quarta-feira, 10 de novembro de 2021

CORREÇÃO COMENTADA DE GEOGRAFIA UNICAMP 2022/1

 

 

Questão 39

Os benefícios da reciclagem são consideráveis e se situam para além de uma sensação de realização pessoal, advinda de uma responsável deposição de embalagens e demais produtos plásticos separados do restante do lixo. A figura a seguir registra o consumo e o destino de materiais plásticos nos Estados Unidos da América, o que não é muito diferente de outros locais ao redor do mundo.

De acordo com essa figura, o consumo de plásticos vem aumentando,

a) mas o percentual de plásticos que vai para os aterros sanitários vem diminuindo assim como os percentuais da reciclagem e da queima.

b) assim como o percentual de plásticos que vai para os aterros sanitários, pois há um aumento menor dos percentuais de reciclagem e de queima.

c) mas a quantidade de plásticos que vai para os aterros sanitários vem diminuindo devido ao aumento maior dos percentuais de reciclagem e de queima.

d) assim como a quantidade de plásticos que vai para os aterros sanitários, mesmo com o aumento dos percentuais de reciclagem e de queima.

Resposta: D

Comentário

O desenvolvimento econômico observado nas nações mundiais desde o fim do século XX promoveu a elevação dos padrões de compra, principalmente das populações dos países em desenvolvimento, o que afetou drasticamente as relações de produção e comércio em escala global. O início efetivo do consumo de uma parcela significativa da humanidade, combinado à afirmação da sociedade capitalista (consumista) promoveu a elevação da produção de mercadorias industriais e da geração de efluentes (resíduos) após o consumo dessas mercadorias. Nunca se produziu tanto lixo como na atualidade, e o grande problema é que as práticas sustentáveis, como a reutilização e principalmente a reciclagem, não acompanharam esse ritmo ascendente e a consequência disso é a maximização dos volumes de lixo que chegam diariamente aos aterros sanitários ou aos lixões das grandes aglomerações urbanas.

Correção

a) Incorreto, pois o gráfico mostra que assim como se deu o aumento da produção e da utilização do plástico pela sociedade moderna, houve também a ampliação da parcela desse efluente destinada aos aterros sanitários, chegando próximo a 25 milhões de toneladas em 2020.

b) Incorreto, pois apesar de ocorrer um aumento significativo da quantidade de plástico enviada para os aterros sanitários, chegando próximo a 25 milhões de toneladas em 2020, houve forte aumento na quantidade de plástico destinado à combustão para geração de energia (chegando próximo a 35 milhões de toneladas em 2020) e do plástico destinado à reciclagem (chegando a quase 40 milhões de toneladas naquele mesmo ano).

c) Incorreto, pois embora tenha ocorrido aumento nos percentuais de plástico destinado à reciclagem e à queima para a geração de energia, isso não impediu a ocorrência da elevação da quantidade desse material destinado aos aterros sanitários.

d) Correto, pois a elevação no consumo de plástico trouxe consigo a ampliação da destinação desse efluente para os aterros sanitários, apesar de no mesmo período abrangido pelo gráfico ter ocorrido elevações nas destinações para a reciclagem e para a incineração termelétrica, as quais não se mostraram capazes de absorver o volume total produzido.

Questão 41

A linha internacional de mudança de data é uma linha imaginária posicionada próximo ao meridiano de 180º ou diametralmente oposta ao meridiano de Greenwich, cortando o Oceano Pacífico. Uma característica dessa linha está na sua forma irregular, o que evita que um país tenha a mesma hora e dias diferentes, conforme ilustra a figura a seguir:

A partir da leitura do enunciado e da análise da ilustração, podemos concluir que:

a) um navio que parte do Japão em direção à costa oeste dos Estados Unidos, ao cruzar a linha internacional de datas, terá que notificar em seus registros que pulou um dia no calendário civil oficial.

b) cruzeiros turísticos podem antecipar a comemoração do Réveillon, ao cruzarem a linha internacional de datas na noite do dia 30 de dezembro, desde que este deslocamento se dê no sentido oeste.

c) um navio que parte da costa oeste dos Estados Unidos em direção ao Japão, ao cruzar a linha internacional de datas, terá que notificar em seus registros que atrasou um dia no calendário civil oficial.

d) cruzeiros turísticos podem antecipar a comemoração do Réveillon, ao cruzarem a linha internacional de datas na noite do dia 30 de dezembro, desde que esse deslocamento se dê no sentido leste.

Resposta: B

Comentário

O meridiano de 180º marca a longitude oposta (antípoda) ao Meridiano de Greenwich (0º). Tal meridiano é conhecido como Linha Internacional de Mudança da Data – LID, e estabelece o início da contagem dos dias nos calendários oficiais. Para evitar transtornos em regiões continentais a LID possui um traçado que corta apenas a águas do Oceano Pacífico, sendo o seu cruzamento possível apenas por rotas aéreas e marítimas. Por se localizar “do outro lado da Terra” a contagem do “tempo” ocorre “ao contrário” nessa linha em relação ao Meridiano de Greenwich; assim, ao cruzá-la de Leste para Oeste deve-se adiantar um dia no calendário, e ao cruzá-la de Oeste para Leste deve-se retroceder um dia no calendário.

Correção

a) Incorreto, pois a trajetória do Japão em direção à Costa Oeste dos Estados Unidos se dá no sentido Oeste para Leste e, portanto, o navio estaria retrocedendo um dia no calendário, e não avançando.

b) Correto, pois uma rota marítima de um navio de cruzeiro que cruze a LID no sentido de Leste para Oeste estará avançando um dia no calendário, e caso esse processo aconteça no dia 30/12, ao se atravessar a linha os passageiros estarão oficialmente no dia 31/12.

c) Incorreto, pois a trajetória da Costa Oeste dos Estados Unidos em direção ao Japão se dá no sentido Leste para Oeste e, portanto, o navio estaria avançando um dia no calendário, e não retrocedendo.

d) Incorreto, pois uma rota marítima de um navio de cruzeiro que cruze a LID no sentido de Oeste para Leste estará retrocedendo um dia no calendário, e caso esse processo aconteça no dia 30/12, ao se atravessar a linha os passageiros estarão oficialmente no dia 29/12 em não 31/12.

Questão 42

A posição latitudinal do continente africano faz com que ocorra uma diversidade de biomas. Os mapas a seguir indicam a localização e a extensão de quatro biomas com características distintas.

A partir do exposto e de seus conhecimentos sobre os fatores abióticos e bióticos dos biomas africanos, assinale a alternativa correta.

a) O Bioma 1 corresponde às formações florestais que se situam nas áreas de baixa latitude. Apresentam baixa diversidade vegetal, com predomínio de coníferas. Ocorrem em áreas com excesso de chuvas, elevadas temperaturas e solos profundos de boa drenagem.

b) O Bioma 2 abarca as formações mediterrâneas desenvolvidas em solos férteis, em climas com verão úmido e inverno seco. Sua fitofisionomia é formada por arbustos baixos, intercalados por gramíneas. As espécies são caducifólias por conta do período seco.

c) O Bioma 3 representa as áreas de desertos, que apresentam espécies xerófilas, associados a dois fatores: a corrente marítima fria que dificulta a evaporação da água do mar, e a zona de alta pressão nas médias latitudes, formada por anticiclones.

d) O Bioma 4 engloba as formações savânicas localizadas entre as florestas e os desertos. Ocorre em solos hidromórficos desenvolvidos em climas tropicais de sazonalidade bem marcada pela pluviosidade, resultando na formação de fitofisionomias abertas.

Resposta: C

Comentário

O continente africano assim como a América do Sul (em especial o Brasil) apresenta uma grande biodiversidade, decorrente sobretudo da combinação entre sua vasta extensão territorial e sua localização latitudinal, atravessando grande parte das porções equatorial e tropical. Apresentando essas condições é de se esperar que haja nessa região uma multiplicidade de biomas e formações vegetacionais, desde de áreas desérticas onde a aridez climática impõe severas restrições ao desenvolvimento de fauna e flora, chegando às exuberantes florestas equatoriais, como por exemplo a Floresta do Congo. Entre esses extremos vegetacionais múltiplos biomas e complexos se desenvolvem e se diferenciam obedecendo à lógica das condições edáficas diversas de cada faixa latitudinal.

Correção

a) Incorreto, pois o bioma representado no mapa número 1 corresponde à floresta equatorial africana, dotada de uma elevada biodiversidade e formada por vegetações do tipo latifoliadas, e não por coníferas, uma vez que essas são típicas de zonas de elevadas latitudes e climas muito frios.

b) Incorreto, pois o bioma representado no mapa número 2 corresponde às formações mediterrânicas, adaptadas aos climas costeiros de duas estações bem definidas. Ali os verões são secos e os invernos são chuvosos, os solos são de baixa fertilidade e as plantas apresentam certo grau de xeromorfismo, como adaptação aos períodos secos prolongados, destacando-se os Garrigues e Maquis.

c) Correto, pois o bioma representado no mapa número 4 corresponde às formações desérticas e semidesérticas, tanto na área do deserto do Saara, ao Norte (formado em decorrência das altas pressões atmosféricas - anticiclonais), quanto do Deserto do Kalahari, ao Sul (formado em decorrência da corrente marítima de Benguela, que traz águas frias do Círculo Polar Antártico). As formações vegetais apresentam xeromorfismo para se adaptar aos climas muito quentes e secos

d) Incorreto, pois o bioma representado no mapa número 4 corresponde às formações savânicas, típicas de áreas tropicais interioranas e formadas por vegetações tropófilas (adaptadas à sazonalidade das chuvas, que se concentram no verão). Porém os solos dessa região são principalmente do tipo latossolo, profundos e intensamente lixiviados, apresentando baixa fertilidade natural. Já os solos hidromórficos são típicos de zonas alagadiças, como são no Brasil o Pantanal e a Amazônia.

Questão 43

Na economia do Chile, entre outros aspectos, destacam-se as indústrias vitivinícola, agrícola, pesqueira e mineira. Houve um ciclo muito forte de exportação de matérias primas que produziu um grande crescimento econômico, no chamado “milagre chileno”, a partir dos anos 1980. Segundo o Banco Mundial, o paradoxo foi o aumento brutal da desigualdade. As consequências surgiram em 2019, com protestos sociais que culminaram com uma Assembleia Constituinte para rever a Constituição vigente, ainda um resquício do período da ditadura.

Sobre a formação socioespacial chilena, é correto afirmar que

a) pratica a vitivinicultura na Patagônia, extrai bauxita no Atacama, conta com uma economia bastante centrada no Estado e as privatizações foram generalizadas.

b) extrai cobre da Patagônia, pratica a salmonicultura no Atacama, conta com uma economia bastante centrada no mercado e as privatizações só atingiram o setor do petróleo.

c) pratica a carcinicultura na Patagônia, extrai ouro do Atacama, conta com uma economia centrada nas empresas estatais e as privatizações foram inexistentes.

d) extrai cobre do Atacama, pratica a salmonicultura na Patagônia, conta com uma economia bastante centrada no mercado e as privatizações foram generalizadas.

Resposta: D

Comentário

O Chile se destaca no presente como uma das nações de mais elevado Índice de Desenvolvimento Humano – IDH na América do Sul, embora em termos produtivos o país andino não apresente um dos maiores PIB dessa região americana. Limitações climáticas, como vastas extensões geladas na porção Sul (Patagônia) ou demasiadamente quentes e secas, na porção central (Deserto do Atacama), bem como limitações territoriais, em decorrência da pequena extensão longitudinal de seu espaço e por conta de grande parte da faixa Oeste ser ocupada pela Cordilheira dos Andes, dificultam o pleno crescimento da geração de riqueza econômica na nação. Porém, apesar disso (ou em decorrência disso) o país apresenta uma economia diversificada, cuja somatória de várias atividades diferentes compõem a relativa riqueza nacional e sustentam a comparativamente alta qualidade de vida. A aproximação com os Estados Unidos durante a Guerra Fria foi outro fator importante para o crescimento econômico observado na década de 1980, quando o regime ditatorial do país abriu a economia ao capital estadunidense e o PIB nacional cresceu substancialmente, embora não de modo totalmente sustentável.

Correção

a) Incorreto, pois o clima gélido da Patagônia limita severamente às atividades agrícolas, e no Deserto do Atacama o país extrai principalmente cobre e sal. Embora as privatizações sejam de fato um traço marcante da economia chilena hoje.

b) Incorreto, pois o cobre é extraído principalmente da região do Deserto do Atacama, onde o clima árido impede práticas relacionadas à agricultura ou criação comercial de animais. É errado ainda associar as privatizações ao setor petrolífero, uma vez que o país não apresenta destaque na extração desse recurso.

c) Incorreto, pois a carcinicultura se adapta melhor a águas de temperaturas mais elevadas, diferente do que se observa na Patagônia, bem como não há extração de ouro, mas sim cobre e sal no Deserto do Atacama. É também errado afirmar que no Chile as políticas de privatização foram inexistentes.

d) Correto, pois no Deserto do Atacama o Chile extrai grandes quantidades de cobre e sal voltados à exportação, bem como nas águas frias da Patagônia ocorre a salmonicultura em larga escala. A economia apresenta diversificação para driblar as limitações internas, e as privatizações foram intensas após a implementação do Neoliberalismo, a partir da década de 1980.

Questão 44

BRASIL – Evolução da participação relativa das exportações por fator agregado (2005-2015)

O gráfico anterior indica a tendência de reprimarização do território brasileiro, processo este derivado

a) do declínio da produção e exportação de commodities agrícolas em virtude do avanço da quarta revolução industrial.

b) do crescimento do mercado interno para produtos industrializados de maior valor agregado, em detrimento das exportações.

c) da maior participação de commodities na pauta exportadora paralelamente ao declínio da exportação de produtos industrializados.

d) da estagnação da pauta exportadora de produtos semimanufaturados em virtude do crescimento das commodities minerais.

Resposta: C

Comentário

Desde o início do século XXI a economia brasileira acentuou o processo de expansão das exportações de commodities, principalmente para o mercado chinês, dando origem ao que os teóricos batizaram de reprimarização da economia. As exportações de produtos agrícolas e recursos minerais se tornaram mais marcantes que as de produtos manufaturados e semimanufaturados, em relação ao valor agregado final na composição do PIB nacional. Embora o valor unitário das commodities seja menor que o valor unitário dos bens industriais, o grande volume total de produtos exportados faz com que o setor primário (agricultura, extrativismo e mineração) represente hoje quase metade da pauta de exportações do Brasil.

Correção

a) Incorreto, pois a produção e a exportação de commodities agrícolas no Brasil não sofreu declínio, mas sim expansão a partir da abertura do mercado chinês para os gêneros alimentícios e minerais brasileiros.

b) Incorreto, pois o gráfico não permite analisar questões ligadas ao mercado interno brasileiro, mas sim em relação às exportações. Além disso, o crescimento das exportações no início do século XXI foi amplamente maior que a expansão dos mercados internos brasileiros.

c) Correto, pois a ampliação massiva da exportação das commodities trouxe consigo a elevação da renda interna do Brasil e consequentemente o aumento do poder de compra da população, elevando (em menor escala) o consumo interno de produtos industriais e tornou a pauta de exportações muito mais primária do que secundária.

d) Incorreto, pois a exportação dos produtos semimanufaturados pelo Brasil se manteve estagnada ao longo de todo o período do gráfico (2005 a 2015), não tendo associação direta com a reprimarização observada a partir de 2009, quando enfim as commodities superaram os produtos manufaturados.

Questão 45

O mapa a seguir apresenta países com mais de 5 milhões de habitantes vivendo em favelas (ou outras formas de habitação precária).

Com base nas informações do mapa e em seu conhecimento sobre a população urbana que vive em habitações precárias e favelas, assinale a alternativa correta.

a) Em grande parte dos países da África Subsaariana, mais de 60% da população urbana vive em favelas ou habitações precárias, um problema social decorrente, entre outros fatores, da inserção do continente na divisão internacional do trabalho.

b) Na América Latina, entre 5% e 20% da população urbana vive hoje em favelas ou habitações precárias, o que deixou de ser um problema social por conta da industrialização da região no século XX e da disseminação de políticas públicas.

c) A forte desaceleração da urbanização na China e na Índia nesta década, associada a políticas públicas, tem levado à diminuição das habitações precárias nesses países, ainda que os números absolutos de moradores em condições precárias continuem elevados.

d) A habitação precária não se coloca como uma questão social importante nos países do Oriente Médio, uma vez que há volumosos investimentos em políticas públicas para o setor da habitação, financiados com recursos obtidos da exploração do petróleo.

Resposta: A

Comentário

O processo de urbanização acontece de modo paralelo à industrialização e à modernização agrícola das nações, sendo por isso dependente da quantidade de capitais disponíveis para o investimento bem como da implementação de políticas públicas eficientes e capazes de reduzir as discrepâncias e as desigualdades surgidas durante a transição das populações do meio rural para o meio urbano. Um dos mais graves e marcantes problemas urbanos é a favelização, que decorre da exclusão socioespacial de parcelas significativas das populações das cidades, que são marginalizadas em zonas periféricas e não dotadas das condições mais básicas para uma vida digna. Nações menos desenvolvidas tendem a ter um processo de urbanização mais acelerado e menos planejado, trazendo para suas populações piores condições de vida.

Correção

a) Correto, pois nas nações da África Subsaariana as economias são marcadamente pobres e sua inserção tardia e desigual na Divisão Internacional do Trabalho - DIT as coloca em condição de fornecedores de commodities de baixo valor agregado, e consequentemente incapazes de realizar os investimentos necessários para melhorar as condições de vida de suas populações.

b) Incorreto, pois embora na América Latina a maioria das nações apresentem percentuais entre 5% e 20% de pessoas habitando favelas, esse ainda é um grave problema dessa região, e a falta ou ineficiência das políticas públicas torna essa questão um dos grandes responsáveis pela baixa qualidade de vida de suas populações.

c) Incorreto, pois em nações emergentes como China e Índia os processos de urbanização ocorrem de maneira acelerada nas últimas décadas, principalmente em decorrência da industrialização desses países, que direciona grandes fluxos migratórios do campo em direção às cidades, agravando ainda mais as já precárias condições de vida nessas áreas.

d) Incorreto, pois o grande problema de muitas nações do Oriente Médio é a marcante presença de governos autoritários, que manipulam as informações e muitas vezes nem mesmo as divulga (como “observado” nos mapas), o que torna impreciso qualquer entendimento das reais condições de vida de suas populações. Sabe-se que apesar dos vultosos ganhos referentes à exportação de petróleo, esse capital é restrito a uma pequena parcela da população, muitas vezes ligada ao governo, não incidindo de maneira positiva no cotidiano das populações urbanas.

Questão 46

Os quilombos, espaços da resistência e da insurgência negra desde a sua origem, foram criados como estratégia de enfrentamento ao sistema escravocrata. Nos processos de resistência e sobrevivência dos quilombos que chegam aos dias atuais, as relações culturais, as identidades e os conflitos têm como elemento central os territórios, tensionados por interesses ilegítimos e inconstitucionais de terceiros em disputa pela propriedade da terra. Pouco se divulga que existem, atualmente no território brasileiro, aproximadamente 3.500 comunidades quilombolas que guardam um sentimento de pertença a um grupo e a um lugar. Estão distribuídas por todas as regiões do país, com destaque para os estados do Pará, Maranhão, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

Sobre a demarcação e titulação das terras quilombolas no Brasil, é correto afirmar que teve início com a

a) lei de Terras de 1850; avançou na segunda metade do século XIX, especialmente após a abolição da escravatura e a institucionalização dos territórios quilombolas rurais.

b) Constituição de 1988; ainda está em curso o processo de demarcação e poucos territórios quilombolas (rurais e urbanos) receberam a titulação da propriedade até o momento.

c) lei de Terras de 1850; na ocasião, foram demarcados os territórios rurais quilombolas, uma vez que não havia trabalho para homens negros e mulheres negras nas cidades.

d) Constituição de 1988; na década passada, por meio de políticas públicas, foi finalizada a demarcação e a titulação dos territórios quilombolas rurais, ficando pendente a titulação dos quilombos urbanos.

Resposta: B

Comentário

Questões referentes aos povos tradicionais do Brasil, representados por Quilombolas, Caiçaras e Indígenas, correspondem a um assunto que foi protelado ao longo de séculos, produzindo um grave quadro de exclusão social e sentimento de não pertencimento desses grupos no contexto socioeconômico nacional.  Até a promulgação da Constituição Federal de 1988 não havia uma política formalmente definida para esse tema, e mesmo após a promulgação da Carta Magna pouco se avançou, principalmente na delimitação das terras e concessão de títulos de posse e propriedade para esses povos, que vivem muitas vezes ainda na chamada invisibilidade social.

Correção

a) Incorreto, pois a Lei de Terras de 1850 serviu principalmente para ampliar o quadro de exclusão de parcelas desses grupos tradicionais, uma vez que estabeleceu as bases para a limitação do acesso à terra pela população de mais baixa renda, marginalizando ainda mais muitos indivíduos historicamente excluídos.

b) Correto, pois embora legalmente a Constituição Federal de 1988 determine a obrigatoriedade do Estado em reconhecer os grupos de povos tradicionais e demarcar as áreas onde vivem, transferindo-lhes títulos de posse e propriedade, ainda hoje pouco se avançou na afirmação desse dispositivo, principalmente pelo choque de interesses referentes a essas terras por vários grupos sociais no Brasil.

c) Incorreto, pois com a Lei de Terras de 1850 a propriedade de áreas rurais no país se tornou substancialmente valorizada e importante politicamente, uma vez que passou a representar de modo mais cristalino o poder político de quem as possuía, e isso fez com que a terra se tornasse um bem praticamente inalcançável para grandes parcelas da população brasileira.

d) Incorreto, pois apesar de a Constituição Federal de 1988 trazer em sua redação as propostas para a demarcação de terras para os povos tradicionais, muito do que ali é escrito ainda não se materializou de fato para esses grupos, tanto aqueles que habitam espaços urbanos quanto aqueles que vivem em espaços rurais.

Questão 47

A Serra do Mar se estende paralelamente ao litoral por cerca de 1.500 km, desde o vale do Rio Itajaí (SC) até a região de Campos dos Goytacazes (RJ). Trata-se de um conjunto de escarpas controladas por falhas e com graus diferenciados de dissecação, que finaliza o Planalto Atlântico na linha de costa com um horst.

A configuração da Serra do Mar pode ser observada nos perfis a seguir, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir dos seus conhecimentos sobre os aspectos geológicos e geomorfológicos da Serra do Mar, indique a alternativa correta.

a) A Serra do Mar é formada predominantemente por áreas falhadas compostas por rochas basálticas. A origem dessas rochas está relacionada à ruptura das placas tectônicas, o que resultou na abertura do Oceano Atlântico.

b) A Serra do Mar é formada por rochas sedimentares que apresentam, em sua estrutura, falhas e fraturas. No período chuvoso, a infiltração aumenta o peso do material, desencadeando processos gravitacionais denominados movimentos de massa.

c) A Serra do Mar originou-se com a ruptura das placas tectônicas sul-americana e africana, que ocasionou um conjunto de blocos falhados (soerguidos e rebaixados), formando ilhas, pois os grabens foram recobertos pela água do mar.

d) A Serra do Mar tem sua gênese associada a processos similares à origem da Cordilheira dos Andes, que, com a convergência das placas sulamericana e africana, ocasionou a formação de dobramentos e falhamentos hoje estabilizados.

Resposta: C

Comentário

A formação do relevo brasileiro decorre da combinação de dois processos distintos, sendo um geológico e antigo, relacionado à movimentação das placas tectônicas e dos eventos resultantes na crosta, e outro geomorfológico, relacionado à atuação dos elementos climáticos, promotores do intemperismo e erosão que promovem o desgaste das antigas estruturas expostas. No caso da Serra do Mar, que margeia os litorais Sul e Sudeste, sua origem primária se encontra na separação entre as placas Sul-americana e Africana, ao passo que sua conformação recente se associa ao desgaste promovido sobre essa base, principalmente em decorrência dos climas úmidos dessa porção territorial.

Correção

a) Incorreto, pois A Serra do Mar é formada basicamente por rochas ígneas intrusivas e rochas metamórficas, e não por rochas basálticas (extrusivas). Essas últimas são recorrentes principalmente em regiões onde houve intensa atividade vulcânica.

b) Incorreto, pois as formações predominantemente sedimentares do Brasil se concentram principalmente nas regiões mais interioranas do país, onde se observam relevos planálticos em formas tabuliformes (chapadas), como no caso do Cerrado.

c) Correto, pois foi a partir da fragmentação da Gondwana, no período Mesozoico, que houve a separação entre África e América do Sul, e a consequente abertura do Oceano Atlântico. Dessa ruptura nasceram as falhas geológicas, que pelo princípio da isostasia se moveram verticalmente, mantendo as partes mais leves elevadas (horst) e as mais pesadas rebaixadas (graben).

d) Incorreto, pois a origem da Serra do Mar se deu por ação de esforços epirogenéticos, que promoveram o soerguimento de porções interioranas das placas (hoje estabilizados); enquanto a formação da Cordilheira dos Andes se deu pela ação de esforços orogenéticos, que promovem o soerguimento de porções marginais onde há contato convergente entre placas tectônicas (ainda hoje muito instáveis).

Questão 68

A estiagem prolongada no Pantanal, devido às fracas temporadas de chuvas em 2019 e 2020, criou condições para a manutenção e propagação do fogo, e para o menor nível de inundação do Pantanal dos últimos 50 anos.

Considerando as informações fornecidas e seu conhecimento sobre os biomas, é correto afirmar que

a) a pluviosidade sobre os rios da bacia do rio Paraguai é determinante para as inundações do Pantanal, um bioma com misto de vegetações de floresta, cerrado e campo. A produtividade primária do bioma, devido à conversão de luz solar em energia e biomassa, dá suporte para os demais níveis tróficos.

b) a pluviosidade sobre os rios da bacia do rio Cuiabá é determinante para as inundações do Pantanal, um bioma com misto de vegetações de floresta, cerrado e caatinga. A produtividade primária do bioma, devido à conversão de luz solar em energia e matéria orgânica, dá suporte aos animais endêmicos.

c) as chuvas sobre os rios da bacia do rio Paraguai são importantes para o ciclo de alagamento do Pantanal, um bioma com misto de vegetações de floresta, cerrado e caatinga. A produtividade secundária do bioma, com a conversão de luz solar em energia e biomassa, dá suporte para os demais níveis tróficos.

d) as chuvas sobre os rios da bacia do rio Cuiabá são importantes para o ciclo de alagamento do Pantanal, um bioma com misto de vegetações de floresta, cerrado e campo. A produtividade secundária do bioma, com a conversão de luz solar em energia e matéria orgânica, dá suporte aos animais endêmicos.

Resposta: A

Comentário

Nos últimos anos as regiões do Pantanal e do Cerrado sofrem com intensos e prolongados períodos de estiagens anormais, decorrentes da combinação de aspectos antrópicos, com destaque para as queimadas e incêndios observados no território nacional (principalmente na região amazônica) e aspectos naturais, devido à ocorrência de períodos de El Niño e La Niña mais rigorosos que de costume. A redução drástica das precipitações por conta das anomalias atmosféricas e da queda na evapotranspiração pelo desflorestamento cria um ambiente propício para a proliferação de focos de queimadas, afetando severamente a já frágil biodiversidade pantaneira.

Correção

a) Correto, pois o Pantanal se insere na região das terras baixas da Bacia do Rio Paraguai, que recebe águas das regiões adjacentes e permanece inundado durante a estação chuvosa do verão, uma vez que se insere na zona do clima Tropical Semiúmido. Apresenta, como todo ecótono, um mosaico de paisagens, com espécies típicas de quase todos os biomas do Brasil.

b) Incorreto, pois a bacia onde se circunscreve o Pantanal é a do Rio Paraguai, e não do Rio Cuiabá, bem como não se observa nesse complexo vegetacional formações de Caatinga, embora existam ali espécies rarefeitas desse bioma semiárido.

c) Incorreto, pois apesar das inundações da Bacia do Rio Paraguai serem decisivas para o alagamento sazonal do Pantanal, o que sustenta os demais níveis tróficos ali presentes é a produção primária de energia e matéria orgânica a partir da fotossíntese, e não a produção secundária. Bem como não há formações, mas sim espécies, da Caatinga nessa formação.

d) Incorreto, pois o Pantanal é alagado pelas inundações na Bacia do Rio Paraguai, e não do Rio Cuiabá, bem como a conversão de radiação solar em energia e matéria orgânica se relacione à produção primária e não à secundária.

Obs: A classificação das formações vegetacionais do Pantanal se enquadra muito mais em um Ecótono ou Faixa de Transição (em decorrência à multiplicidade de espécies diferentes ali presentes). O termo “Bioma” se mostra mais coerente em formações onde se observe claramente um padrão botânico definido na vegetação como um todo. Porém essa discordância conceitual não invalida a questão.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O QUE A CHINA PRETENDE COM SUAS NOVAS POLÍTICAS?

 

A DOUTRINA DA PROSPERIDADE COMUM NA CHINA

 Prof. Éder Israel

O governo chinês afirma que hoje um grupo minoritário acumula para si os capitais que poderiam melhorar a vida da população do país como um todo

Disponível em: <https://www.kinea.com.br/blog/o-planejador-central-e-a-prosperidade-comum-%E5%85%B1%E5%90%8C%E5%AF%8C%E8%A3%95-o-que-esta-acontecendo-na-china-parte-ii/> acesso em 03 Nov. 2021

A partir do último quarto do século XX a China passou a apresentar um ritmo de crescimento econômico muito superior à média mundial, principalmente em decorrência de reformas e modernizações implementadas sob o comando de Deng Xiao Ping, que assumiu o poder do país após a morte de Mao Tse Tung em 1976. Embora membro do Partido Comunista Chinês - PCCh, Xiao Ping divergia da visão econômica de seu antecessor, principalmente da irredutibilidade de Mao em relação ao modelo socialista. Naquele período a resistência do então líder chinês em continuar com um modelo sistêmico que já apresentava crises na própria União Soviética, de onde se originara, trouxe para a China o atraso econômico acompanhado pelo isolamento político, que determinou ao país um crescimento muito inferior ao seu real potencial.

A estratégia adotada por Deng Xiao Ping deu origem ao Socialismo de Mercado, um sistema híbrido onde se mesclavam as bases políticas autoritárias do Socialismo com a abertura da economia aos investimentos externos do Capitalismo. Nesse modelo, que produziu no país asiático uma Perestroika desacompanhada de sua respectiva Glasnost, houve uma rápida modernização do quadro econômico através da industrialização concomitante à urbanização, ambas tendo ocorrido de modo absolutamente acelerado, o que obviamente deu origem a discrepâncias regionais muito visíveis, principalmente no âmbito da qualidade de vida da população.

Com a abertura da economia para os investimentos estrangeiros, materializados pela chegada de multinacionais atraídas por vultosas vantagens locacionais, o mundo observou o Produto Interno Bruto - PIB da China crescer dois dígitos anualmente, enquanto as demais nações tentavam, a duras penas, se reinserir no cenário global pós Guerra Fria. Quanto mais o país asiático crescia mais investimentos ele atraía e seu PIB ia se expandindo irrestritamente às custas dos capitais externos. Porém, politicamente o PCCh se mantinha irredutível no pleno controle da nação, e na verdade era o grande administrador dessa modernização seletiva, criando as regras para os investidores externos e estabelecendo os locais onde eles poderiam aportar seus capitais em busca de rendimentos.

Vista noturna da cidade de Xangai, uma das metrópoles mais modernas da China Socialista de Mercado

Disponível em: <https://www.melhoresdestinos.com.br/promocao-passagens-xangai.html> acesso em 03 Nov. 2021

Foi graças ao PCCh que foram criadas no litoral chinês as Zonas Econômicas Especiais - ZEEs, que são enclaves capitalistas abertos para a instalação de filiais de empresas multinacionais em busca de mão de obra numerosa, barata e disciplinada, além das concessões incomparáveis que o Estado centralizador oferece, tais como impostos muito reduzidos e leis ambientais muito mais flexíveis e perniciosas que aquelas observadas nas nações ocidentais. Ainda na esteira de vantagens locacionais vale destacar o controle social exercido pelo governo, principalmente em relação ao movimento sindical, que se vê impedido de pleitear benefícios e vantagens para os trabalhadores da nação.

Dessa maneira o país entrou em um ciclo de acumulação financeira (elevação do PIB) que não foi acompanhada diretamente pela melhoria nas condições de vida de sua população (elevação do IDH) e nem pela diminuição das desigualdades socioeconômicas internas (redução do Coeficiente de Gini). Em resumo se criou um país muito rico, habitado por uma população muito pobre. Para uma nação que almeja o posto de potência hegemônica no século XXI essas discrepâncias atestam uma ineficiência na gestão estatal e principalmente demonstra que o Socialismo de Mercado apresenta limitações muito fortes para que seu principal objetivo, de ampliação do poderio geopolítico da China, seja um dia concretizado. É necessária a realização de correções e ajustes na sociedade e na administração política.

Nesse início de século XXI o PCCh já dá mostras claras de que pretende mudar o modelo de gestão do país e ampliar a participação chinesa na economia global, sendo prova disso o início dos vultosos investimentos realizados em obras estruturais relacionadas à chamada Nova Rota da Seda, em vários países do mundo. Internamente o governo também realiza mudanças importantes, como a abolição parcial da histórica política do filho único, que marcava o quão forte era o controle do partido sobre todos os aspectos da vida na nação. Porém, em termos verdadeiramente políticos pouco se avança, mantendo um Estado centralizador de todo o poder e irredutível na manutenção do pleno controle sobre tudo e sobre todos.

A proposição de uma nova política estatal, batizada de Doutrina da Prosperidade Comum, por parte do presidente XI Jinping, traz em seu âmbito o discurso de que é necessária e urgente a redução das disparidades socioeconômicas internas do país, e que não basta à China ser a nação mais rica do mundo se sua própria população não usufrui plenamente dessa vasta riqueza ali gerada. Mas por trás desse discurso muito agradável aos olhos desatentos tem-se a dura realidade de que ele materializa e formaliza a intenção do PCCh em ampliar ainda mais o seu poder e a sua influência sobre a sociedade chinesa. Em suma, a proposta se baseia na premissa de que os investimentos privados do país devam ser direcionados para dentro da própria nação (e onde o governo julga necessário) e não onde o investidor vislumbre a maior rentabilidade.

Basicamente a ideia resumida é de que muitas empresas privadas chinesas, que se tornaram gigantes globais a partir das benesses do Socialismo de Mercado, voltassem parcelas substanciais de seus capitais de giro para beneficiar à própria população nacional, e não em continuar suprindo, de modo prioritário, às demandas dos mercados globais. Ou seja, o presidente chinês precisa fazer investimentos no país e pretende usar para isso os capitais “voluntariamente cedidos” pelos grupos empresariais da nação. Internamente a proposta parece muito benéfica para a China, mas externamente ela pode (e deve) gerar grandes mudanças a nível global, posto que hoje grande parte daquilo que é consumido no mundo provém exatamente daquilo que os chineses produzem e enviam para fora, por não estarem “focados” nos seus próprios mercados e nem em sua própria população.

Grande parte da proposta geral do Partido Comunista Chinês se encontra baseada no discurso de ampliação e fortalecimento da classe média nacional, em um movimento enxergado pelo mundo como sendo o país asiático querendo se voltar para si mesmo e diminuir as dependências em relação aos mercados e às variações econômicas globais. A estratégia para os investimentos na própria população deriva da mescla entre o poder do regime que governa a nação, e que não se exime de pressionar sua camada social mais abastada, e do próprio nacionalismo crescente no país, principalmente após as reformas estruturais trazidas pelo Socialismo de Mercado. Ou seja, quando a simples empatia da classe empresarial pelo governo que levou a China ao atual estágio de ampliação do seu PIB não é suficiente, o governo apela para os valores éticos e morais de uma sociedade com profundas raízes no Confucionismo.

Na China atual o elevado padrão de muitas construções contrasta com a miséria nas precárias habitações de pessoas que vivem à margem da sociedade

Disponível em: <https://www.chinalinktrading.com/blog/fim-da-pobreza-na-china/> acesso em 03 Nov. 2021

Além da proposta de taxação sobre as grandes fortunas internas o PCCh propõe ainda vultosas “doações” das classes mais altas e dos grandes grupos empresariais para os programas estabelecidos pelo Estado, o que daria um novo fôlego para a retomada do crescimento econômico da China após a estabilização do quadro pandêmico atual; e mais do que isso, reforçaria ainda mais o poder intervencionista do governo e o seu controle sobre a economia do país. Porém, diferentemente do que ocorreu no passado, quando o Estado criou segundo seus interesses as ZEEs para atrair investimentos externos, dessa vez as ações são voltadas para os investimentos internos do país, e na tentativa de fazer com que a China deixe de ser um país apenas rico e se torne de fato uma nação desenvolvida e possa enfim colher os benefícios de uma posição hegemônica no cenário global contemporâneo.

Um dos pontos enfatizados pelo discurso de Xi Jinping, de defesa da tal Prosperidade Comum, é a necessidade de que o processo de enriquecimento dos mais pobres não seja conseguido através de um simples programa de assistencialismo ou de transferência direta de renda, mas sim que (em suas próprias palavras) “os chineses sejam incentivados a buscar o enriquecimento a partir do próprio trabalho duro”, bem como do apoio daqueles que já alcançaram o enriquecimento anteriormente (leia-se classe empresarial). Segundo analistas ocidentais o que o governo busca é o controle dos capitais privados, retrocedendo em um dos avanços mais marcantes do Socialismo de Mercado, que foi a permissão para a propriedade privada no país, ou como afirmam setores da mídia mundial, “a retomada de um modelo mais próximo ao Socialismo chinês da Era Mao Tse Tung”.

De fato, é pouco provável que a atual manobra chinesa esteja relacionada a um retorno estrutural ao Socialismo adotado durante o período inicial da Guerra Fria, pois isso jogaria por terra em pouco tempo todos os avanços econômicos alcançados pelo Socialismo de Mercado nas últimas décadas, e o governo do país sabe bem disso. O mais provável é que de fato o PCCh tenha entendido que o acelerado crescimento econômico da nação, desacompanhado de uma distribuição mais coerente das riquezas internamente pode desencadear uma crescente onda de descontamento popular, naquela que é a maior população do mundo, e frente a essa possibilidade talvez nem toda repressão estatal seria capaz de controlar um crescente questionamento interno acerca da legitimidade do partido. Geopoliticamente a necessidade de uso da força pelo Estado contra a sua própria população soaria extremamente mal para o governo chinês; portanto, convém (nesse caso) o entendimento de que é necessário fazer com que os chineses vivam melhor, para que eles continuem subservientes ao regime.

O que parece ser mais claro a respeito dessa guinada na gestão do país é que o governo autoritário se deu conta que o enriquecimento da elite econômica nacional acabou por fazer com que uma camada pequena (mas poderosa) da nação passasse a acreditar que não dependia mais do Estado, e mais do que isso, que tinha poder para fazer o que bem desejasse, sem dever a ele nenhuma satisfação ou obediência. Desse modo, muitos empresários chineses optaram, de maneira crescente nos últimos anos, em investir seus capitais em outras nações, mais ligadas à economia de mercado neoliberal, do que ao keynesianismo disfarçado chinês. Isso tem trazido um grave processo de evasão de divisas, e muitas vezes o dinheiro que essa elite conseguiu às custas de sua associação ao governo, tem sido aportado e outras nações, gerando condições de emprego e renda para outras populações que não a chinesa. O regime do país acha que é hora de mostrar novamente quem está no controle...

O presidente Xi Jinping busca entrar para a história da China como o líder que conduziu a nação à hegemonia, sem abrir mão de todas as bases do antigo regime

Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/100-years-ccp-xi-jinping-consolidates-power-govt-party-talukdar> acesso em 03 Nov. 2021

Portanto, por trás dessa suposta Prosperidade Comum existe materialmente o intervencionismo estatal, que em períodos recentes esteve menos visível, porém nunca inexistente na China. Seria o PCCh fazendo questão de lembrar ao empresariado do país de onde veio o dinheiro ou as condições para que ele pudesse alcançar a acumulação que originou sua fortuna atual. De uma só vez o partido consegue duas coisas importantes: em primeiro lugar reforça sua posição de única liderança da economia nacional e em segundo passa a ideia de que está preocupado com as condições de vida da sua população, e inegavelmente isso ajuda no controle social, que é necessário a qualquer regime que queira se manter no poder de modo inquestionável.

O mundo assiste com tamanha apreensão essa mudança no modo como a China é administrada por conta do peso que essa economia já assumiu na geopolítica global. Há décadas o mundo teme o momento em que “os chineses deixarão de ser apenas produtores e começarão a ser também consumidores”, posto que é um mercado absurdamente amplo e que demandaria uma quantidade igualmente gigantesca de recursos para suprir às suas demandas, e a chance de “faltar recursos e mercadorias para o restante do mundo” se mostra cada vez mais real.

Ao incentivar a expansão da classe média através dessa nova proposta interna, a nação asiática passa ao mundo exatamente esse recado, de que os chineses deverão ter mais dinheiro no futuro, e automaticamente consumirão mais. Resta saber se o mundo está preparado para um momento em que não sobrará mais tantos produtos da China para as outras nações consumirem e se os fornecedores globais conseguirão suprir a demanda chinesa sem comprometer a oferta para os mercados consumidores tradicionais. Ao futuro caberá as respostas.