simples até graves pneumonias, como as que são observadas atualmente na China. Segundo as agências sanitárias, essa cepa, até então desconhecida, é muito próxima daquela que causou, na própria China, a epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês) entre 2002 e 2003 e daquela outra que foi responsável pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês) a partir de 2012, principalmente na Arábia Saudita. Geralmente os Coronavírus permanecem em animais infectados, e em certos casos, o contato direto entre esses animais infectados e seres humanos leva à contaminação das pessoas.

No caso da MERS, acredita-se que dromedários infectados transmitiram o Coronavírus MERS-CoV para pessoas no Oriente Médio, e depois de mutações virais passou a haver o contágio entre os próprios seres humanos, tendo a doença se espalhado pela região, causando a morte de aproximadamente 300 pessoas nos países infectados. No caso da SARS, acredita-se que gatos-almiscarados (provavelmente contaminados por morcegos), vendidos em mercados de animais selvagens na China, transmitiram o Coronavírus SARS-CoV para pessoas no país, e depois passou a haver o contágio entre os seres humanos. Diferentemente da MERS, a SARS se espalhou em larga escala para fora da Ásia, tendo causado a morte de mais de 800 pessoas no mundo.

As autoridades de saúde da China acreditam que morcegos ou cobras comercializadas no mercado de Wuhan tenham contaminado as pessoas que circulavam pelo espaço, e posteriormente essas pessoas contaminadas passaram a levar o vírus para fora do centro comercial. Um dos grandes problemas a respeito da proliferação da epidemia é o fato de que a cidade de Wuhan é uma grande metrópole, de aproximadamente 11 milhões de habitantes (maior que a população de cidades como Rio de Janeiro ou Nova Iorque). Além de ser um importante entreposto ferroviário, que faz a ligação entre as províncias litorâneas industrializadas da China e o interior agrícola do país, sendo rota de passagem de milhares de pessoas diariamente, o que potencializa as chances de dispersão do vírus.

Portanto, a cidade que é o grande epicentro da infecção do Coronavírus 2019-nCoV é também um importante elo nos transportes e na circulação de pessoas, tanto entre as regiões da China, como daquelas que chegam ou partem do país. O aeroporto internacional de Wuhan possui voos semanais regulares para a maioria das grandes capitais da Ásia e da Europa, o que aumenta ainda mais a dimensão da possível transmissão global do novo vírus. Junto à confirmação da primeira morte por conta da nova síndrome pulmonar, no dia 09 de janeiro de 2020 vieram as confirmações de casos da doença fora da China, inicialmente na Ásia e posteriormente nos Estados Unidos, e mais recentemente Europa e Austrália.


Adaptado de: <https://ca-times.brightspotcdn.com/dims4/default/5c938d6/2147483647/strip/true/crop/1356x1080+0+0/resize/840x669!/quality/90/?url=https%3A%2F%2Fcalifornia-times-brightspot.s3.amazonaws.com%2Ffd%2Ffd%2F5476f23f4b6fb532b486ec9892b6%2Fw10-la-sci-coronavirus-china-spreading.png> acesso em 25 jan. 2020

Em 24 de janeiro de 2020 haviam sido contabilizadas infecções em 11 países (para fins metodológicos, consideraremos Taiwan e Hong Kong como países, embora não o sejam), com 1315 casos confirmados e 41 mortes registradas (no período de elaboração do infográfico acima, os casos da Austrália e da França ainda não haviam sido confirmados).

O fato de a economia chinesa crescer em ritmo acelerado, associado à produção e exportação industrial maciça do país faz com que todo e qualquer acontecimento naquela nação se espalhe com vultosa rapidez pelo cenário global, e tem sido assim com o Coronavírus 2019-nCoV. Porém cabe ressaltar que as mercadorias industriais exportadas pela China não representam risco de contaminação, posto que a infecção se dá principalmente através do contato com secreções de indivíduos já infectados, liberadas por exemplo pela tosse ou pelo espirro. Portanto, a priori, a contaminação advém do contato direto ou indireto com organismos vivos e seus “derivados”.

Com a confirmação de casos em outras nações, os governos começaram a estabelecer ações de fiscalização e controle de seus fluxos transfronteiriços, principalmente nos aeroportos e estações ferroviárias. Países como a Itália e os Estados Unidos, assim como a própria China, têm utilizado scanners corporais e termômetros infravermelhos para a medição da temperatura das pessoas que chegam de áreas consideradas de risco ou já infectadas, uma vez que um dos principais sintomas aparentes das infecções por Coronavírus é a febre. Assim, busca-se a criação de uma triagem de casos suspeitos já na chegada aos países, para que não haja possibilidade imediata de contágio.


Disponível em: <https://www.sbs.com.au/news/sites/sbs.com.au.news/files/podcast_images/a_thermal_sensor_checks_body_temperatures_to_screen_for_the_coronavirus_at_seoul_airport_korea_aap.jpg> acesso em 25 jan. 2020

Scanners dotados de sensores termo sensíveis são utilizados para identificar pessoas que apresentam febre no desembarque de aviões e trens provenientes de áreas de risco de contaminação, tanto dentro quanto fora da China. Identificar os casos de infecção com rapidez é vital para o socorro às vítimas e para controle da proliferação do Coronavírus 2019-nCoV.

No caso chinês, o Estado estabeleceu ações emergenciais de grande porte, principalmente vinculadas à contenção da proliferação do vírus, tendo sido decretado o estado de quarentena nas cidades de Wuhan (primeiro local da infecção) e nas vizinhas Huanggang e Ezhou, todas localizadas na província de Hubei. Nessas localidades, os sistemas de transportes públicos, assim como locais de grandes aglomerações humanas, tiveram suas atividades suspensas por tempo indeterminado a partir de 23 de janeiro de 2020. A busca dessa quarentena é evitar que o vírus se espalhe ainda mais.

Juntamente a essas ações de isolamento o governo chinês deu início também a grandes investimentos em estruturas destinadas ao controle e combate ao novo vírus. Como a metrópole de Wuhan encontra-se isolada pela quarentena, e seus hospitais já estão superlotados, é necessária a construção de novos centros médicos emergenciais para atender à demanda local. Assim, em 23 de janeiro iniciaram-se as obras de um novo hospital, com 1.000 leitos que serão dedicados exclusivamente ao tratamento dos casos da nova infecção. A previsão é que o hospital seja inaugurado em 3 de fevereiro, apenas 10 dias após o início das obras. Cabe ressaltar que em 2003, o ápice da epidemia do Coronavírus SARS-CoV, foi erguido em Xangai outro hospital emergencial também em apenas 10 dias para tratamento dos infectados.

Por hora existe um esforço global em prol de dois objetivos principais, sendo o primeiro a contenção da infecção pelo novo vírus, e o segundo é a busca de uma vacina contra essa nova cepa do Coronavírus. Um dos grandes problemas de cepas desconhecidas de vírus, como nos casos do MERS-CoV, do SARS-CoV e do 2019-nCoV é que como ainda não havia contato deles com o organismo humano, portanto, não possuímos imunidade natural a eles; assim, as vacinas se tornam vitais para reduzir as mortes e a infecção. As agências de saúde pública e centros de pesquisas sanitárias da China realizaram rapidamente o sequenciamento genético do novo vírus e o divulgou em um banco de dados público, permitindo que outros governos e principalmente laboratórios privados iniciem pesquisas a respeito de possíveis vacinas e tratamentos, uma vez que atualmente os pacientes estão sendo tratados com os antivirais existentes, de acordo com os sintomas apresentados.

Outra grande preocupação do governo do país asiático é com as festividades do ano novo do calendário chinês, comemoradas a partir do dia 25 de janeiro, quando centenas de milhões de pessoas circulam pelo país, durante o período de férias. Estima-se que nesse período ocorra o maio fluxo migratório do mundo contemporâneo, e em um quadro de grave epidemia como o atual, os riscos de contaminação seriam incalculáveis e o número de infectados poderia atingir cifras inimagináveis. Grandes cidades do país, como Pequim, cancelaram as comemorações (que durariam uma semana), o que deve se estender por grande parte do território nacional, principalmente após a declaração do Primeiro Ministro, Xi Jinping, que no dia 25 de janeiro afirmou publicamente que a situação nacional é séria e que o surto está se acelerando dentro da China.

Se essa nova contaminação pode ou não se tornar uma pandemia global, apenas a velocidade nos resultados das pesquisas acerca de tratamento e erradicação será capaz de responder. Mas, do mesmo modo dos episódios anteriores, como a SARS em 2003, o vírus H1N1 (gripe suína) em 2009, a MERS em 2012, o EBOLA em 2013, dentre outros, o mundo precisa cada vez mais estar em estado de alerta, posto que os fluxos materiais observados na moderna globalização intensificam todas as possibilidades de intercâmbio entre os espaços e os povos, e as doenças infectocontagiosas não se fazem exceção a essas circulações contemporâneas. Os vírus têm sofrido mutações em ritmo cada vez mais veloz e se espalhado para locais antes impensáveis, ao passo que contaminações têm se tornados epidemias com mais frequência, e o risco de pandemias se mostra cada vez mais real e próximo.

Obs: Por tratar-se de uma epidemia em crescimento, os números de casos confirmados e de mortes aqui mencionados estarão (infelizmente) menores que os números atualizados na data de publicação desse texto.

domingo, 26 de janeiro de 2020

TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ - Parte V



A ESCALADA NAS TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ

Parte V: Petróleo, poder ou votos?

Por Éder Israel


Disponível em: <https://media.washtimes.com/media/image/2019/06/19/6_192019_b3-thom-war-iran-gg8201.jpg> acesso em 12 jan. 2020

Em meio à escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, além dos interesses econômicos envolvidos com uma possível intervenção militar no Oriente Médio, devemos analisar também a componente política associada a tal contexto. 2020 é ano eleitoral na nação americana, e a mídia tem peso vital na corrida presidencial do país.

Donald Trump não alcançou a presidência dos Estados Unidos por conta de sua vasta carreira política [até porque ela não existe] e nem pela sua experiência em gestão pública [pois ela é tão grande quanto sua carreira política...]. O empresário bem sucedido, membro do Partido Republicano assumiu o poder após oito anos da administração Barack Obama, do Partido Democrata. Foi notória a ênfase social e diplomática dada às ações de governo durante a gestão Obama, e isso acabou criando uma certa insatisfação econômica na classe empresarial nacional. Eleger um homem de negócios se mostrava em 2016 uma boa alternativa para essa classe, e Trump era a pessoa certa para o projeto.

Trump foi eleito com um discurso nacionalista inflamado e entoando em toda oportunidade que tinha na mídia o slogan “Make America great again”. Era a versão republicana do “Yes, we can!” de Obama... Porém a “América grande novamente” representou um retorno à velha política republicana dos tempos de George W. Bush, em que o lobby das indústrias armamentistas [nas corridas eleitorais estadunidenses, apenas a indústria farmacêutica “doa” mais dinheiro para as campanhas...] muitas vezes direciona as decisões políticas internas (relativas ao direito civil de posse e porte de armas) e externas (relativas às intervenções militares em outras nações) [leia-se Oriente Médio]. Durante a primeira metade de seu governo, bastou ao presidente inflamar a “plateia” com as ações de retirar os Estados Unidos de acordo internacionais ou prometer barrar os mexicanos com um muro fronteiriço.

Mas quando a reeleição bate às portas, você precisa ir além dos discursos e alcançar ações efetivas. A classe empresarial não quer apenas aplaudir o presidente na TV, ela quer também ganhar dinheiro, e como a indústria armamentista é quem paga grande parte da brincadeira, ela precisa de conflitos para vender armas, ela precisa de instabilidades que criem rumores de guerra, que a população se sinta alarmada a ponto de precisar comprar mais armas para se sentir segura... Assim, o Oriente Médio é a região ideal para colocar essas ações em prática, pois uma região que vive em (semi)ebulição não requer tanta coisa para voltar a ferver.


Disponível em: <http://info7rm.blob.core.windows.net.optimalcdn.com/images/2017/12/06/trump-jerusalem.jpg> acesso em 13 jan. 2020

A mudança da embaixada estadunidense em Israel da capital Tel Aviv para a cidade de Jerusalém (em litígio por israelenses e árabes desde a fundação do Estado judeu) reacendeu disputas regionais entre esses dois grupos, e enfureceu grupos como o Hamas (que atua na Faixa de Gaza) e o Hezbollah (que atua no Líbano). Estava lançada a instabilidade midiática.

Aumentando-se as tensões no Oriente Médio a partir da transferência da embaixada em Israel, os Estados Unidos jugaram ser necessário o envio de mais aparato militar para a região, sob a justificativa de proteger os judeus dos árabes enfurecidos (e não se posicionar próximo às fronteiras do Irã, para uma possível intervenção...). A indústria armamentista, a sociedade conservadora estadunidense e o movimento sionista aplaudem a decisão. Mas a massa popular dos Estados Unidos [não confunda massa popular com  população pobre...] ficou receosa, pois os grupos árabes ameaçaram ataques e retaliações à essa ação. Faltava o governo combater um inimigo perigoso para que a população apoiasse o presidente que a manteve segura. Isso gera muitos votos...

Assim, no final de 2019, o exército dos Estados Unidos em resposta à população temerosa, realizou uma operação secreta no território da Síria, na qual foi morto Abu Bakr al-Baghdadi, líder do grupo terrorista Estado Islâmico (atualmente tratado como Daesh). A morte de al-Baghdadi fecha um ciclo de caçadas a lideranças terroristas árabes, iniciado pela Guerra ao Terror de George W. Bush a partir de 2001 [lembre-se que mencionamos que a política externa de Donald Trump é a retomada da Doutrina Bush...]. A operação militar estadunidense no território sírio reforça ainda mais a presença da potência ocidental no Oriente Médio, e os rumores de um conflito seguem aumentando mas ele não se inicia de fato.

Trump tem um dilema preocupante em sua cabeça, pois por um lado a pressão e o lobby da indústria armamentista reforçam a necessidade de intervenções militares de grande envergadura, mas por outro lado, a população [leia-se eleitores] criaram uma resistência a essas intervenções durante a Era Bush, em decorrência do elevado número de mortes de soldados nos campos de batalha do Oriente Médio durante a Guerra ao Terror. A preocupação de Trump deve ser praticar uma ação de deixe claro que haverá beligerância (o que agrada aos empresários e investidores de campanha), e em seguida fazer um discurso midiático, de que defende a liberdade, a democracia e a paz mundial (o que agrada a massa eleitoral estadunidense). E provavelmente será nesse processo que a inexperiência política do presidente pode fazer a situação fugir do controle.

Soma-se a esse dilema pré-eleitoral as acusações de que Donald Trump teria feito uso ilegal de suas atribuições presidenciais para pressionar mandatários e representantes políticos de outras nações, em especial o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ao qual solicitou em um telefonema que investigasse a família de Joe Biden, vice presidente de Barack Obama e pré candidato do Partido Democrata para uma possível disputa presidencial com Trump em 2020. Após virem a tona as acusações e os depoimentos comprovando o referido telefonema, foi aberto o processo que pede o impeachment do presidente estadunidense, tendo sido o mesmo aprovado pela câmara, mas dificilmente será aprovado pelo senado, onde os republicanos são a maioria. Mas o desgaste eleitoral foi estabelecido... Assim, entra em cena o perfil do político midiático moderno, o qual sempre que aparece um fato que coloca em cheque sua competência ou honestidade, busca a criação de um fato novo, uma notícia bombástica que ocupe todo o espaço na imprensa e lance uma cortina de fumaça sobre as acusações. Era preciso inundar os meios de telecomunicação com algo novo que tirasse o espaço das notícias do impeachment.


Disponível em: <https://www.counterpunch.org/wp-content/dropzone/2020/01/Qasem_Soleiman_in_NAC_conference.jpg> acesso em 13 jan. 2020

No início de 2020 o exército dos Estados Unidos realizou uma operação militar no território iraquiano, na qual foi morto o General da Guarda Revolucionária Iraniana, Qasem Soleimani, responsável pela Força Quds, uma divisão especial para a realização de operações secretas fora do Irã.

Segundo o governo dos Estados Unidos, Soleimani era responsável por ações terroristas realizadas pelo governo iraniano fora do país, além de prestar apoio a grupos como o Hamas, na faixa de Gaza e o Hezbollah, no Líbano. A morte do General iraniano seria a continuação da eliminação de lideranças inimigas aos estadunidenses, como Saddam Hussein (morto na administração Bush) Osama Bin Laden (morto durante a administração Obama) e Abu Bakr al-Baghdadi (morto durante a administração Trump). É o tipo de evento que causa grande comoção e demonstra que o governo do país está disposto a combater os inimigos que ameaçam à população, uma cortina de fumaça e tanto para tirar da mídia as acusações contra o presidente...

A justificativa para a ação militar realizada é de que o líder da força militar iraniana estaria no país vizinho planejando uma ação terrorista contra as tropas americanas, que se encontram no país desde a sua ocupação em 2004. Ora, Donald Trump supostamente realizou uma ação militar em território iraquiano, invadido pelos estadunidenses, para defender o Iraque de uma invasão do Irã [é tipo matar alguém para impedir que ele morra...]. Porém dessa vez o impacto seria ainda maior no Irã do que nos Estado Unidos. A notícia da morte do líder militar (terceira figura mais importante do país, abaixo apelas do aiatolá Khamenei e do presidente Hassan Rouhani) gerou grandes manifestações de apoio ao governo da República islâmica e de ódio ao governo estadunidense. A população e o governo iraniano exigiam uma resposta rápida e contundente ao assassinato.


Disponível em: <https://sa.kapamilya.com/absnews/abscbnnews/media/2020/afp/01/04/ayatollah-ali-khamenei.jpg> acesso em 13 jan. 2020

Há uma proximidade muito grande entre as lideranças políticas e religiosas iranianas, personificadas pelo aiatolá Khamenei na atualidade e as forças militares do país, principalmente a Guarda Revolucionária, criada pelo aiatolá Khomeini em 1979. Soleimani era uma das figuras mais fortes dentro do governo do Irã, e os desdobramentos de sua morte são ainda incertos.

A resposta militar do Irã veio logo em seguida, com o lançamento de mísseis contra bases militares no Iraque que abrigam tropas e equipamentos do exército dos Estados Unidos. Supostamente não houveram vítimas fatais, mas foi um prenúncio de que o governo Iraniano pode responder militarmente às ações empreendidas pelos estadunidenses no Oriente Médio. Entretanto, o fato de as ações das forças militares dos dois países estarem acontecendo no território iraquiano traz ainda mais instabilidade para a região. Relembre que iraquianos e iranianos já estiveram em guerra por 8 anos na década de 1980 e o conflito terminou sem nenhum vencedor...

Ainda em janeiro de 2020 a notícia da queda de um avião comercial ucraniano com 176 pessoas a bordo (todas morreram) no território iraniano lançou fortes suspeitas sobre as causas reais do evento. O Irã, responsável pelas investigações afirmou que uma falha mecânica havia causado a queda da aeronave, porém se recusou a entregar as “caixas pretas” com os dados do voo até a queda para a Boeing (fabricante da aeronave) ou para o governo dos Estados Unidos (país sede da fabricante do avião). O governo estadunidense afirmava que o exército da república islâmica teria derrubado a aeronave, o que foi negado com veemência pelo governo do país asiático. Dias depois, a TV estatal iraniana divulgou um comunicado, no qual o governo do país admitia que militares atingiram com um míssil o avião ucraniano por engano, provocando a sua queda e a morte de todos os passageiros e tripulantes a bordo.

Por um lado o governo do Irã afirma que investigará e punirá todos os responsáveis pelo ocorrido, por outro lado nações europeias exigem que o país asiático traga a público a verdade das investigações, sob a ameaça de impor novas e pesadas sanções aos iranianos e tem-se ainda a população, que começa a se manifestar nas ruas contra o governo, acusando-o de tentar esconder os fatos em relação à tragédia (grande parte dos passageiros do avião era iraniana). As manifestações populares se dirigem contra a figura do presidente do país, a liderança religiosa do aiatolá e contra as forças armadas, em especial a Guarda Revolucionária. Dadas as devidas proporções e diferenciações, foi exatamente assim que iniciou a onda de revoltas contra as lideranças políticas na chamada Primavera Árabe de 2011, com manifestações contra um governo autoritário e com apoio de nações ocidentais. Porém, apenas o tempo dirá se estamos prestes a ver uma nova guerra no Oriente Médio, ou mais uma ameaça que não se transforma em conflito ou ainda uma inimaginável “Primavera Persa”...


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ - Parte IV



A ESCALADA NAS TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ

Parte IV: Os efeitos da administração Donald Trump

Por Éder Israel


Disponível em: <https://www.kurdistantv.net/sites/default/files/2018-06/yyran_lydwanhkany_poempyoe_shbarht_bh_rybhr_w_hkwmhty_yymh_bybnhma_w_droeynn.jpeg> acesso em 12 jan. 2020

Durante a administração Barack Obama (2009 - 2017) a política externa dos Estados Unidos foi claramente centrada na diplomacia e no debate de temas de interesse comum, evitando em muitas oportunidades instabilidades internacionais. Porém, com a chegada de Donald Trump ao poder em 2017, a política externa do país se parece a cada dia mais com aquela empregada por George W. Bush a partir de 2001.

Após a ratificação do Acordo Nuclear do Irã em 2015, a situação geopolítica entre o país asiático e os Estados Unidos passou por um curto período de relativa tranquilidade, embora houvesse de ambos os lados a desconfiança se a contraparte iria ou não de fato respeitar seus compromissos, mas mesmo sem a materialização esperada, o contexto pós acordo foi bem menos turbulento que as rusgas e arengas entre Mahmoud Ahmadinejad e George W. Bush. Porém, a eleição presidencial de 2016 na potência americana iria ruir qualquer base, ainda que frágil, da politica externa e diplomacia estadunidense. Donald Trump trouxe na bagagem a combinação explosiva de inexperiência política com apreço midiático.

A administração Trump retoma o diálogo intervencionista em relação aos países do Oriente Médio, tendo como justificativa teórica a garantia da segurança e o reconhecimento do Estado de Israel, além da reedição da chamada Guerra ao Terror, visando teoricamente combater a ação de organizações terroristas que atuam na região. Mas sabe-se [como sempre se soube] que a quase totalidade das ações das potências ocidentais no Golfo Pérsico tem como interesse principal o controle a produção de petróleo para o mercado global. Portanto podemos afirmar que durante o governo George W. Bush a postura estadunidense se baseou no intervencionismo externo e nas ações militares, posteriormente o governo Barack Obama adotou uma política pautada no diálogo e na diplomacia, reaproximando os Estados Unidos do restante do mundo e na atualidade, o governo Donald Trump retoma a postura da Doutrina Bush e dá sinais claros que a política externa estadunidense retornará ao intervencionismo, e a instabilidade voltará [leia-se ampliará] ao Oriente Médio.

A postura adotada por Donald Trump em suas ações governamentais criou um conceito novo, popularizado pela Ciência Geográfica moderna, chamado “desglobalização”. Na verdade a tal “desglobalização” é aquilo que até alguns anos atrás era chamado de isolacionismo político, quando uma nação começa a romper acordos e compromissos internacionais e a adotar posturas políticas unilaterais, tal como fez George W. Bush ao invadir o Iraque sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU. É basicamente a mesma coisa que a administração Trump tem feito ao ameaçar intervir militarmente no Irã ou na Palestina, ou mesmo a decisão de transferir a embaixada estadunidense em Israel da cidade de Tel Aviv para Jerusalém, considerando formalmente a cidade em questão como capital do Estado judeu. Todas essas são posturas unilaterais, que no passado chamávamos de isolacionismo e no presente “gourmetizaram” sob o nome de “desglobalização”.



Disponível em: < https://media3.s-nbcnews.com/j/newscms/2018_31/2426121/180509-trump-iran-mc-742_1208f3ad933226f426421bd0f996a2a8.fit-760w.JPG > acesso em 12 jan. 2020

A atitude isolacionista [se preferir, desglobalizante] de Donald Trump se manifesta na assinatura de decretos que vão contra a ordem natural da integração global, como a saída do Acordo Nuclear do Irã (criado pelo P5+1), a saída do Acordo Climático de Paris (que ampliava as propostas do Protocolo de Kyoto), a saída do Conselho dos Direitos Humanos da ONU.

Quando os Estados Unidos formalizam em 2018 sua saída do acordo nuclear negociado a partir de 2013 com o Irã, o governo americano está oficialmente se desobrigando a cumprir os termos e responsabilidades assumidos quando da sua assinatura, que se referem à retirada das sanções econômicas nas relações comerciais com o país comandado pelo aiatolá Khamenei. Porém, a adoção de uma postura unilateral por uma das partes implica na adoção da mesma postura pela parte oposta, logo, o governo iraniano se vê também desobrigado a cumprir seus compromissos no acordo, que se referiam à redução do enriquecimento de urânio e à liberação da visita de inspetores internacionais. Ou seja, as sombras da incerteza novamente pairam sobre as intenções do programa nuclear da República Islâmica.

O modo de governar do presidente Trump deu origem novamente à troca de ofensas de ambos os lados [acalmada desde a saída da dupla Ahmadinejad e Bush do poder], lançando bases que trazem mais uma vez o contexto das intervenções ocidentais no Oriente Médio. Porém, como mencionado, a política externa unilateral adotada pela Casa Branca não favorece à criação de uma coalizão que una esforços em uma campanha militar, ou seja, se os estadunidenses quisessem de fato atacar o Irã teriam que fazer isso sozinhos [ou quase], com duas dúvidas latentes: a primeira, se o país asiático possui ou não armas atômicas [definitivamente não compensa pagar para ver...] e a segunda, se uma intervenção ocidental não poderia aproximar persas iranianos dos árabes do Oriente Médio, em uma força de resistência ou pior, em uma força de ataque contra Israel, aliado dos Estados Unidos. São muitas variáveis envolvidas para alguém arriscar dar o primeiro passo.

Na falta de comprovação acerca das motivações militares do programa nuclear iraniano, a potência americana precisa de outra justificativa na qual possa se basear para (re)impor as sanções econômicas e comerciais à República Islâmica e quem sabe para sustentar as motivações para uma intervenção militar, sem o aval do Conselho de Segurança da ONU. Trump recorre ao que já está pronto, à boa e velha Doutrina Bush... Lembre-se que o Irã foi colocado no chamado “Eixo do Mal”, grupo de nações que são acusadas de apoiar organizações terroristas; pois bem, o governo estadunidense passa a classificar a Guarda Revolucionária Iraniana [grupo de elite do exército do país] como organização que promove e apoia atos terroristas, e portanto teria que ser combatida pelos Estados Unidos, para que a paz e a segurança voltassem a reinar no mundo [é...].


Disponível em: <https://a57.foxnews.com/media2.foxnews.com/BrightCove/694940094001/2019/06/21/931/524/694940094001_6050822982001_6050822507001-vs.jpg?ve=1&tl=1> acesso em 12 jan. 2020
A importância estratégica do Estreito de Ormuz para o mundo dá ao Irã uma carta na manga valiosa para os embates geopolíticos do mundo moderno, posto que essa importante rota petrolífera tornaria muito fácil a realização de um bloqueio, que afetaria imediatamente o preço global do petróleo e toda a economia baseada nesse recurso.

Já em 2019 os Estados Unidos afirmaram que a Guarda Revolucionária Iraniana seria responsável pelos ataques a dois navios petroleiros que cruzavam o Golfo de Omã, próximo ao Estreito de Ormuz (importante rota comercial para o petróleo exportado pelo Golfo Pérsico). Como se trata de um ponto estratégico para a economia moderna, posto que por ali passe cerca de 30% de todo o petróleo consumido no mundo, o Irã, país com a maior zona costeira no estreito, ameaça frequentemente bloquear essa rota marítima, o que ocasionaria prejuízos desmedidos ao capitalismo. Sistematicamente as embarcações da força militar de elite iraniana são avistadas realizando manobras na região, o que aumenta ainda mais a constante tensão nessa área.

O grau da tensão se tornou ainda mais alto na semana seguinte aos supostos ataques aos petroleiros do Japão e da Noruega, quando um drone de vigilância dos Estados Unidos, avaliado em cerca de 120 milhões de dólares, foi abatido pela Guarda Revolucionária Iraniana, enquanto sobrevoava a região do Golfo Pérsico. Segundo a força militar do Irã, a aeronave invadiu o espaço aéreo iraniano, segundo os Estados Unidos a aeronave sobrevoava áreas externas aos domínios do Irã. Semanas depois, as forças militares iranianas barraram um petroleiro da Inglaterra, aliada histórica dos Estados Unidos em assuntos externos, sob o pretexto de a embarcação ter se envolvido em um acidente com um barco de pesca local. Após esse evento, uma instalação de refino de petróleo da Arábia Saudita foi atacada, supostamente por drones iranianos (porém o Irã alegou que os ataques partiram de rebeldes do Iêmen, que lutam contra o governo daquele país, apoiado pelos sauditas...), o que afetou severamente os preços internacionais do petróleo, e levaram os Estados Unidos a subirem o tom das ameaças [a Arábia Saudita, assim como Israel, representa uma base importante de apoio para os estadunidenses no Oriente Médio].


Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/19/US_Navy_061031-N-3901L-023_Sailors_from_Mobile_Inshore_Undersea_Warfare_Unit_One_Zero_Five_%28MUIWU-105%29%2C_board_a_plane_to_deploy_to_the_5th_Fleet_area_of_responsibility_%28AOR%29_in_support_of_the_global_war_on_terrorism.jpg/800px-thumbnail.jpg > acesso em 12 jan. 2020

O envio de novas tropas para a Arábia Saudita, importante aliado no Oriente Médio, faz parte da guerra midiática travada atualmente entre os Estados Unidos e o Irã. Desde a Guerra Fria, governos entenderam que muitas vezes a propaganda que se faz do tamanho de seu poder bélico é capaz de provocar efeitos mais devastadores do que sua utilização efetiva nos campos de combate.

Seja como for, é mais um capítulo na enxurrada de acusações entre os governos dos dois países, e o governo do Irã anunciou no final de 2019 que não se vê mais obrigado a cumprir os termos do acordo nuclear firmado em 2015, e que reativaria as unidades de enriquecimento de urânio e retomaria o programa nuclear nacional, supostamente para fins pacíficos, e alegadamente pelos estadunidenses como sendo para fins militares. Em resposta, o governo americano anunciou o envio de milhares de soldados para as bases que mantém na Arábia Saudita, ampliando os rumores de um conflito eclodir na região.

Continua...