quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ - Parte II



A ESCALADA NAS TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ

Parte II: A revolução Árabe no país Persa

Por Éder Israel


Disponível em: <http://notaalta.espm.br/wp-content/uploads/2018/08/eua_iran.jpg> acesso em 11 jan. 2020

A busca por uma República Teocrática no Irã mina as bases da Monarquia Autocrática do Xá Reza Pahlavi e começa a romper os laços do país com as potências ocidentais.

O crescente descontentamento popular decorrente da ocidentalização econômica e da secularização política da monarquia do Xá Reza Pahlavi, combinado com os protestos contra a violência e repressão estatal contra aqueles que se opunham ao governo, sabidamente corrupto, do Irã culminaram em conflitos cada vez mais intensos entre a população e o aparato governamental. Estudiosos apontam que o estopim máximo para a revolução se iniciar foi a repressão militar contra uma manifestação em setembro de 1978, onde quase uma centena de manifestantes foram mortos pelo exército. Esse trágico evento entrou para os anais da história com o nome de Sexta Feira Negra. Era a clara e manifesta demonstração de que a única possibilidade de manutenção da monarquia seria pelo uso da violência e o apoio das forças militares ao Xá; o que veremos que não sucedeu.

Na medida em que as manifestações se ampliaram, chegando às somas de milhões de pessoas nas ruas contra o governo, e a opinião pública estrangeira apresentando ao mundo as mazelas da monarquia iraniana, os militares começaram a gradativamente abandonar as ordens do Estado e se recusarem a reprimir com violência a população, o que forçou Reza Pahlavi a fazer crescentes concessões institucionais e constitucionais, em tentativas desesperadas de se manter no poder, mas foram em vão. Os ares da revolução já tinham se espalhado pelo país e as minorias já não eram mais tão minoritárias como julgaram os governos do Irã e dos Estados Unidos no passado. A queda do governo era apenas questão de tempo, e a geopolítica do Oriente Médio seria novamente reescrita, com repercussões não apenas regionais, mas dessa vez globais.

Na transição entre os anos de 1978 e 1979 a situação se torna completamente insustentável para o Xá Reza Pahlavi no Irã, e o autoproclamado monarca abandona o país em janeiro de 1979, deixando o governo a cargo de um primeiro-ministro que não possuía qualquer governabilidade e apoio, A essa altura, o aiatolá Ruhollah Khomeini, que já havia se exilado inicialmente na Turquia, posteriormente no Iraque e por último na França retorna ao país para liderar pessoalmente a Revolução, e consequentemente assumir o poder no país, embora em seus discursos nos tempos de exílio, se mostrava irredutível na negação de aspirações políticas em sua nação... Porém, assim que chega ao país e assume o poder, implanta uma República Islâmica, bem diferente da proposta inicial de um governo de liberdades e igualdades. Da mesma forma que Reza Pahlavi reprimia seus opositores, Khomeini começa também a manifestar o poder do Estado na repressão e combate a tudo que ia contra os ideais da revolução [leia-se Lei Islâmica ou Sharia]. Estava, enfim, implantada a República Teocrática em substituição à Monarquia Autocrática.


Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/06/Imam_Khomeini_in_Mehrabad.jpg/455px-Imam_Khomeini_in_Mehrabad.jpg> acesso 11 jan. 2020

O aiatolá Ruhollah Khomeini retorna do exílio na França no início de fevereiro de 1979, para concretizar a Revolução Iraniana e assumir o poder como líder supremo, tanto no aspecto religioso quanto no caráter político.

O maior problema da Revolução Iraniana estava exatamente após a sua realização, posto que quando o Xá fosse derrubado, grupos completamente distintos se uniram em torno de um mesmo objetivo, que era o fim da Monarquia Autocrática, porém após alcançarem o primeiro objetivo, começaram a disputar entre si o poder que estava de certo modo vago. Por um lado haviam grupos de esquerda com ideários socialistas/comunistas querendo a implantação de um regime nos moldes soviéticos; por outro lado haviam grupos da elite liberal iraniana, buscando assumir o controle do país e da exploração das reservas energéticas e mineralógicas nacionais; haviam ainda grupos seculares, que apesar de opositores ao regime de Reza Pahlavi, não se opunham à manutenção das relações com o ocidente; e por fim, havia o grupo de maior poder, baseado nos clérigos Xiitas do Irã, personificados na figura de Khomeini. Ou seja, após os conflitos para derrubar o governo, iniciaram os conflitos para decidir quem seria o novo governo. A violência civil explode no país e a repressão estatal da República Islâmica cresce na mesma proporção.

Ao assumir [na marra] o poder, o aiatolá implanta a partir do início da década de 1980 uma série de mudanças estruturais nas organizações políticas do país, tendo como objetivo a criação de bases capazes de sustentar o projeto de uma república baseada na Sharia e centrada nos dogmas religiosos do Alcorão. Dentre as principais ações desse período de implantação da república encontra-se a criação da Guarda Revolucionária Iraniana [não aprofundaremos nessa temática por hora, mas guarde bem o contexto de criação da guarda revolucionária, pois ela está no epicentro das tensões atuais entre Estados Unidos e Irã...]. Além desse grupo militar, as reformas da Era Khomeini criaram conselhos e instituições revolucionárias nas fileiras da administração pública, que suprimiram o governo de transição que assumiria após a fuga do Xá Reza Pahlavi e que não representaria nenhum empecilho para que o aiatolá se tornasse líder supremo da nação.

Como é conhecimento comum, e nesse caso o Irã não é uma exceção, os árabes Xiitas não possuem boas relações políticas e culturais com o mundo ocidental, haja visto que essa foi uma das justificativas para a revolta dos clérigos conta a monarquia de Reza Pahlavi. Portanto, obviamente o novo governo teocrático iraniano não buscará manter relações com os Estados Unidos, acusados de influenciar negativamente a cultura islâmica e secularizar a religião iraniana, e muito menos com a União Soviética, posto que o comunismo defendia o estabelecimento de um Estado completamente laico (na verdade, ateu), o que era inconcebível para um regime teocrático como a república iraniana. Assim, no contexto da Guerra Fria o Irã tende a assumir uma posição de não alinhamento às duas potências hegemônicas.

Nesse contexto, e agora já buscando criar bases sólidas para o entendimento de toda a desavença entre iranianos e estadunidenses, é necessário mencionar o incidente de marca factualmente a ruptura entre o país asiático e a potência americana, representado pelo sequestro dos funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, no final de 1979. Todos os 52 funcionários da instalação foram mantidos reféns por grupos pró-Khomeini por mais de 1 ano. O sequestro dos funcionários da embaixada está muito além de um mero incidente diplomático, pois ele marca a primeira grande vitória do governo teocrático iraniano sobre o governo estadunidense, posto que em 1980, o exército norte americano fracassou em sua missão de resgate aos reféns, criando de quebra subsídios para a propaganda anti-imperialista do regime do aiatolá Khomeini, e mais do que isso, força o governo estadunidense a ceder, através da assinatura dos Acordos de Argel [capital da Argélia, que mediou as discussões], às exigências do governo Xiita, de se comprometer a não intervir politica e militarmente no Irã, retirar as sanções e bloqueios econômicos impostos ao país desde a revolução, bem como as dívidas iranianas com instituições dos Estados Unidos seriam quitadas, dentre outras vantagens, em troca da liberação dos reféns e de sua saída segura do território iraniano.

Em suma, para um governo autoritário que se inicia, uma vitória dessa magnitude sobre uma potência hegemônica tem duas consequências: a primeira é o fortalecimento regional da república islâmica e a segunda é a legitimação dos meios usados pelo regime em busca de seus objetivos. Seja como for, o estrago foi feito... Estados Unidos [leia-se ocidente] e Irã já não possuem mais as “boas relações” dos tempos da monarquia, e a situação tende a piorar, posto que na mesma medida em que o petróleo se torna importante para o capitalismo ocidental, o governo teocrático iraniano se torna mais forte no Oriente Médio e começa a se configurar em uma influência negativa para as nações vizinhas.


Disponível em: <https://casamundicultura.com.br/wp-content/uploads/2019/04/featured-image-the-iranian-revolution.jpg> acesso 11 jan. 2020

A “vitória” dos revolucionários iranianos na crise dos reféns da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, somada ao fracasso do exército estadunidense na tentativa de resgate da operação Eagle Claw, aumentaram o apoio/temor popular a Khomeini, que começa a mirar suas ações para além dos territórios do Irã.

O aiatolá Khomeini começa a vislumbrar a possibilidade de expansão da Revolução Islâmica para os países vizinhos, principalmente o Iraque, cuja maioria da população era Xiita, mas era governado na época por Saddam Hussein, pertencente à minoria Sunita. O estabelecimento de uma grande revolução árabe a partir do Irã, além de fortalecer a religião e os grupos xiitas, possibilitaria um importante fortalecimento regional, decorrente do controle das principais áreas produtoras de petróleo do Oriente Médio por grupos que não fossem pró-ocidente, e que não aceitassem passivamente o imperialismo das potências europeias e dos Estados Unidos. Os interesses políticos da recém estabelecida República Teocrática Iraniana começava a se chocar invariavelmente com os interesses econômicos da grande potência americana, e obviamente esse tipo de condição conduz para conflitos e disputas entre as nações.

Antevendo os riscos de uma Revolução Xiita em seu país, nos moldes daquela experimentada pelo Irã, Saddam Hussein decide invadir o país vizinho em 1980, se aproveitando da debilidade da nação no momento de reestruturação política e econômica pós revolução. Além de evitar a perda do poder para os Xiitas de seu país, o presidente do Iraque buscava ainda a conquista e o domínio das vastas reservas de petróleo no território iraniano, uma vez que o governo Sunita do Iraque mantinha abertas as negociações petrolíferas com o ocidente. Como a Revolução Iraniana trouxe o rompimento do Irã com os Estados Unidos, a potência americana necessitava outro aliado importante na região, que além de garantir o suprimento de petróleo, manteria a presença estadunidense na região estratégica. Logo, o governo estadunidense passa a apoiar o regime de Saddam Hussein em sua tentativa de invasão e anexação do território do país governado pelo aiatolá Khomeini. [Em tempo, note que após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, Saddam Hussein entra para a lista de arqui-inimigos dos Estados Unidos, mas entre 1980 e 1988 o presidente iraquiano era um grande aliado americano...].


Disponível em: <https://ichef.bbci.co.uk/news/410/cpsprodpb/FDFD/production/_85912056_hi018856257.jpg> acesso 12 jan. 2020

A guerra entre Irã e Iraque não pode ser analisada apenas como um combate entre dois territórios vizinhos no Oriente Médio. Esse conflito se insere em uma geopolítica muito maior, que envolve os interesses de países que detém as maiores reservas mundiais de petróleo e as grandes potências, que dependem de sua exploração [você leu um spoiler...].

A debilidade militar e econômica de um Irã, como uma república revolucionária recém estabelecida, e a pouca capacidade financeira de um Iraque, externamente endividado e dependente de capitais e apoio externos, produziram um conflito que se arrastou por oito longos anos (1980 – 1988) e terminou sem nenhum vencedor, sem nenhum ganho material ou factual, embora as perdas, principalmente humanas tenham sido exponenciais. Estimativas (não oficiais) acreditam que durante os oito anos de batalhas (quase que exclusivamente corpo a corpo das infantarias) entre 400.000 e 800.000 pessoas (militares e civis) perderam as vidas em ambos os lados, e no final das contas foi assinado um cessar-fogo e as fronteiras foram mantidas exatamente nos mesmos limites que estavam antes da guerra... Mas a instabilidade estava estabelecida e o mercado do petróleo havia sido fortemente afetado, mais uma vez.


Continua...

domingo, 12 de janeiro de 2020

TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ - Parte I


A ESCALADA NAS TENSÕES POLÍTICAS ENTRE ESTADOS UNIDOS E IRÃ

Parte I: As origens no século XX

Por Éder Israel


Disponível em: <https://i.sozcu.com.tr/wp-content/uploads/2019/11/04/iecrop/abd-iran-aa-2_16_9_1572896309-880x495.jpg> acesso em 11 jan. 2020

Tensões políticas crescentes entre os governos dos Estados Unidos e do Irã marcam o início dessa terceira década do século XXI.

A compreensão da crise política atual envolvendo os governos dos Estados Unidos e do Irã traz consigo a necessidade de algumas ações iniciais, para que seja lançada luz sobre a situação e principalmente sejam desfeitos enganos de senso comum, arraigados em nosso pensamento ocidental, de que o Oriente Médio é uma região de relativa homogeneidade cultural e histórica. Apenas após a realização de tais “desambiguidades” seremos capazes de começar a entender o iceberg que se esconde sob o mar de acusações, sanções e discursos políticos acalorados por parte dos governantes das duas nações em questão.

Comecemos pelo começo (...) pela superação do pensamento comum de que todos os países do Oriente Médio (exceto Israel) são árabes... Na realidade o Irã é uma nação predominantemente Persa (sim, aquele velho resumo de aula, de que tudo no Oriente Médio é conflito árabe entre xiitas e sunitas não serve para entender verdadeiramente o Irã). Na realidade a população iraniana é composta por uma miscelânea de povos, etnias e culturas (bem do jeito que é o Oriente Médio), da qual cerca de 60% é de origem persa e apenas cerca de 3%(!) é de origem árabe. Para se ter uma ideia próxima do real, o povo Curdo, que luta pela criação de um Estado próprio, pois não possui ainda pátria, representa cerca de 6% da população iraniana. Sim, o Irã tem mais curdos sem pátria do que árabes nativos. Portanto, esqueça o mapinha mental do “xiita que briga com o sunita e um deles vira terrorista”. No nosso caso essa ideia não responde a todas as questões que surgirão, embora em certo momento essa minoria árabe passe a fazer parte ativamente do quadro de crise...

Desfeita essa ambiguidade étnico-cultural, necessitamos estabelecer um contexto histórico para os atuais conflitos entre a potência americana e a nação asiática. Embora as raízes mais profundas das questões políticas e territoriais do Irã remontem ao período de prosperidade do Império Persa, principalmente no período de 550 a.C. a 330 a.C. sob comando de Dario I e Xerxes I [até 1934 o Irã era chamado pelos estrangeiros de Pérsia, tendo “mudado de nome” apenas a partir de uma decisão governamental]. Mas, deixemos a história para a História e foquemos na geopolítica moderna. O século XX, principalmente após a Primeira Guerra Mundial traz consigo mudanças profundas no ordenamento mundial, principalmente para o Oriente Médio, que passa a ser uma região cada vez mais estratégica, em decorrência da expansão do consumo global de petróleo pelas nações ocidentais, e o Irã, uma das maiores reservas globais, passa a ser um novo Eldorado para o capitalismo industrial em expansão.


Disponível em: <https://www.onthisday.com/images/people/mohammad-reza-pahlavi-medium.jpg> acesso em 11 jan. 2020

Mohammad Reza Shah Pahlavi assume o poder no Irã como sucessor do pai, Reza Shah Pahlavi, em 1941 e permanece no posto até 1979.

As raízes históricas que nos interessam dentro da geopolítica atual do Oriente Médio remetem à primeira metade do século XX, quando o Irã (não mais Pérsia) passou a ser governado por Mohammad Reza Shah Pahlavi (para fins metodológicos, nos referiremos a partir de agora a esse governante como Xá Reza Pahlavi), o qual assumiu o poder e a condição de Xá (denominação dos monarcas persas), iniciando no país um governo baseado em uma monarquia  autocrática pró-ocidente, que governou o país a partir da Segunda Guerra Mundial, mantendo relações próximas com os Estado Unidos e a Inglaterra, nações interessadas na exploração das reservas petrolíferas iranianas pelo chamado Cartel das Sete Irmãs, composto por empresas ocidentais em busca do monopólio/cartel da exploração, refino e distribuição do petróleo, proveniente à época principalmente dos países do Oriente Médio. Xá Reza Pahlavi fazia parte da classe política muçulmana secular, isto é, não baseando em dogmas religiosos as decisões políticas (poderíamos arriscar a dizer, guardadas e respeitadas as devidas proporções, que um Estado muçulmano secular seria o mais próximo possível de um Estado laico ocidental [lembre-se, essa analogia é apenas pra fins metodológicos e auxílio à compreensão]).

Apesar de se autoproclamar herdeiro dos imperadores persas, inicialmente o poder do Xá Reza Pahlavi anda não era supremo no país, posto que o petróleo (a grande riqueza do Irã) ainda era controlado por seu primeiro-ministro, o nacionalista Mohammed Mossadeq, que havia anteriormente estatizado o setor petrolífero da nação, o que ia diametralmente contra as intenções imperialistas dos Estados Unidos e da Inglaterra para o Oriente Médio. Desse modo, Reza Pahlavi, com apoio das duas potências ocidentais deu um golpe em seu próprio primeiro-ministro em 1953, sob o pretexto de que a decisão de nacionalizar a produção de petróleo afastaria o Irã dos estadunidenses e ingleses, deixando o país à mercê de uma dominação soviética. Ora, o golpe dado pelo Xá Reza Pahlavi em seu próprio governo, mais do que uma mudança administrativa, estabelece factualmente a aproximação entre o governo do país asiático e as potências ocidentais, e mais do que isso, abre as portas do Golfo Pérsico pra as multinacionais petrolíferas, que estabeleceriam nesse contexto o Cartel das Sete Irmãs.

Nesse aspecto a política marcadamente secular do Xá começa a trazer choques de interesses com importantes lideranças religiosas do Irã, principalmente os árabes radicais Xiitas, completamente contrários à monarquia autocrática do país e principalmente à ocidentalização em curso na nação, decorrente da ampliação das relações econômicas (e agora políticas) com Estados Unidos e Inglaterra. Mais do que isso, a elite religiosa Xiita passa a buscar o fortalecimento político de suas lideranças, vislumbrando o estabelecimento de um Estado teocrático islâmico que controle o país e principalmente as reservas petrolíferas iranianas. [Perceba, e comece a fazer disso um hábito, que o atual arqui-inimigo do governo estadunidense no Oriente Médio, era no passado um aliado importante. Você irá se surpreender com o número de vezes ao longo do tempo que essa mesma história se repete...].

Outro aspecto importante e causador de significativo descontentamento interno no Irã era a visão passiva que o país passava a ter acerca da existência e legitimidade do Estado de Israel, criado em 1947/48 pela Organização das Nações Unidas – ONU e com claro e manifesto apoio dos Estados Unidos, agora parceiros da monarquia secular iraniana, o que coloca o Irã, país de maioria persa, em rota de colisão com uma minoria árabe Xiita barulhenta, que além de não apoiar a secularização política, não deseja a aproximação com o ocidente e abomina a existência de um território judeu formalizado na Terra Santa. O barril de pólvora do Oriente Médio que jamais se apagou de fato, volta a encontrar uma fagulha para explodir uma vez mais.

Na medida em que as pressões das minorias religiosas iranianas cresciam dentro do país, o Xá direcionava cada vez mais suas ações para o combate e afastamento de qualquer ideário socialista/comunista do Irã (afinal, era isso que preocupava os Estados Unidos, e não um grupo de clérigos Xiitas que compunham uma minoria tecnicamente insignificante no país). Porém, talvez o grande erro da monarquia autocrática de Reza Pahlavi foi exatamente subestimar as inquietações internas na nação, em detrimento da geopolítica global da bipolaridade da Guerra Fria. Os grupos contrários ao governo secular eram combatidos e massacrados pelo serviço secreto do governo (Savak), ampliando o autoritarismo na mesma escala em que crescia o descontentamento interno. Eram notórios os sinais de que a situação fugiria em breve do controle, posto que o próprio Xá foi alvo de pelo menos dois atentados a tiros durante seu governo, mas confiando no apoio estadunidense e nos petrodólares “infinitos”, a situação política interna do Irã foi sendo colocada cada vez mais em segundo plano.

Na segunda metade da década de 1970 explode um grande movimento contrário à monarquia, inicialmente articulado por uma elite econômica liberal iraniana, descontente com as intervenções externas na economia e no setor petrolífero do país [leia-se Sete Irmãs], um crescente movimento político de esquerda, violentamente reprimido e perseguido pela Savak e os clérigos religiosos [lideranças Xiitas] insatisfeitos pela secularização política e ocidentalização da cultura nacional. Na tentativa de conter a crescente onda de oposição interna, o Xá Reza Pahlavi realiza profundas reformas no sistema sociocultural do Irã, as quais foram conhecidas como “Revolução Branca”, com destaque para o banimento e censura de publicações de cunho marxista e islâmico, supervalorização de traços culturais de origem persa e não islâmica e direito de voto concedido às mulheres (o que trouxe ainda mais descontentamento às lideranças patriarcais Xiitas).


Disponível em: <http://pds13.egloos.com/pds/200811/17/23/b0042023_49207056e6536.jpg> acesso em 11 jan. 2020

A influência política do aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini cresce no Irã (mesmo ele estando exilado do país desde a década de 1960), na medida em que a imagem interna e externa do Xá Reza Pahlavi se desgasta em decorrência de suas políticas.

No contexto de aumento da repressão e da violência governamental no país, até mesmo o governo dos Estados Unidos, até então aliado e parceiro do Xá [é bem verdade que o então presidente Jimmy Carter estava pressionado pela mídia internacional e preocupado em não manchar a autoimagem estadunidense de guardião da liberdade e dos direitos humanos] ameaça encerrar o fornecimento de armamentos para o governo iraniano, caso esse não reveja seus atos de repressão e a autocracia crescentes no país, o que joga ainda mais combustível na fogueira de ânimos que encontra-se acesa no Oriente Médio. Sem ter alternativa, Reza Pahlavi afrouxa a rigidez política [leia-se autoritarismo], o que alimenta ainda mais as ondas de protestos, fortalecendo ainda mais uma ameaçadora personificação da oposição à monarquia secular, representada pela liderança do grupo Xiita, o aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini (na época comandando as manifestações do exílio). Agora com uma revolução popular batendo às portas, escândalos de corrupção assolando o governo e os Estados Unidos ameaçando abandonar a parceria, o Estado monarca iraniano se vê em grandes dificuldades.

Continua...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

CORREÇÃO COMENTADA DE GEOGRAFIA - SEGUNDA FASE FUVEST 2020




G01

A minissérie de TV com cartaz abaixo é uma ficção que remete à história de um dos piores desastres nucleares que ocorreram no século XX: a explosão na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia sob domínio soviético, em 26 de abril de 1986. Em razão de problemas operacionais e de projeto, um dos reatores da usina lançou uma nuvem na atmosfera, atingindo outras partes da então União Soviética e regiões da Europa Ocidental.   Apesar de relevante, Chernobyl corria o risco de desaparecer na névoa do passado da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que novas gerações cresciam com seus próprios traumas. Para os ucranianos, é conflito sempre presente com a Rússia.

Disponível em https://exame.abril.com.br/mundo/.



a) Aponte a causa dos impactos na saúde humana sugerida no cartaz.

Comentário:

O cartaz e o trecho da reportagem apresentados pela questão se relacionam ao acidente nuclear ocorrido na usina de Chernobyl, na Ucrânia, no ano de 1986, quando o superaquecimento levou ao colapso no reator da central elétrica, liberando grandes quantidades de materiais radioativos para a atmosfera. A exposição a esse tipo de material traz graves consequências para a saúde de qualquer indivíduo, principalmente a ocorrência de câncer (em grande escala de tireoide), leucemia, além de alterações biológicas que podem se tornar hereditárias, causando deformações nos descendentes dos indivíduos expostos à radioatividade.

b) Cite e explique um aspecto positivo do uso da energia nuclear.

Comentário:

A produção de energia nuclear apresenta uma série de fatores positivos para a sua adoção, apesar dos exemplos de problemas e acidentes exemplificados por Chernobyl - Ucrânia (1986) e Fukushima – Japão (2011). Dentre os aspectos positivos pode-se citar a pequena demanda de espaço para a construção das plantas produtivas, além da flexibilidade na sua localização, podendo essas ser construídas próximas a centros consumidores, barateando os custos de transporte e distribuição de energia. Ainda pode-se destacar o longo período de produção a partir do combustível radioativo utilizado (longa meia-vida), há também a elevada segurança no processo de produção (trata-se de uma fonte usada desde a década de 1950 e até hoje houveram apenas dois acidentes), bem como a baixa emissão de gases poluentes para a atmosfera, uma vez que durante o processo energético libera-se apenas vapor de água para o ambiente. Pode-se ainda inferir que trata-se de uma fonte que não depende diretamente dos fatores ambientais (vento, chuva, insolação...).

c)   Qual a relação entre o desenvolvimento da tecnologia nuclear e o contexto da Guerra Fria?

Comentário:

O desenvolvimento da tecnologia nuclear decorre do contexto do pós Segunda Guerra Mundial, quando Estados Unidos e União Soviética travaram uma guerra ideológica entre os sistemas capitalista e socialista, na chamada Guerra Fria. As duas potências hegemônicas desempenharam uma corrida aeroespacial e armamentista, na qual a busca pelo desenvolvimento e produção de armas atômicas servia para medição do poderio geopolítico entre as nações. Desse modo, muitas vezes a produção de energia nuclear pelas nações servia de desculpa/disfarce para programas atômicos voltados para fins militares. Por isso, o período da bipolaridade geopolítica marcou o momento de investimento mais maciço na atomística, quer para fins civis ou armamentistas.

G02

Introduzido nos anos 1990, o fator previdenciário vinculou o acesso à aposentadoria ao envelhecimento da população, visando à sustentabilidade financeira da previdência. Assim, cada aumento da expectativa de vida implica em aumento do tempo necessário de contribuição para manutenção do mesmo valor do benefício. (...) Ao desconsiderar as diferenças raciais em relação à expectativa de vida, o fator previdenciário é um fator de discriminação racial no Brasil. Tal evidência não pode ser ignorada pelas políticas públicas, sob o risco de ficar cada vez mais distante a meta de alcançar um país mais justo.

Disponível em http://dssbr.org/site/2012/01/fatorprevidenciariofatordediscriminacaoracial/.



a) Numa pirâmide etária, que aspecto visual (em relação à sua forma) permite estimar a proporção da população idosa em relação ao total da população?

Comentário:

Uma pirâmide etária representa graficamente a distribuição da população de uma localidade de acordo com sua faixa etária e seu gênero. Desse modo a base da pirâmide representa a proporção de pessoas crianças e jovens (geralmente entre 0 e 16 anos); o meio representa a população adulta (geralmente entre 17 e 59 anos); enquanto o topo se refere à população idosa (geralmente acima de 60 anos). Desse modo, para estimar a proporção de idosos na composição demográfica de uma localidade deve-se analisar o topo da pirâmide, sendo que quando essa parte encontra-se mais larga (como a referente à população branca) significa que a população idosa é maior, demonstrando uma alta expectativa de vida; ao passo que uma pirâmide de topo estreito (como a referente à população parda e preta) demonstra uma menor expectativa de vida, e consequente pequena parcela de pessoas idosas.

b) Cite e explique dois fatores de natureza socioeconômica que contribuem para a diferenciação entre as pirâmides etárias.

Comentário:

A diferenciação entre as duas pirâmides etárias apresentadas pela questão pode ser explicada com base em diversos fatores, podendo os mesmos ser de ordem histórica, social, política e econômica, uma vez que ambos refletem diretamente sobre a qualidade de vida das populações, e automaticamente estabelece dados importantes como a longevidade e a distribuição etária dos indivíduos dessas populações. Dentre os aspectos socioeconômicos que podem ser citados para explicar a diferença entre as pirâmides dos pretos-pardos e dos brancos se destacam a concentração de renda, que faz com que a população preta e parta possua menor porcentagem de renda, limitando seu acesso às comodidades e serviços essenciais da vida moderna, afetando assim sua expectativa de vida. 

Pode-se ainda citar o acesso desigual aos sistemas de saúde (público ou privado) que coloca em sua maioria a população parda e negra em situação de maior risco social e exposição a dificuldades no que tange o tratamento de enfermidades; O acesso ao sistema educacional e consequentemente à qualificação profissional também cria condições de vida desiguais entre os grupos brancos e pretos, o que consequentemente afeta a renda e o acesso aos serviços básicos, reduzindo a expectativa de vida dos grupos mais marginalizados.

c) Usando dados da comparação entre as pirâmides etárias, explique por que o texto afirma que “o fator previdenciário é um fator de discriminação racial no Brasil”.

Comentário:

O fator previdenciário estabelece a idade mínima da população para a aposentadoria com base na expectativa média de vida das pessoas do país. Porém, as pirâmides apresentadas pela questão retratam diferenças visíveis na expectativa de vida da parcela branca em relação à parcela preta e parda, o que torna injusto para essa última a adoção de um fator baseado em média geral para a aposentadoria. 

Ao se analisar as pirâmides etárias apresentadas, nota-se que o topo da pirâmide referente aos pretos e pardos é bem mais estreita do que o topo da pirâmide da população branca, o que demonstra desigualdades latentes no que tange à expectativa de vida. Assim, um sistema previdenciário justo seria baseado nas diferenças socioeconômicas da população, para que a aposentadoria fosse relacionada à idade do grupo social, e não à média nacional, posto que o Brasil apresente profundas desigualdades, o que inviabiliza qualquer tentativa de nivelamento ou generalização de sua população.

G03


Disponível em http://www.iucn.org/. Adaptado.

Consiste em uma área úmida, definida como “ecossistema costeiro, de transição entre os ambientes terrestre e marinho, característico de regiões tropicais e subtropicais, sujeito ao regime das marés”.

(SCHAEFFERNOVELLI, 1995).

a) Qual é o ecossistema representado em destaque no mapa e descrito no excerto?  

Comentário:

O ecossistema demarcado no mapa apresentado pela questão se refere aos manguezais ou simplesmente mangues, que recobrem as faixas de transição entre os ambientas aquáticos e terrestres, nas faixas litorâneas de baixas latitudes.

b) Aponte as razões da ocorrência desse ecossistema na faixa destacada do mapa e explique uma de suas funções ambientais.

Comentário:

A ocorrência do ecossistema dos manguezais na faixa destacada na questão encontra-se associada às questões climáticas, uma vez que essas localidades recobrem áreas quentes e úmidas nas zonas intertropicais da Terra, favorecendo ali o estabelecimento de uma rica biodiversidade. Assim como questões ambientais, posto que os mangues representem faixas de transição (ecótonos) entre ambientes aquáticos e terrestres, de elevada salinidade, em decorrência das águas oceânicas.

A principal função ambiental desses ecossistemas se associa à reprodução da fauna aquática, que utiliza a proteção de suas raízes aéreas/pneumatóforos como berçários naturais, combinado com a vasta oferta de alimento e de águas rasas e aquecidas. Estima-se que cerca de 90% da fauna marinha de águas rasas se reproduza nesses ambientes, o que torna essas regiões vitais para a manutenção do equilíbrio biológico dos oceanos.

c) Cite e explique dois fatores antrópicos que ameaçam esse ecossistema no Brasil. 

Comentário:

Por tratar-se de um ambiente de transição botânica, o mangue apresenta grande sensibilidade às ações antrópicas, sofrendo grande e constante ameaça de devastação na contemporaneidade, o que pode afetar não apenas a flora do ecossistema, mas também toda a fauna marinha, que depende dessas áreas para a reprodução. Dentre as ações humanas causadoras das maiores degradações nos mangues destaca-se a ocupação imobiliária, principalmente ligada ao setor turístico nas áreas costeiras intertropicais, que promove o desmatamento desses locais; assim como o aterramento e drenagem dessas áreas para a construção de complexos portuários ou marinas, afetando diretamente a fauna e flora endêmicas do local. Há ainda a problemática ambiental ligada à coleta predatória de caranguejos pelas populações residentes.

Pode-se destacar ainda a poluição continental, lançada nos corpos hídricos interiores, que conduzem os poluentes em direção à foz dos rios, direcionando o esgotamento doméstico e industrial (sem tratamento) para os mangues, afetando diretamente as condições naturais desse sensível ecossistema. 

Nos últimos anos, tendo como pano de fundo os mangues brasileiros, foram observados dois grandes impactos ambientais decorrentes de causas antropogênicas, sendo o primeiro a chegada dos efluentes mineralógicos provenientes do rompimento da barragem de contenção em Mariana – MG, que contaminou grandes extensões de mangues no litoral do Espírito Santo, e mais recentemente houve também a contaminação de vastas áreas de mangues, principalmente no litoral nordestino, em decorrência da chegada de grandes manchas de petróleo trazidas pelas águas oceânicas, cuja procedência ainda é desconhecida pelas autoridades brasileiras.

G04

A RENCA (Reserva Nacional do Cobre e Associados) é uma área de 46.450 km2 criada em1984 que comporta diversos tipos de jazidas minerais, onde a CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais) detém exclusividade na condução de trabalhos de pesquisa geológica, determinando a viabilidade quanto às atividades de extração. Há séculos, essa área é ocupada por povos originários que tiveram em suas terras a prospecção mineral. A demarcação das terras indígenas nessa área teve início somente a partir da década de 1990.



Disponível em https://www.socioambiental.org/. Adaptado.

a) Cite uma aplicação econômica de um dos minérios que podem ser encontrados na região.

Comentário:

A criação da RENCA (Reserva Nacional do Cobre e seus Associados) em 1984 fez parte do período final de políticas de estatização na economia brasileira, quando buscava-se garantir ao Estado o controle, ou por vezes o monopólio, sobre a produção e a comercialização de recursos estratégicos, principalmente os minerais. Na área delimitada pela RENCA, onde ficou vedada a participação ou exploração dos recursos por parte da iniciativa privada, seja ela nacional ou estrangeira, há grandes jazidas de minerais considerados nobres, tais como Cobre, Ouro, Tungstênio, Titânio e Tântalo, todos eles utilizados e supervalorizados pelas indústrias modernas.

O cobre é amplamente utilizado na indústria moderna por conta de sua ductilidade e maleabilidade, e principalmente em função de sua condutibilidade elétrica e térmica, bem como é usado também na composição de ligas metálicas, como o latão e o bronze. O ouro, além de seu uso popular na indústria joalheira, apresenta também ampla utilização na indústria moderna, principalmente a informática, por conta de sua condutibilidade elétrica e resistência à oxidação. O tungstênio é utilizado pelas indústrias siderúrgicas e metalúrgicas para a composição de ligas metálicas de alta resistência e elevado poder abrasivo, além da indústria militar que emprega o mineral na fabricação de munições penetrantes. O titânio é empregado pela indústria na produção de ligas metálicas de alta resistência à tração, principalmente nos setores navais e aeroespaciais, Sendo ainda importante para o setor médico na produção de próteses e implantes. O tântalo é empregado para a produção de ligas metálicas para turbinas de jatos e reatores nucleares, devido a sua elevada resistência, bem como na indústria de informática para a produção de capacitores.

b) Utilizando a legenda do mapa, destaque dois conflitos sociais passíveis de ocorrência na região.

Comentário:

Segundo a legenda do mapa, há duas áreas principais de risco de conflito caso a revogação da RENCA seja de fato mantida pelo governo federal. São elas referentes ás áreas ocupadas por povos indígenas (Parque Indígena – PI e Terra Indígena – TI) e às áreas destinadas a atividades extrativistas tradicionais (Reserva de Desenvolvimento Sustentável – RDS e Reserva Extrativista – RESEX).

No tocante às áreas ocupadas pelos povos indígenas a revogação da RENCA daria início a um processo de ocupação econômica dessas terras por indústrias mineradoras, garimpeiros e madeireiros, atraídos pela possibilidade de exploração dos recursos ali existentes e até então monopolizados pelo Estado. Ao passo que para os povos tradicionais que realizam atividades extrativistas de produtos da floresta, como o açaí e a castanha, esses seriam afetados pelo desmatamento necessário para a abertura de vias de escoamento da produção mineral, além da ocupação de áreas de onde retiram seu sustento por grandes projetos mineradores legalizados ou mesmo por garimpos ilegais.

c) Cite e explique dois tipos de impactos ambientais decorrentes da exploração minerária.

Comentário:

O processo de exploração e beneficiamento de recursos minerais traz consigo uma série de impactos ambientais de diferentes magnitudes sobre a área onde tal atividade se circunscreve. Dentre os principais impactos se destacam o desmatamento, necessário para a abertura das lavras de extração e das vias de escoamento da produção; a consequente exposição do solo após a retirada da cobertura vegetal, que potencializa os processos erosivos, acarretando perda de fertilidade e assoreamento dos corpos hídricos onde os sedimentos serão depositados pela enxurrada. Há ainda o risco de contaminação do solo, das águas superficiais e subterrâneas com produtos químicos utilizados durante o processo, tais como o mercúrio e a soda cáustica. Como resultado desse conjunto de mudanças nas condições edáficas do ambiente, ocorre ainda a perda de biodiversidade nativa, podendo ocasionar inclusive extinção de espécies endêmicas.

G05

Analise os dados de precipitação média anual para as localidades.



Disponível em https://pt.climatedata.org/.

"A velha identificação desse setor costeiro de exceção  o 'cabo frio'  possibilitou interpretar a combinação de fatores que responde pela presença de aludido reduto de caatingas na referida região".
(AB´SÁBER, 2003).

Com base na análise dos dados de precipitação média anual, na localização das estações meteorológicas e em seus conhecimentos sobre a dinâmica climática e oceanográfica da região, responda:

a) Que fenômeno oceanográfico ocorre nas águas oceânicas da região de Cabo FrioRJ?

Comentário:

O fenômeno oceanográfico que acontece na costa do Rio de Janeiro, na região de Cabro Frio é conhecido como ressurgência ou afloramento marinho, no qual as águas frias subsuperficiais sobem para a superfície do oceano, trazendo consigo grandes cargas de nutrientes dissolvidos. Esse fenômeno tem importância para a fauna aquática, posto que atrai cardumes pela abundância de alimentos aflorados e para a dinâmica climática local, uma vez que as águas mais frias possuem menor potencial evaporativo, reduzindo os níveis de chuva nas áreas adjacentes.

b) Qual é a atividade de extração mineral conhecidamente associada à região de Cabo FrioRJ? Explique como um fenômeno natural que ocorre na região corrobora para a existência dessa atividade.

Comentário:

A atividade de extração que ocorre em Cabo Frio é a produção de sal marinho, que é facilitada pelo fenômeno da ressurgência, uma vez que o menor índice de chuvas na região favorece à evaporação das águas contidas nas salinas, permitindo a separação de sal das águas marinhas. No fragmento de Aziz Ab’Saber ele menciona a existência de “caatingas” na região, demonstrando o baixo índice pluviométrico, permitindo a elevação das concentrações salinas nas águas.

c) Qual a explicação física para a redução das precipitações em Cabo FrioRJ e qual sua manifestação na paisagem continental?

Comentário:

A explicação física para o baixo índice pluviométrico registrado na região de Cabo Frio está associada ao fenômeno da ressurgência, uma vez que a redução das temperaturas da superfície do Oceano Atlântico diminui o processo de evaporação das suas águas e consequentemente diminui a formação de nuvens e a ocorrência das chuvas nessa zona. Combinado a isso tem-se a atuação dos ventos em direção ai interior do continente, em decorrência da alteração da pressão atmosférica, os quais conduzem a umidade para a região mais central do estado.

Uma manifestação na paisagem continental decorrente dessa alteração do microclima é o estabelecimento de faixas com aspectos similares às zonas semiáridas em Cabo Frio, onde as vegetações apresentam aspectos botânicos típicos das caatingas e dos campos cerrados, com vegetações xerófilas e com galhos e troncos retorcidos e tortuosos.

G06

China contraataca tarifas americanas com uma das armas que mais irritam Trump O Banco Central da China, no dia 5 de agosto de 2019, permitiu que o yuan, moeda oficial do país, ultrapassasse pela primeira vez uma barreira de onze anos na relação com o dólar americano. A cotação do yuan ficou acima de 7 para 1, num claro contraataque de Pequim às novas tarifas anunciadas pelo presidente Trump sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses.

O mercado teme que a medida provoque ainda mais a ira do presidente Trump, que acusa Pequim de desvalorizar artificialmente sua moeda para impulsionar as exportações. “Devido ao unilateralismo, ao _______(I)_________ comercial e às tarifas impostas à China, o yuan se depreciou em relação ao dólar americano, quebrando a barreira dos 7 para 1”, diz nota do Banco Central chinês.

Disponível em https://www.gazetadopovo.com.br/ Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional/. Adaptado.



Considerando o excerto e o gráfico, responda:

a) A palavra omitida no texto é um conceito que caracteriza a posição dos EUA ao tarifar os produtos chineses. Qual é esse conceito? Responda na folha de respostas.

Comentário:

A palavra omitida no texto apresentado pela questão se refere ao protecionismo, praticado na maioria das relações comerciais estabelecidas entre as nações, nas trocas globais de mercadorias no atual estágio da globalização. O protecionismo comercial é considerado hoje o principal entrave para a liberalização econômica entre as nações na tentativa de estabelecer uma sociedade marcadamente globalizada.

Esse mecanismo comercial se manifesta de várias maneiras, podendo ser considerado uma barreira tarifária (quando a nação cobra impostos para permitir a entrada de um produto importado em seu mercado) ou uma barreira não-tarifária (quando um país estabelece uma cota máxima de produtos estrangeiros que podem adentrar seus mercados; ou ainda quando impõe alguma proibição sanitária aos produtos que vem de fora). Há ainda o auxílio que os governos nacionais oferecem a seus produtores, visando reduzir seus custos e torna-los mais competitivos aos produtores de nações mais pobres, que possuem custos menores, sendo esse auxílio chamado de subsídio.

b) Utilizando elementos do gráfico, caracterize a relação comercial entre os EUA e a China.

Comentário:

A relação comercial estabelecida entre Estados Unidos e China reflete diretamente as condições econômicas atuais das duas nações, sendo a nação americana uma potência já desenvolvida e hegemônica, enquanto a nação asiática se trata de uma potência emergente em fase ainda de desenvolvimento econômico. Desse modo, tem-se que os Estados Unidos se destacam como grandes exportadores de produtos modernos e de alto valor agregado, ao passo que a China domina as exportações de produtos de menor nível tecnológico e commodities de menor valor agregado.

Ao se analisar os dados constantes no gráfico é possível observar que a balança comercial entre essas nações encontra-se deficitária para os Estados Unidos, principalmente após a entrada da China na Organização Mundial do Comércio - OMC em 2001, quando novos mercados (como o americano) foram amplamente abertos para os produtos provenientes das chamadas Zonas Econômicas Especiais – ZEEs instaladas no litoral chinês após a morte de Mao Tsé-Tung e a adoção do sistema Socialista de Mercado.

Pode-se afirmar que o volume de mercadorias chinesas que entram no mercado americano é infinitamente maior que o volume de produtos estadunidenses que entram no país asiático, pois os produtos da China possuem um valor agregado muito baixo e mesmo assim, em termos financeiros, atingiu em torno de cinco vezes o valor financeiro dos produtos estadunidenses exportados para a China. Portanto, o mercado dos Estados Unidos representa um dos principais focos das exportações das indústrias chinesas, ao passo que os produtores chineses representam um dos maiores fornecedores para os consumidores estadunidenses.

c) Explique como a desvalorização cambial do Yuan influencia a balança comercial entre esses países.

Comentário:

A desvalorização do Yuan (moeda chinesa) é uma das principais estratégias econômicas adotadas pelo país asiático (essa mesma estratégia foi adotada pelos Tigres Asiáticos, ao se converterem em Plataformas de Exportação a partir da década de 1970). A subvalorização cambial torna os salários e impostos chineses muito mais baixos, atraindo muitos investimentos estrangeiros, além de reduzir o poder de compra da população nacional, criando condições para o surgimento de uma poupança interna da nação.

Tendo custos produtivos tão baixos, as mercadorias da China se tornam muito mais competitivas nos mercados externos, principalmente naqueles em que o poder de compra dos consumidores seja maior, como é o caso dos Estados Unidos, o que explica os diferentes volumes de ganho de cada nação no gráfico apresentado.  Os produtos baratos da China são muito mais acessíveis aos ricos consumidores estadunidenses do que os caros produtos dos Estados Unidos para os pobres consumidores chineses.