segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

CORREÇÃO COMENTADA DE GEOGRAFIA - PRIMEIRA FASE UFU 2020


Questão 25

O agronegócio, responsável por significativas mudanças em curso no mundo, é um dos pilares da economia de muitos países do Sul Global e, em especial, da brasileira.

Sobre o agronegócio e as principais características e consequências geradas pelo setor, é correto afirmar que

a) o agronegócio apresenta-se como símbolo de modernidade com domínio de diferentes tecnologias, incluindo os avanços do mundo digital no desenvolvimento da agricultura de precisão.

b) a concentração do mercado de produção e de distribuição de alimentos nas mãos de um número cada vez menor de conglomerados transnacionais é uma realidade exclusiva do agronegócio brasileiro.

c) o agronegócio contribui significativamente para o mercado de produtos “gourmet”, surgindo, assim, como uma nova possibilidade de ampliação de mercado, atendendo uma demanda global de consumo.

d) a pratica do agronegócio por meio da utilização de novas tecnologias tem proporcionado a reinserção laboral de famílias expropriadas de poder e de terras, de povos indígenas e de comunidades tradicionais.

Resposta: A

Comentário:

O agronegócio moderno encontra-se diretamente relacionado à transferência dos avanços tecnológicos presentes nas atividades urbanas, principalmente nas indústrias, para o meio rural, o que promove uma evolução sistêmica no processo produtivo agropecuário, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, naquilo que se convencionou chamar de Revolução Verde.

A ampliação da produção agropecuária e a interação cada vez maior entre cidade e campo promoveu a absorção mais imediata de aparatos tecnológicos e de técnicas modernas, bem como trouxe mudanças nas relações de trabalho no meio rural, que refletiram diretamente no modo como as atividades eram realizadas e principalmente nas suas motivações produtivas.

Assim, cria-se uma agropecuária moderna, conectada diretamente com a indústria, a qual assume papel de fornecedora de insumos e consumidora da produção do campo, Cabe ainda destacar que os avanços do Meio Técnico-Científico-Informacional passam a impactar direta e intensamente no modo como essa atividade urbana-rural se desenvolve.

Não há mais uma separação muito clara entre o que se convencionou chamar de cidade e campo, bem como entre indústria e agropecuária. A Revolução Verde combinada com a Terceira revolução Industrial promovem a globalização das/nas atividades produtivas agropecuárias, agora não mais restritas ao espaço do campo.

Questão 26

Em junho de 2019, O Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE) concluíram negociação e fecharam o acordo de livre comércio entre os dois blocos. Esse acordo birregional prevê a

a) eliminação total de tarifas em produtos agrícolas de grande interesse do Brasil, como suco de laranja, frutas, café solúvel e do mercado de carnes, de açúcar e de etanol, dentre outros produtos, constituindo o maior acordo comercial de commodities do globo.

b) garantia e o acesso efetivo a diversos segmentos de serviços profissionais e financeiros, de comunicação, de construção, de distribuição, de turismo e de transporte, agilizando e reduzindo os custos dos trâmites de importação, de exportação e a circulação de bens.

c) regulamentação de serviços, de compras governamentais, de facilitação de comércio, de barreiras técnicas, de medidas sanitárias e fitossanitárias e de propriedade intelectual, possibilitando o intercambio intelectual e o livre fluxo de pessoas entre os dois blocos.

d) eliminação de barreiras tarifárias na comercialização de produtos entre todos os países que compõem o Mercosul e a UE, compondo o maior acordo bilateral econômico e populacional do globo que permitirá a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor.

Resposta: B

Comentário:

Muito embora exista hoje muita incerteza acerca da efetivação do acordo proposto e discutido entre os Estados componentes da União Europeia e os que compõem o Mercosul, os debates encontravam-se avançados antes do início da pandemia do Covid-19 e das mudanças na política externa do governo brasileiro, de aproximação com os Estados Unidos e  busca por distanciamento das relações comerciais com o bloco europeu e a China, bem como da gestão ineficaz do governo nacional acerca dos impactos ambientais decorrentes da devastação da Amazônia.

Os temos iniciais do acordo birregional entre os blocos tinham como intuito principal a aproximação política e econômica entre ambos, o que facilitaria o intercâmbio comercial, informacional e financeiro entre nações componentes dos dois mercados regionais, bem como permitiria a potencialização da integração e interdependência entre os mercados das nações.

Para o Brasil, enquanto fornecedor de commodities, esse acordo representaria a abertura de um dos maiores mercados consumidores mundiais, gerando grandes somas financeiras que impactariam positivamente na balança comercial brasileira. Ao passo que para a União Europeia representaria acesso facilitado às commodities exportadas pelo Brasil, ao mesmo tempo em que abriria o mercado sul-americano para os produtos industriais, tecnologias e investimentos diretos provenientes dos países europeus.

Questão 27

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), aprovada em agosto de 2010, trouxe importantes instrumentos para que todos os municípios do Brasil iniciassem o enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos. A PNRS tem como pilar o princípio da responsabilidade compartilhada.

Disponível em: https://www.mma.gov.bricidades-sustentaveis.html. Acesso em: 03 mar 2020,

 Com base no excerto acima, assinale a alternativa que NÃO se enquadra no principio da responsabilidade compartilhada.

a) Responsabilizar indústrias, distribuidores, varejistas, prefeituras e consumidores pelos resíduos sólidos a fim de contribuir para a adequada disposição final deles.

b) Melhorar a mobilidade urbana, a poluição sonora e atmosférica, o descarte de resíduos sólidos, a eficiência energética e a economia de água contribuem para a sustentabilidade urbana.

c) Evitar o desmatamento das áreas urbanas, criar parques e proibir o corte de árvores é suficiente para que se tenha uma política de sustentabilidade urbana.

d) Buscar um melhor ordenamento do ambiente urbano, primando pela qualidade de vida da população, é trabalhar por uma cidade sustentável.

Resposta: C

Comentário:

Inegavelmente a gestão dos resíduos, sejam eles líquidos, sólidos ou gasosos, representa uma das questões mais urgentes e vitais para as sociedades contemporâneas, em decorrência dos volumes produzidos desses efluentes, bem como dos danos que seu mau gerenciamento promove para as sociedades em geral. O modo de produção capitalista, que propõe a produção e comercialização máxima de excedentes, combinado com o modelo de sociedade pautado pelo consumismo promovem um uso massivo dos recursos naturais, e uma consequente produção crescente de efluentes de todo tipo.

Dentro das propostas apresentadas pela Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) a questão da Responsabilidade Compartilhada é apresentada como um ajustamento de posturas entre produtores, fornecedores, consumidores e gestores públicos em prol da minimização dos impactos decorrentes da excessiva produção de lixo. Através dela busca-se a conscientização de todos os níveis das cadeias de produção e consumo, para que se supere a histórica transferência de responsabilidade entre os agentes, os quais se eximem da “culpa” delegando a terceiros a falha causadora de um problema qualquer. A ideia geral da Responsabilidade Compartilhada seria que “não importa quem faça a coisa certa, desde que ela seja feita”.

Juntamente à Responsabilidade Compartilhada tem-se também a ideia da Logística Reversa, que promoveria uma plena integração entre os setores produtivos e consumidores em prol da saúde ambiental. Na Logística Reversa o efluente/resíduo seria enviado novamente ao fabricante, o qual seria responsável por seu descarte, reuso ou reciclagem, confirmando a ideia de compartilhamento de responsabilidade. Seria o que se observa hoje no Brasil em relação às pilhas e baterias usadas, que devem ser (embora nem sempre sejam...) reenviadas às fábricas, que darão sua destinação correta, reduzindo os riscos de contaminação do meio por componentes tóxicos da sua composição.

Desse modo, tanto a Responsabilidade Compartilhada, quanto a Logística Reversa propõem um conjunto bastante grande de atividades e ações em diversos setores e segmentos sociais para que se atinja à sustentabilidade ambiental e principalmente as garantias para uma vida saudável às populações, bem como a conservação dos recursos naturais, para essa e também para as próximas gerações.

Questão 28



Fonte: IBGE, Atlas Nacional do Brasil, 2000. (Adaptado)

Conforme se observa na figura, em função de sua localização geográfica, o Brasil tem seu clima influenciado por praticamente todas as massas de ar que atuam na América do Sul.

Em relação às massas de ar, às principais características e à influência delas no clima do Brasil, assinale a alternativa correta.

a) A mTc atua nas regiões Sul e Centro-Oeste. As baixas altitudes dessas regiões permitem o seu avanço, provocando a formação de chuvas frontais e o fenômeno da friagem no Nordeste e na Amazônia.

b) A mTa forma os ventos alísios de sudeste. No inverno, provoca chuvas frontais no litoral nordestino, já no litoral das regiões Sul e Sudeste, o encontro com as áreas elevadas da Serra do Mar provoca chuvas orográficas.

c) A mEc atua em todas as regiões brasileiras, provocando chuvas torrenciais no inverno. No verão, devido à fisionomia do relevo, mEc é responsável pela formação das chuvas convectivas que ocorrem no sul do país.

d) A mEa origina-se próximo ao arquipélago dos Açores, originando alísios de nordeste. No inverno, provoca bloqueio atmosférico, impedindo a atuação da mPa, formando veranicos em todas as regiões.

Resposta: B

Comentário:

Em decorrência de sua localização geográfica e sua extensão territorial o Brasil apresenta grande diversidade climática, embora haja o predomínio dos climas quentes e úmidos na maior parte do território nacional. Além da latitude, o outro fator climático determinante para essas condições é a atuação das massas de ar no país ao longo do ano. Atuam no Brasil anualmente cinco grandes massas de ar, com predomínio daquelas de elevadas temperaturas e umidades.

Durante o “verão” (de dezembro a junho) atuam no país quatro massas de ar, das quais tem-se a Massa Equatorial Continental, que é quente e úmida e atinge todas as regiões do país, exceto o Sul, provocando calor e chuvas. A Massa Equatorial Atlântica, que é quente e úmida e atinge nesse período os litorais Norte e Nordeste, trazendo do oceano a umidade através dos ventos alísios de Nordeste. A Massa Tropical Atlântica, que é quente e úmida e atinge os litorais do Sul e do Sudeste, trazendo umidade do oceano através dos ventos alísios de Sudeste. E por fim a Massa Tropical Continental, que é quente e seca e atua nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, quando vem dos países vizinhos, provocando calor e seca.

Durante o “inverno” (de junho a dezembro) tem-se a atuação marcante da Massa Polar Atlântica, que é fria e úmida e chega ao país trazendo o ar da zona polar. Essa massa interfere na dinâmica de todas as outras massas atuantes no país. Ela anula a Massa Tropical Continental, que deixa de atuar no Brasil, além de reter a Massa Equatorial Continental ao espaço amazônico, onde se observa nesse período o fenômeno da “friagem amazônica”. Ela ainda empurra a Massa Tropical Atlântica na direção à linha do equador, interceptando-a no litoral Nordeste onde ocasiona as chuvas frontais, além de empurrar a Massa Equatorial Atlântica mais ao Norte, reduzindo sua atuação no litoral nordestino.

Questão 29

Desde 1948, quando o país se tornou independente, a população tem sido vítima de tortura, de negligência e de repressão. Com mudanças políticas e sociais locais, o país, um dos mais pobres do mundo árabe, tem sido devastado por uma guerra civil que opõe duas potências do Oriente Médio: as forças oficiais do governo de Abd-Rabbu Mansour Hadi, apoiadas por uma coalizão sunita liderada pela Arábia Saudita; e a milícia rebelde huti, de xiitas, apoiada pelo Irã. Desde março de 2015, mais de 8,6 mil pessoas foram mortas e 49 mil ficaram feridas, muitas em ataques aéreos liderados pela coalizão árabe. Em meio à guerra, o país sofre com bloqueios comerciais impostos pelos sunitas. Estima-se que cerca de 20 milhões de pessoas não conseguem receber ajuda humanitária enviada via portos e aeroportos, criando a maior situação de insegurança alimentar da história recente.

O país ao qual o texto se refere é

a) Líbano.

b) Jordânia.

c) Palestina.

d) lemem.

Resposta: D

Comentário:

Dentre os vários conflitos que historicamente assolam o Oriente Médio, na atualidade as disputas internas travadas no Iêmen, e principalmente a influência externa dos países vizinhos, ou mesmo a inoperância das grandes potências e organizações mundiais, é aquele que mais chama a atenção, seja pela violência empregada contra a população, já fustigada pela pobreza e miséria internas, seja pelos interesses indiretos dos países envolvidos nessa disputa.

Em termos territoriais a localização do Iêmen é estratégica, pois além de fazer fronteira com Arábia Saudita e Omã, possui litoral no Golfo do Áden, que liga o Mar Vermelho ao Mar da Arábia, e é uma das mais importantes rotas comerciais para o petróleo exportado pelo Oriente Médio para as nações ocidentais. Embora o país esteja entre as 30 maiores reservas de petróleo estimadas no mundo, essa riqueza potencial não se reflete na economia nacional, uma vez que esse é hoje o país mais pobre de todo o Oriente Médio. Grande parte dessa pobreza e das desigualdades latentes que assolam a população é decorrente da combinação entre a corrupção endêmica que se encontra enraizada no Estado e as disputas internas entre grupos étnicos e milícias árabes.

O Iêmen, assim como outros países do Mundo Árabe , foi palco de protestos a partir de 2010, durante a chamada Primavera Árabe. Como consequência de tais protestos o então presidente, Ali Abdullah Saleh, renunciou ao poder em 2012, tendo sido posteriormente morto em um ataque promovido pelos rebeldes da milícia xiita Huti, que recebe apoio externo do governo do Irã. Após a renúncia de Abdullah Saleh assume o poder Abd-Rabbu Mansour Hadi, que tinha apoio da Arábia Saudita, mas era também questionado e recusado pela milícia Huti.

Em uma tentativa de golpe de Estado em 2015 Mansour foge do país para a Arábia Saudita, ao passo que as forças militares sauditas começam a bombardear o Iêmen, na tentativa de eliminar a oposição Huti e restituir o presidente aliado ao poder. Nesse contexto eclode a violência atual que assola o país, e dura até os dias atuais, mesmo após o retorno do presidente Abd-Rabbu ao poder no Iêmen, ainda em 2015. As disputas geopolíticas entre as lideranças xiitas do Irã e Sunitas da Arábia Saudita tem impactos devastadores sobre a vida das populações iemenitas, agravando ainda mais a histórica situação de pobreza nacional.

Questão 30

Sobre as principais características da hidrografia brasileira, é correto afirmar que

a) nela predomina rios de regime pluvial, profundos e extensos com drenagem do tipo exorréica.

b) essa é composta por rios, com nascentes na região do Planalto Central, regime fluvial do tipo pluvial e drenagem endorréica.

c) ela apresenta rios que correm em área de planalto, com regime fluvial misto e nival e drenagem do tipo arréica.

d) ela é formada por rios do tipo perene, com foz em forma de delta, regime pluvial misto e drenagem arréica.

Resposta: A

Comentário:

A combinação entre a grande extensão territorial e a localização na zona de baixas latitudes permite ao Brasil possuir uma vasta rede hidrográfica, com predomínio de rios de grande extensão e elevadas vazões anuais. Além da riqueza hídrica, essa característica representa ao país uma importante vantagem econômica, relativa à disponibilidade de elevados potenciais hidroviários e hidráulicos.

Na rede hidrográfica nacional predominam os rios de regime pluvial, abastecidos pelas abundantes chuvas que marcam os climas brasileiros, sendo o rio Amazonas uma exceção a esse aspecto, uma vez que apresenta regime misto, sendo nival em seu alto curso e pluvial nos médio e baixo cursos. A drenagem hidrográfica é predominantemente exorréica, com a maioria dos rios apresentando fluxos do continente em direção ao Oceano Atlântico, tendo como marcante exceção os rios intermitentes do Sertão Nordestino, que apresentam regimes arréicos. No que tange ao tipo de foz, predominam no país aquelas em estuário, nas quais o rio deságua diretamente no oceano, sem grande acúmulo de sedimentos em seus exutórios.

Questão 31

No atual estágio informacional do capitalismo, estruturou-se uma nova hierarquia urbana, na qual a relação das cidades de diferentes níveis hierárquicos pode-se dar com o centro regional ou, até mesmo, diretamente com a metrópole nacional.

                                                SANTOS, M. Metamorfose do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1997, p. 55. (Adaptado)

 Com base no texto e no esquema apresentado, é correto afirmar que, no Brasil,

a) a desconcentração das indústrias, que rumam para cidades médias, pequenas e para zonas rurais, fez estabelecer uma nova hierarquia urbana, com influência global, que alterou o padrão hierárquico de urbanização, reforçando a importância dos avanços tecnológicos e das regiões não metropolitanas.

b) a dispersão espacial das atividades econômicas, das telecomunicações e dos transportes, intensificada a partir deste século, e a formação de novos centros regionais não alteraram o padrão hegemônico das metrópoles na hierarquia urbana.

c) a região de influência das cidades, seja das metrópoles nacionais, metrópoles regionais, centros regionais, cidades locais e vilas, é delimitada pelas atividades agrícolas e industriais que estabeleceram uma nova hierarquia urbana, sob a hegemonia das cidades globais.

d) as mudanças demográficas e econômicas, das últimas décadas, foram acompanhadas por maior relevância dos espaços urbanos não metropolitanos, uma vez que a diversificação da sociedade de consumo, a flexibilidade da produção e a maior fluidez do mercado nacional provocaram impacto na divisão territorial do trabalho.

Resposta: D

Comentário:

O espaço urbano das nações se desenvolve em associação direta com o crescimento das economias nacionais, assim como as relações estabelecidas entre os espaços urbanos se alteram na medida em que o grau de integração entre as diferentes localidades é intensificado. Ao relacionamento que se estabelece entre os sítios urbanos dá-se o nome de Rede Urbana, e a posição funcional que cada cidade ocupa dentro dessa rede é conhecida como Hierarquia Urbana, a qual é determinada (ao mesmo tempo em que o determina) pelo grau de poder e influência exercida por um centro urbano sobre os demais que o cercam.

Dentro da hierarquização das cidades pode-se delimitar dois momentos completamente distintos, os quais são chamados de Hierarquia Clássica, que se observou até a metade do século XX, quando as relações urbanas se circunscreviam aos espaços nacionais, sem haver grande integração ou mundialização das relações urbanas, e a Hierarquia Moderna, que emerge a partir da segunda metade do século XX, principalmente com o advento da Terceira Revolução Industrial e o estabelecimento do Meio Técnico-Científico-Informacional, que ampliou a eficiência dos meios de transportes e telecomunicações, promovendo integração entre as cidades para além das fronteiras nacionais.

Dentro das nações houve também nesse período o processo de desconcentração das atividades econômicas, principalmente a indústria, o que promoveu o aumento da importância de pequenos e médios centros urbanos do interior, tornando-os inseridos na vida econômica e política das nações, bem como os tornaram partes marcantes da hierarquização no país. Essa nova Divisão Territorial do Trabalho alterou tanto a posição hierárquica dos centros urbanos quanto a intensidade das relações entre eles, permitindo um arranjo muito mais horizontalizado e flexível do que aquele observado durante as décadas anteriores.

Questão 32

"O enfrentamento aos desafios apresentados pela mudança do clima tem se tornado um dos mais relevantes de nosso tempo. A partir do alerta dado por cientistas, o tema alcançou as agendas dos governos e da sociedade civil, necessitando, doravante, consolidar-se nas preocupações das populações mais vulnerável aos seus efeitos".

Ministério do Meio Ambiente. Educação Ambiental Mudanças Climáticas: dialogo necessário num mundo transição, Brasilia, 2013, p. 5. Disponivel em: https://www.mma.gov.br/images. Acesso em: 16 mar. 2020

 Sobre a temática apresentada, assinale a alternativa INCORRETA.

a) Entre as políticas públicas para lidar com o desafio apresentado, assumem relevância ímpar as ações de educação ambiental, preparando as gerações atuais e futuras para conviver com essa nova realidade.

b) Nesse novo contexto, torna-se essencial mostrar que os fenômenos climáticos originados não são eventos distantes e episódicos, mas afetam e afetarão, cada vez mais, o dia a dia das pessoas.

c) O aquecimento do planeta pode intensificar eventos climáticos, e assim impactar a agricultura, as ocupações urbanas, os recursos hídricos e a matriz energética, causando incomensuráveis prejuízos econômicos e sociais.

d) As populações mais pobres são as responsáveis pelo aquecimento global, visto que são elas que destroem a natureza, apropriam-se dos recursos naturais, provocam queimadas para poder plantar seus alimentos.

Resposta: D

Comentário:

O processo de globalização, combinado ao modelo econômico capitalista promove a intensificação do uso dos recursos naturais, o que potencializa os danos e degradações ambientais. Na mesma medida em que as sociedades se tornam mais integradas entre si, a magnitude dos impactos ambientais é também intensificada assim como sua abrangência espacial é aumentada. Alcançar a conciliação entre o crescimento econômico e a menor degradação ambiental possível é hoje um dos maiores desafios das sociedades humanas, porém o caminho para tal objetivo esbarra exatamente na necessidade latente de maximização da produção e do consumo capitalistas.

Embora a maioria das atividades impactantes possua um caráter local, suas consequências apresentam hoje uma magnitude global, afetando ao mesmo tempo aqueles grupos que são responsáveis pela atividade degradadora, bem como aqueles que não participam diretamente dela. Assim, é necessária uma mudança efetiva de mentalidade social, o que seria possível apenas através de uma transformação cultural, pautada por uma educação ambiental que produza resultados na presente geração e ressonância nas futuras gerações, uma vez que a maioria dos danos ambientais possui caráter acumulativo, se agravando na medida em que se avança o tempo.

É necessário que tal mudança aconteça o quanto antes, posto que as populações mais impactadas pelas mudanças climáticas são aquelas que já são social e economicamente vulneráveis e afetadas historicamente pela pobreza e miséria, muito embora os maiores responsáveis pelas atividades degradadoras sejam inegavelmente as sociedades e nações mais ricas e desenvolvidas. Desse modo, faz-se necessária a mudança no modelo de sociedade pautado no consumismo para uma sociedade que seja baseada na sustentabilidade ambiental, a fim de que os impactos nocivos das mudanças climáticas, tais como o comprometimento das reservas de água, das condições para as práticas agrícolas ou da qualidade do ar não sejam mais impactantes do que se mostram na atualidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

CORREÇÃO COMENTADA DE GEOGRAFIA - FAMEMA 2021

 



Questão 21

O início da construção de um aeroporto para receber voos internacionais em Chinchero, no sudeste do Peru, despertou preocupação dos arqueólogos, antropólogos e historiadores. A 3.762 metros de altitude e vizinha de Machu Picchu, Chinchero abrigou um estado real inca no século XV e é patrimônio mundial da humanidade.

 

(Allard Schmidt. “Um polêmico aeroporto em terras sagradas incas”. www.revistapesquisa.fapesp.br, março de 2019.)

 

A construção desse aeroporto poderá gerar para a região

 

a) a diminuição da mão de obra empregada, pois as atividades econômicas permanecerão concentradas na capital.

b) o aumento da preservação do patrimônio histórico, pois haverá menor deterioração das ruínas arqueológicas pelos turistas.

c) a redução do número de empreendimentos, pois não ocorrerá aumento da demanda pelo turismo.

d) o maior controle do processo de urbanização, pois haverá centralização dos serviços aéreos.

e) a ampliação de danos aos sítios arqueológicos, pois haverá aumento no trânsito de visitantes.

 Resposta: E

Comentário:

Uma obra de modernização estrutural, como a construção do aeroporto mencionado pela questão, promove a ampliação da integração entre os espaços e as pessoas, além de favorecer aos fluxos materiais que ditam o ritmo do processo moderno de globalização econômica.  Por se tratar de obras que alteram completamente as dinâmicas locais, precisam ser planejadas em consonância com as demandas e especificidades de cada localidade.

No caso específico dessa cidade peruana, importante sítio arqueológico das sociedades pré-colombianas, a futura intensificação na circulação de pessoas e aeronaves, além das máquinas utilizadas durante as obras de construção do terminal aeroviário, poderão trazer danos estruturais permanentes para o patrimônio histórico ali alocado, afetando profundamente, e de modo irreversível, a conservação de tal bem cultural.

 

Questão 22

Analise o gráfico.

 

(Adriana Mattos. www.valor.globo.com, 17.02.2017.)

 

O contexto expresso no gráfico indica a necessidade brasileira de

 

a) combater os resquícios do consumo consciente.

b) promover a organização de compras coletivas.

c) aumentar os investimentos no setor de logística.

d) reavaliar as infraestruturas dedicadas ao marketing.

e) incentivar políticas de obsolescência programada.

Resposta: C

Comentário:

O gráfico apresentado pela questão mostra que entre 2011 e 2017 o faturamento financeiro do comércio eletrônico mais que dobrou no Brasil, demonstrando o aumento da confiança do consumidor nessa modalidade comercial, além de ampliação do poder de compra do mercado consumidor nacional. A cada ano o comércio virtual ocupa fatias maiores do mercado em detrimento das tradicionais lojas físicas, o que pressupõe a necessidade de mudanças estruturais que fomentem e garantam o sucesso dessa moderna atividade econômica.

A modalidade virtual de comércio mostra-se mais atrativa aos consumidores, principalmente por reduzir os custos fixos de uma loja física. Porém demanda de maior eficiência nos serviços de transporte, para que a mercadoria seja entregue ao consumidor no menor prazo possível, e pelo menor custo financeiro, mantendo o nível de concorrência desse tipo de comércio. Assim, essa ampliação do comércio virtual demanda melhorias na eficiência da logística de integração, através do aperfeiçoamento das redes de comunicação e transportes, para que o tempo entre a compra e o recebimento da mercadoria seja mínimo, mantendo o setor atrativo aos consumidores e aos investidores.

Questão 23



(John O. Ayoade. Introdução à climatologia para os trópicos, 2011)

 

O fenômeno representado na imagem é

 

a) formado em uma área de baixa pressão atmosférica.

b) enfraquecido quando se movimenta em superfícies aquáticas quentes.

c) atenuado com o movimento de ascendência do ar.

d) caracterizado por um vórtice de pequena extensão horizontal.

e) intensificado ao se aproximar das zonas polares.

Resposta: A

Comentário:

A imagem apresentada pela questão se refere a um ciclone tropical, que corresponde a uma zona de baixa pressão atmosférica, formada sobre as águas oceânicas aquecidas nessas áreas de baixas latitudes terrestres. A combinação entre a baixa pressão, o ar úmido aquecido e a força de coriolis promove a formação de grandes fluxos de ar nessas áreas, causando além de vendavais, tempestades tropicais de grande intensidade.

As diferenças entre a temperatura e densidade do ar na superfície dos oceanos tropicais aquecidos e da alta troposfera promovem intenso movimento de ascensão de subsidência do ar, que ao ser afetado pela força de coriolis se “horizontaliza”, dando origem a estruturas cônicas (vórtices) cujas extensões podem atingir centenas de quilômetros. Os ventos desses ciclones se direcionam para as áreas continentais, onde o atrito com a superfície sólida e a mudança nos gradientes de pressão diminuem os fluxos de ar, até que se dissipem completamente.

Questão 24

A agricultura urbana tem crescido nos últimos anos. No entanto, essa prática gera preocupações quanto à qualidade dos alimentos. Uma medida capaz de promover maior confiabilidade a essa produção é

 

a) a identificação da densidade e porosidade do solo.

b) a análise da capacidade de rebaixamento do lençol freático.

c) a utilização de defensivos agrícolas no combate a pragas.

d) a avaliação dos indicadores de risco de contaminação do solo.

e) a avaliação dos impactos de maior albedo no solo exposto.

Resposta: D

Comentário:

A ampliação acelerada da ocupação dos espaços nas grandes cidades acaba por suprimir áreas nas regiões periféricas ou semiperiféricas, até então destinadas aos cultivos. Assim, atividades que anteriormente permaneciam externas à mancha urbana passam a integrar de fato a zona urbanizada dos municípios, estando portando sujeitas aos mesmos problemas ambientais das demais atividades marcadamente citadinas.

No caso da agricultura urbana, por mais que se tenha a justificativa da sustentabilidade alimentar e social das famílias, bem como a geração de renda aos pequenos produtores, as condições de cultivo e do ambiente cultivado podem ampliar os riscos à saúde dos consumidores, uma vez que os índices de contaminação dos solos e das águas urbanas tendem a ser mais elevados do que aqueles observados nas áreas rurais.

O esgotamento doméstico e industrial pode promover a contaminação das águas subterrâneas e dos solos, contaminantes esses que podem ser transferidos para o produto cultivado e trazer risco à saúde dos consumidores, o que traz a necessidade constante de acompanhamento e análise dos graus de contaminação dos ambientes de plantio, visando à garantia da qualidade e segurança do produto oferecido ao mercado consumidor.

Questão 25

Um avião iniciou sua viagem na coordenada 50ºN 10ºL, encerrando sua trajetória na coordenada 30ºS 135ºL. O avião viajou em linha reta e não realizou escalas. Ao longo de sua trajetória, o avião

 

a) percorreu quatro fusos horários.

b) transitou pela China.

c) permaneceu no continente africano.

d) cruzou o Oriente Médio.

e) atravessou o mar das Filipinas.

Resposta: D

Comentário:



As Coordenadas Geográficas apresentadas pela questão demonstram que a origem do avião (50ºN, 10ºL) encontra-se no continente europeu, ao passo que seu destino (30ºS, 105ºL) encontra-se na Austrália. Seu deslocamento em linha reta percorre, portanto a direção de Noroeste para Sudeste, cortando parte da Europa, Oriente Médio, Oceano Índico e chegando à Oceania, no território australiano.

O deslocamento longitudinal (de 10ºL até 135ºL) percorre 125º, o que equivale a pouco mais de oito fusos horários, todos adiantados em relação ao Meridiano do Greenwich (Londres). Em nenhum momento a rota atravessa a China, localizada na porção Nordeste do mapa-múndi, nem permanece (nem mesmo atravessa) o continente africano, assim como não corta o mar das Filipinas.

Questão 29

As conquistas coloniais impuseram fronteiras territoriais às redes comerciais de longa distância em África e criaram monopólios sobre o que então era um comércio externo em crescimento [...]. Os africanos foram integrados à força em sistemas econômicos imperiais centrados numa única metrópole europeia.

 

(Frederick Cooper. Histórias de África: capitalismo, modernidade e globalização, 2016.)

 

O autor apresenta um aspecto relevante da colonização europeia no continente africano a partir, sobretudo, da segunda metade do século XIX, a saber:

 

a) a interrupção das redes de comércio de mão de obra escrava para as economias emergentes transoceânicas.

b) a circunscrição de espaços político-geográficos em oposição aos padrões históricos tradicionais das sociedades locais.

c) a formação de dirigentes africanos com o objetivo de garantir a influência da metrópole nos futuros Estados independentes.

d) a reorganização dos povos africanos em comunidades nacionais caracterizadas pelo emprego de um mesmo idioma nativo.

e) a transferência para as economias coloniais de processos de industrialização em curso nas economias metropolitanas.

Resposta: B

Comentário:

O processo de colonização da África pelas potências europeias no século XIX insere-se no contexto do Neocolonialismo, e se associa às novas demandas trazidas pela Primeira Revolução Industrial. A partir da Conferência de Berlim as nações do chamado G-7 realizaram a partilha arbitrária das terras africanas entre si, impondo fronteiras e limites artificiais, em detrimento das divisões étnicas e tribais existentes até então.

O estabelecimento dessas novas fronteiras promoveu a obrigatoriedade de coexistência de etnias/tribos rivais em um mesmo ambiente, estabelecido externamente pela potência colonial, o que promoveu disputas e conflitos entre esses grupos que se manifestam ainda hoje, mesmo após a independência dessas nações no século XX. Fazia parte da estratégia de dominação europeia o incentivo às animosidades, visando o impedimento ao nascimento de uma unidade nacional nessas populações, o que as promoveria resistência ao domínio pela potência colonial.

Questão 30

A partir da década de 1970, a tônica principal dos anúncios é a hipertrofia da importância dos produtos na vida dos seus consumidores. Os bens foram perdendo a modéstia de se colocarem humildemente a serviço do progresso coletivo ou do conforto individual. Essa supervalorização de produtos industrializados é uma face da redução da modernidade a mero crescimento econômico.

 

(Maria Eduarda da Mota Rocha. A nova retórica do capital: a publicidade brasileira em tempos neoliberais, 2010.)

 

O excerto refere-se aos anos da história do Brasil em que se associavam

 

a) ideologia de ascensão social e desenvolvimento econômico.

b) economia agroindustrial e preservação do meio ambiente.

c) nacionalismo econômico e enfraquecimento do Estado Nacional.

d) democracia política e liberalismo econômico.

e) autonomia sindical e aumentos salariais no setor industrial.

Resposta: A

Comentário:

No contexto da década de 1970 o Brasil era governado pelos militares, aliados próximos dos Estados Unidos, com o intuito de impedir a proliferação dos ideais socialistas durante a Guerra Fria. A proximidade entre os governos das duas nações americanas possibilitou maior integração econômica e o fomento aos investimentos estadunidenses no Brasil, ampliando assim a política de modernização nacional implementada a partir do governo de Juscelino Kubitschek, nos anos de 1950.

Nesse período indústrias multinacionais se proliferaram no país, promovendo o incremento da produção interna e o acesso a bens industriais mais modernos. Ao mesmo tempo em que a estrutura produtiva nacional era alterada, o modo de vida da população também passava por transformações, pautadas pelo “modo de vida americano”, introduzindo no Brasil a cultura do consumismo, sob a égide de que o progresso social estaria condicionado ao nível das mercadorias que a população consome, naquilo que hoje se denomina “ter para ser”. Nesse quadro cria-se a ilusão de que a produção das multinacionais aqui no Brasil atestaria o desenvolvimento econômico do país, tal como o fato de consumir produtos estrangeiros modernos indicaria que as pessoas ascenderam socialmente e viveriam melhor.

sábado, 18 de abril de 2020

O RENASCIMENTO DO KRAKATOA


ANAK KRAKATOA

- Por Éder Israel


Localizado na porção sul da Ásia, entre o continente oriental e a Oceania, o Krakatoa e atualmente o Anak Krakatoa fazem parte de uma das regiões de maior atividade tectônica do mundo.

Disponível em: <http://www.esa.int/Space_in_Member_States/Portugal/Envisat_produz_o_mapa_global_da_Terra_mais_nitido_de_sempre> acesso em 17 abr. 2020

Vulcanismo

A erupção vulcânica ocorrida na região asiática do arquipélago de Sumatra no dia 11 de abril de 2020, e noticiada amplamente pela mídia internacional, fez ressurgir um grande fantasma tectônico do passado, rememorando a histórica e catastrófica erupção ocorrida no mesmo arquipélago no ano de 1883, considerada até hoje um dos maiores eventos desse tipo registrado na história. Naquela ocasião, no século XIX, houve uma combinação de eventos catastróficos, originados por uma grande erupção, acompanhada por uma grande explosão do edifício vulcânico e seguida pela formação de ondas gigantes (tsunamis) de grande magnitude. Em suma, um “apocalipse tectônico”...

Para entender os eventos de 1883 e lançar luz sobre os novos eventos de 2020, faz-se necessária a compreensão da dinâmica tectônica que envolve uma erupção vulcânica. O vulcanismo, enquanto processo, representa uma peça fundamental de regulação da dinâmica interna da Terra, posto que, permite a liberação da pressão acumulada nas camadas internas do planeta, impedindo seu colapso e consequente explosão. Muito mais importante que a liberação do magma do manto, é o equilíbrio das pressões interna e externa da Terra, e o vulcanismo, seja ele de edifício nos continentes e ilhas ou de fissura, nos fundos oceânicos é o agente responsável pro tal equiparação.

Vulcões como o Krakatoa são formados a partir do tectonismo terrestre, do qual deriva o movimento das placas tectônicas e a consequente deriva continental, que coloca as calotas litosféricas (placas tectônicas) sólidas em movimento sobre um grande mar de rochas derretidas, chamado Astenosfera, onde ocorrem as chamadas correntes de convecção, que movem essas enormes “balsas rochosas”. E a região onde se localiza essa formação vulcânica asiática faz parte de um complexo global, que concentra a maior parte de toda a atividade tectônica da Terra, chamada de Círculo de Fogo do Pacífico, onde se observa mais de 80% de toda atividade sísmica de grande dimensão na atualidade.


O Círculo (ou Anel) de Fogo do Pacífico se estende por toda a margem desse oceano, onde se encontram inúmeras fronteiras de placas tectônicas, sejam elas convergentes, divergentes ou tangenciais. Ali se concentram, por consequência, eventos geológicos de grande magnitude, causados por forças endógenas e processos orogenéticos.

Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Pacific_Ring_of_Fire.svg/1200px-Pacific_Ring_of_Fire.svg.png> acesso em 17 abr. 2020

Há uma relação direta entre os grandes eventos geológicos, uma vez que qualquer movimentação de placas tectônicas requer um novo ajuste e rearranjo das demais placas para que o equilíbrio da crosta seja restabelecido. Assim, há uma relação próxima entre o terremoto, seguido de erupção vulcânica, que ocorreu na Nova Zelândia, em dezembro de 2019 e a erupção observada agora em abril no sul da Ásia. Ambas as localidades se posicionam sobre o Círculo de Fogo do Pacífico, e a movimentação das placas que observou-se na Oceania está agora gerando acomodações na Ásia. Não se surpreenda se em breve surgirem notícias de terremotos ou vulcanismos na costa do continente americano, pois a movimentação geológica no continente asiático certamente causará repercussões na outra borda do pacífico num futuro não muito distante...

Krakatoa, 1883

Retomando o entendimento acerca do evento tectônico de abril de 2020, para compreender toda a atenção e preocupação da mídia e cientistas mundiais a respeito dessa nova erupção, ocorrida no vulcão Anak Krakatoa (que na tradução ao pé da letra significa “Criança Krakatoa”), faz-se necessário retornarmos ao final do século XIX e entendermos como se deu e quais os maiores impactos daquela que até hoje é considerada uma das maiores atividades vulcânicas da história recente da Terra.

A região onde se localizava o antigo Krakatoa corresponde a um arquipélago com várias pequenas ilhas entre Sumatra e Sunda, território indonésio. Como já mencionado anteriormente, esse arquipélago se posiciona sobre a zona de maior instabilidade da crosta, e qualquer movimentação de placas tectônicas, obrigatoriamente, implicará em acomodações nas bordas do oceano Pacífico. Naquele evento, a pressão acumulada as camadas internas da Terra se tornou demasiadamente grande, e a sua não liberação poderia levar a um grande colapso e consequentemente a uma explosão de ordem global. De modo metafórico podemos fazer a comparação abstrata do nosso planeta com uma grande panela de pressão, cujo interior encontra-se tomado por materiais muito quentes e comprimidos. Ora, se essa pressão se elevar indefinidamente dentro dessa panela, chegar-se-á a um nível tal que as paredes desse utensílio de cozinha se romperão e toda a energia acumulada ali dentro será liberada em um único instante, após uma grande explosão. Pois bem, digamos que os vulcões seriam as válvulas dessa imensa panela de pressão chamada Terra. Portanto, as erupções são normais, e mais do que isso, necessárias para o pleno funcionamento de nosso planeta.

Mas imagine que na última vez que essa panela de pressão foi usada, ela não tenha sido devidamente limpa e, materiais anteriormente fluidos se solidificaram dentro de sua válvula, entupindo-a... Na próxima fervura, quando a pressão interna se tornar muito mais alta que a externa, se essa válvula entupida não conseguir dissipar essa energia ali confinada, a panela explodirá. Assim se deu com o Krakatoa naquela ocasião. Após uma última erupção vulcânica ter liberado a pressão excessiva do manto, o último magma expelido acabou por se solidificar dentro do canal do vulcão, transformando-se em rocha sólida, de modo que essa rocha se transformou em uma espécie de “rolha”, causando o entupimento dessa “válvula”.

Em 1883 o canal (cujo nome correto é conduto vulcânico) por onde passaria o magma que o manto tentava expelir encontrava-se obstruído por rígidas rochas ígneas, impedindo a passagem dos materiais, e levando a pressão interna da Terra a níveis muito além da normalidade. Assim, com o aumento constante dessa pressão sob o edifício vulcânico, criou-se uma situação de colapso, levando a um fenômeno chamado “vulcanismo explosivo”, porém em uma escala muito além daquela conhecida. Com isso toda a ilha onde se situava o Krakatoa explodiu, liberando enfim a pressão acumulada e lançando pelos ares tanto os materiais que impediam o “funcionamento” do vulcão, como materiais expulsos pelo manto terrestre.



Após o grande evento explosivo de 1883, grande parte das ilhas vulcânicas do arquipélago do sul da Ásia foi completamente destruído, restando apenas ruínas daquilo que fora no passado um grande ponto de alívio das tensões internas da Terra sobre o Círculo de Fogo do Pacífico

Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69> acesso em 17 abr. 2020

A explosão desse evento eruptivo forçou a abertura do conduto vulcânico para a passagem do magma, lançando para a atmosfera uma grande quantidade de fragmentos de rochas, geologicamente chamadas de bombas vulcânicas, que alcançaram pelo menos 25 quilômetros de altura, tendo, segundo relatos da época, o som da explosão sido ouvido a pelo menos 5.000 quilômetros de distância. Juntamente com as bombas vulcânicas foram lançadas também para a atmosfera grandes quantidades de cinza vulcânica, que formou uma densa nuvem que praticamente circundou o planeta naquela faixa latitudinal. Essa densa nuvem de cinzas permaneceu por meses na atmosfera, tendo impactado diretamente na ação da radiação solar e no armazenamento de calor na Terra, o que ocasionou um dos invernos mais rigorosos no continente europeu no século XIX. Sem contar a elevação do grau de acidez das chuvas que passaram a cair, uma vez que grande parte desse material particulado continha enxofre.

Juntamente com a liberação de materiais particulados para atmosfera, grande parte da energia sísmica gerada pela explosão da ilha vulcânica foi transferida para a água oceânica, tendo se transformado em energia mecânica, passando a movimentar grandes massas de água a partir do arquipélago asiático, o que ocasionou a ocorrência de vários tsunamis, que se alastraram pelas águas em múltiplas direções, completando o conjunto de catástrofes do apocalíptico evento de 1883. As ondas que atingiram dezenas de metros de altura se espalharam pelas águas dos oceanos Índico e Pacífico, chegando mesmo ao outro estremo do grande oceano, na costa oeste da América. Como resultado da combinação de eventos de grande magnitude, estima-se que pelo menos 35.000 pessoas tenham perdido suas vidas no rastro de destruição gerado no final do século XIX.

Mas, embora as ilhas vulcânicas tenham sido literalmente riscadas do mapa com as sucessivas explosões e consequências desse evento, essa zona continua manifestando as forças internas do planeta, ao passo que o Círculo de Fogo do Pacífico segue como grande “válvula de escape” da energia produzida e acumulada no interior da Terra. Após os eventos de 1883, novas movimentações de placas tectônicas ocorreram e novas erupções vulcânicas de menor magnitude expeliram material magmático do manto sob as águas oceânicas, formando novas camadas de rochas sobrepostas, que futuramente dariam origem a novas ilhas e consequentemente novos edifícios vulcânicos. Nasce assim a “Criança Krakatoa”, ou simplesmente Anak Krakatoa.



A formação de novas pequenas ilhas no cenário de devastação de Krakatoa mantém a dinâmica interna da Terra em pleno funcionamento, ao passo que garante a manutenção do equilíbrio entre as camadas internas e internas do planeta. Mas o conhecimento do passado traz consigo o temor e a certeza de que os eventos de 1883 podem naturalmente se repetir na região.

Adaptado de: <https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg-5c486a879384edd29cb7c405e5104e69> acesso em 17 abr. 2020

Anak Krakatoa, 2020

As sucessivas erupções que ocorreram ao longo do século XX, decorrentes do ajustamento das partes que compõem a estrutura da Terra, reconstruíram, de certo modo, feições que haviam na região de Sumatra no século XIX, assim sendo, novas ilhas vulcânicas passaram a fazer parte do ambiente e lentamente, na velocidade do tempo geológico, a atividade vulcânica na região voltou à “normalidade”. Porém, trata-se de uma região instável, o que significa que a qualquer momento tudo pode mudar e eventos inesperados e desastrosos podem voltar a acontecer, e por se tratarem de eventos associados às forças endógenas da Terra, o homem não tem nenhum controle ou poder de evita-los ou amenizá-los.

A região de Sumatra já havia dado avisos consistentes de que grandes eventos poderiam estar próximos a acontecer, mas sabemos que eventos geológicos são matematicamente imprevisíveis e ocorrem de maneira instantânea e pontual. No ano de 2004, nessa mesma região da Ásia o mundo assistiu estarrecido à ocorrência de um grande tsunami, causado pela ocorrência de um maremoto em águas profundas, próximo ao litoral do Sri Lanka. Esse tipo de evento acontece sempre que há qualquer tipo de movimentação de placas tectônica, e como mencionamos anteriormente, a ocorrência de um evento causa obrigatoriamente a ocorrência de eventos subsequentes.

Como já referido, há uma relação direta entra a movimentação das placas tectônicas na Nova Zelândia em dezembro de 2019 com a ocorrência da erupção no Anak Krakatoa em abril desse ano, assim como esse evento tem relação direta com a erupção de um vulcão nas Filipinas em janeiro de 2020, um terremoto que atingiu Cuba, também em janeiro de 2020, outro na Turquia no mesmo mês, outro na China ainda em janeiro, mais um no oeste dos Estados Unidos em março desse ano, e até mesmo um que ocorreu na Itália ontem (16 de janeiro de 2020)... Passaríamos dias a fio aqui falando de terremotos e erupções recentes no mundo, e em comum eles teriam o fato de estarem todos ligados. Como afirmamos, quando uma placa se move em um lugar, todas as outras precisam se mover para compensar essa "mexida"...


Entre os dias 10 e 11 de abril de 2020, o vulcão insular, Anak Krakatoa expeliu lava e materiais incandescentes (fluxos piroclásticos) por 2 horas ininterruptas, quase 140 anos após o Krakatoa ter varrido o conjunto de ilhas no sul da Ásia com uma sequencia de eventos catastróficos de magnitude incalculável.

Disponível em: <https://i1.wp.com/www.news1.news/wp-content/uploads/2020/04/096633de99cc3c86684a6588e43031c5.jpeg?fit=1200%2C696&ssl=1> acesso em 17 abr. 2020

Durante a recente erupção no arquipélago do pacífico, o Anak Krakatoa expeliu uma densa nuvem de fumaça que atingiu pelo menos 15 quilômetros de altitude, que foi espalhada pelos ventos que varrem a atmosfera. Embora tenha tomado conta dos noticiários do mundo inteiro, essa atividade não foi a maior observada no Anak Krakatoa, pois em 2018 o mesmo vulcão entrou em processo magmático, seguido por um tsunami que atingiu o litoral da Indonésia, ceifando a vida de mais de 400 pessoas. O que preocupa de fato não é o tamanho dessa erupção em si, mas sim a recorrência desse tipo de evento, posto que é a segunda grande manifestação do tipo em apenas 16 meses. E segundo cientistas e geólogos, de concreto pode-se afirmar apenas que o pior ainda está por vir, pois afirmam que o poder destrutivo do Krakatoa filho é infinitamente maior que o do Krakatoa pai...  





domingo, 2 de fevereiro de 2020

CHUVAS NO SUDESTE: BELO HORIZONTE EM ESTADO DE ALERTA



Temporais no Sudeste do Brasil: Por que tem chovido tanto nesse início de 2020?

- Por Éder Israel


Disponível em: <https://jornalmontesclaros.com.br/wp-content/uploads/2020/01/climatempo69-624x400.png> acesso em 31 jan. 2020

Na região sudeste do Brasil, principalmente nas porções não litorâneas, o período de verão, configura-se como estação mais chuvosa, com precipitações concentradas principalmente entre os meses de outubro e março. Porém, no início de 2020 os índices pluviométricos se apresentam mais elevados que a média histórica da região.

Tradicionalmente a região Sudeste do Brasil apresenta elevada umidade durante o período de verão, estação marcadamente chuvosa do clima Tropical Semiúmido, predominante na região. Porém, o janeiro de 2020 tem apresentado anomalias climáticas que tornam os índices pluviométricos exageradamente elevados. Os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo sofrem com alagamentos constantes e milhares de pessoas desabrigadas, além de dezenas de pessoas que perderam suas vidas, em decorrência de deslizamentos de terras e inundações. Na verdade o clima na transição entre os anos de 2019 e 2020 tem apresentado graves alterações, e o que acontece no Brasil é apenas reflexo das condições climáticas globais.

Por se localizar em uma área de baixas latitudes, o território brasileiro se insere dinâmica da Zona de Convergência Intertropical - ZCIT, na qual os ventos alísios sopram das latitudes próximas aos trópicos em direção à Linha do Equador, transportando consigo a umidade que ocasiona abundantes chuvas na zona climática mais quente da Terra. Porém, as chuvas da ZCIT se concentram na região norte do país, não tendo relação direta com os temporais que ocorrem no Sudeste brasileiro. Como mencionado, as chuvas nesse início de ano nessa região se relacionam a anomalias climáticas, enquanto das chuvas da Amazônia fazem parte da normalidade da circulação global da atmosfera.

As chuvas torrenciais que castigam atualmente Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro são provenientes da elevada umidade trazida da região Norte do Brasil (borda sul da Amazônia), quando se forma a chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul – ZCAS, responsável por grande parte das precipitações que ocorrem nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país, principalmente durante os meses de verão. Porém, no início de 2020 a formação dessa zona de convergência se deu de maneira mais acentuada, o que ocasionou a ocorrência das chuvas torrenciais que castigam as populações que vivem nas regiões por ela afetadas

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Disponível em: <https://imagens.climatempo.com.br/climapress/galeria/2017/11/a35d6714e490a15aed32727deda862df.gif> acesso em 31 jan. 2020

A ação conjunta de centros de alta e baixa pressão atmosférica (1 e 2, no mapa) sobre o território brasileiro associada à chegada de uma frente fria proveniente da Antártida (3 no mapa) forma uma zona de intensa nebulosidade entre as regiões Sul e Nordeste, provocando elevação substancial da pluviosidade média nessa área.

A ZCAS se forma em decorrência das diferenças de pressões entre as regiões da América do Sul, criando um corredor de deslocamento de grandes quantidades de vapor de água da Amazônia em direção à região Sul, de modo similar ao que ocorre com a formação dos chamados “Rios Voadores”, porém em escala muito mais intensa e de repercussões muito mais severas. A ZCAS se associa com a formação de duas zonas de distintas pressões, sendo uma chamada de Alta da Bolívia (AB), e a outra chamada de Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN). Ambas as zonas atuam em combinação com a chegada de uma frente fria nas regiões litorâneas do Atlântico-Sul, criando as condições de instabilidade e elevada umidade no território nacional.

A Alta da Bolívia se caracteriza por ser uma zona de alta pressão atmosférica; portanto, anticiclônica (dispersora de ventos) que se forma na borda leste da Cordilheira dos Andes, próximo do Centro-Oeste do Brasil, impedindo a livre circulação do ar úmido que sai da Amazônia em direção à região Sul, desviando-o para o Centro-Oeste e para o Sudeste do país. Esse centro de alta pressão se estabelece em uma altitude média de 10 km, e se move no sentido anti-horário, criando uma espécie de corredor preferencial para os ventos úmidos amazônicos. Por outro lado, o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis se estabelece no Nordeste brasileiro, formando uma zona de baixa pressão atmosférica; portanto, ciclônica (receptora dos ventos). A movimentação desse vórtice se dá no sentido horário, sendo exatamente entre a AB e o VCAN o caminho percorrido pelas correntes de ar carregadas de umidade que se deslocam da Floresta Equatorial, e se encaminham para a porção Centro-Sul brasileira.

Como esse ar quente e úmido se desloca concentrado por essa rota preferencial, que a climatologia chama de “cavado atmosférico”, a tendência é que ocorram chuvas ao longo de sua movimentação, como normalmente acontece durante todos os verões no Centro-Sul. Porém, nesse início de 2020 um agravante acaba por acentuar esse quadro de normalidade, que é o fato de simultaneamente à atuação da AB e do VCAN ter chegado à costa brasileira uma frente fria, proveniente das águas frias da região antártica. O choque entre o ar quente e úmido proveniente da região Norte do país e o ar de baixas temperaturas proveniente do polo sul cria uma zona de instabilidade sobre a região Sudeste, levando à rápida e intensa condensação do vapor de água que se move pelo “cavado atmosférico”, ocasionando chuvas torrenciais nessa área.


Disponível em: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhENetgM4u5HQ5tynMJnLXIppxnJSNX8t7XqdDOfdKviImApIUby9vtJykHfrGEpqI42o55ctOIxtwlr-9DLOGn_AmOEWQB1efQtjS5mg3tbHTko3UMLRgPoZe4JsEWoGbbFbwo8zUZWgy7/s1600/amaz.jpg> acesso em 31 jan. 2020

Na imagem de satélite as áreas demarcadas em branco representam locais onde a formação de nuvens se concentra, e consequentemente onde as possibilidades de chuvas são mais amplas. A faixa que se estende entre as regiões Sul e Nordeste corresponde à ZCAS, intensificada pela interação da Alta da Bolívia e o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis.

Faz-se necessário ter atenção a erros conceituais graves, que podem trazer incorreções na análise do quadro climático brasileiro nesse inicio de ano, posto que a maioria dos fenômenos ou anomalias de nosso clima seja sempre associada à ocorrência do el niño ou da la niña. Porém, dessa vez não é o caso. Embora a ZCAS possa ser influenciada diretamente por essas duas anomalias climáticas globais, de acordo com os cientistas da agência meteorológica dos Estados Unidos, chamado de Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês) o verão 2019 – 2020 apresenta quadro de neutralidade em relação a tais anomalias; ou seja, não estamos vivendo um el niño, tampouco uma la niña. Caso houvesse o estabelecimento de um el niño no atual período, seria mais difícil a formação da Alta da Bolívia, e consequentemente a ZCAS não teria intensidade para provocar tantas chuvas. Ao passo que no caso de uma la niña, a Alta da Bolívia seria muito mais intensa, e consequentemente a ZCAS traria possibilidades ainda maiores de chuvas na região.

Como resultado da atuação da ZCAS, observada em janeiro de 2020, os estados do Espírito Santo e Minas Gerais foram intensamente afetados por chuvas torrenciais, que provocaram perdas materiais e humanas, além de danos estruturais nas cidades afetadas. Inicialmente as cidades capixabas foram as mais afligidas; porém, após os primeiros dias de ocorrência do fenômeno, o estado de Minas Gerais passou a sofrer com muito mais intensidade os impactos das fortes chuvas de verão, principalmente na cidade de Belo Horizonte, onde os valores acumulados das precipitações desse mês ultrapassaram todas as médias anuais do último século, e as perdas humanas e materiais também se acumularam na mesma escala.


Disponível em: <https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/01/25/grafico-as-chuvas-em-minas.ghtml> acesso em 31 jan. 2020

O gráfico apresenta os volumes pluviométricos na cidade de Belo Horizonte, nos meses de janeiro de cada ano, de 1990 até 2020. A média geral de chuvas para esse mês foi de 329,1mm. Até o dia 25/01/2020 havia chovido cerca de 800mm (o valor atualizado para 29/01/2020 já era de 932,3mm), maior volume registrado para o mês nos últimos 110 anos de medições na cidade.

Por se tratar de uma grande metrópole, densamente povoada e com notáveis falhas estruturais, como a maioria das cidades brasileiras, os impactos dessas fortes chuvas concentradas em um curto período de tempo afetam direta e substancialmente as populações residentes, provocando além das mortes, alagamentos, deslizamentos de terra, quedas de barreiras e suspensão de serviços essenciais como a distribuição de água e eletricidade. O último levantamento de mortes até o dia 31/01/2020 informava que 55 pessoas perderam a vida no estado de Minas Gerais, e outras 10 no Espírito Santo, além de dezenas de milhares de desabrigadas e deslocadas pelas enchentes ou riscos geológicos em suas habitações.

A capital mineira tem sua situação agravada pela combinação entre o crescimento desordenado da cidade, que promove além da maciça impermeabilização do solo a ocupação de áreas de risco, como as vertentes e as várzeas, com a topografia da cidade, que se encontra encrustada entre serras e morros, recebendo grande parte da água escoada das áreas adjacentes, uma vez que a cidade encontra-se em uma altitude mais baixa que seu entorno. Como há córregos canalizados no perímetro urbano da cidade, e ali é “despejada” toda água proveniente dos aclives marginais da capital, seu transbordamento é quase que inevitável e as inundações urbanas se tornam fatos corriqueiros nos períodos mais chuvosos, acumulando-se prejuízos para o poder público e para a iniciativa privada.


Disponível em: <https://static-wp-eqi15-prd.euqueroinvestir.com/wp-content/uploads/2020/01/areas-de-chuva-em-bh-590x332.jpeg> acesso em 31 jan. 2020

Como o relevo provoca o escoamento de grandes volumes de água na direção de Belo Horizonte, e a ocupação imobiliária sem planejamento produziu habitações em locais de risco, seja por conta da inclinação superior a 30º (vertentes) ou pelo acúmulo de águas movimentadas pelo escoamento superficial (várzeas nas margens dos cursos hídricos), toda chuva concentrada tem elevado potencial de perdas e prejuízos na capital mineira.

Segundo pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, a tendência é que nas primeiras semanas do mês de fevereiro a ZCAS alterada permaneça sobre a região Sudeste, trazendo consigo o risco de novas chuvas para as áreas já atingidas no mês de janeiro, tendo possibilidade do aumento dos riscos de prejuízos humanos e materiais, especialmente no Espírito Santo e Minas Gerais. Após esse período a tendência é que a frente fria antártica perca força e passe a influenciar cada vez menos a região, reduzindo-se gradativamente as médias pluviométricas e os efeitos negativos das chuvas torrenciais, voltando a situação à normalidade no mês de março.

Mas, como mencionado anteriormente, em tempos de mudanças e anomalias climáticas, qualquer previsão do tempo dura apenas até ser contrariada pelas forças da natureza...